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O título mundial não veio, mas a atuação do Flamengo diante do Liverpool é o grande legado de 2019 no futebol brasileiro

Time de Jorge Jesus sentiu o cansaço e viu o Liverpool levar o Mundial Interclubes da FIFA; vitória dos Reds veio apenas na prorrogação com gol de Roberto Firmino

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Alexandre Vidal / Flamengo

Já fazia algum tempo em que este que escreve não via uma equipe brasileira batendo de frente com uma europeia desde o Vasco em 1998 (contra o Real Madrid) e o Palmeiras de 1999 (contra o Manchester United). Ou um time tão aplicada taticamente como o Corinthians de Tite na conquista de 2012 (diante do Chelsea). O mesmo quaro se repetiu em 2019. O Flamengo teve uma das suas melhores atuações na temporada diante do mais do que favorito Liverpool de Jürgen Klopp. O título do Mundial Interclubes da FIFA acabou ficando com os Reds, fato que era até esperado. Por outro lado, os comandados de Jorge Jesus mostraram que, se não estão no mesmo patamar, estão próximos dos agora campeões mundiais. A atuação do Flamengo é o grande legado do futebol brasileiro nesse ano de 2019 e merece sim ser valorizada por quem acompanha e aprecia o velho e rude esporte bretão.

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Já era sabido o técnico Jürgen Klopp iria mandar o Liverpool para a decisão do Mundial Interclubes da FIFA com o que tinha de melhor à sua disposição. Sadio Mané, Firmino, Van Dijk e Alexander-Arnold foram o jogo e mostraram por que os Reds formam a melhor equipe do mundo na atualidade. O time inglês sabe explorar como poucos a bola longa às costas da defesa adversária. E foi dessa maneira que criou pelo menos três chances claras de gol antes dos 15 minutos de partida. O Flamengo demorou um pouco para entender como o Liverpool armava as suas jogadas e sofreu com as investidas de Alexander-Arnold e Salah pra cima de Filipe Luís e Pablo Marí. Da mesma maneira que também sentiu a intensidade quase insana do time comandado por Jürgen Klopp. Enquanto se fechava num 4-4-2 com o máximo de compactação possível, o Fla via o Liverpool variar seu desenho tático do 4-3-3 usual para um 4-1-4-1 e até um 4-2-4 com os avanços de Oxlade-Chamberlein e Keita para o ataque.

O Liverpool explorou bem as bolas longas às costas da defesa do Flamengo e criou boas chances no começo da partida. O time de Jorge Jesus demorou para compreender como seu adversário atacava e sofreu bastante com isso. Foto: Reprodução / TV Globo

Os mais antigos costumam dizer que é nas dificuldades que surgem as oportunidades. E o Flamengo (assim como Jorge Jesus disse na última entrevista coletiva antes da final) tentou impor seu estilo de jogo e criou alguns problemas para o Liverpool. Principalmente com Bruno Henrique partindo pra cima do espaço entre Alexander-Arnold e Joe Gomez a partir do lado esquerdo. Ao mesmo tempo, a movimentação do quarteto ofensivo do Flamengo chegou a igualar a intensidade do seu adversário em alguns momentos. Enquanto tiveram fôlego, Éverton Ribeiro e Arrascaeta tentaram abrir espaços saindo do lado para o centro do campo e contaram com um Willian Arão absurdamente comprometido com a saída de bola e incrivelmente esperto nos passes. Seja na “saída de três” junto de Rodrigo Caio e Pablo Marí ou aparecendo no campo ofensivo e armando as jogadas. Pena que Gabigol esteve bem vigiado por Van Dijk e que Alisson foi bem quando exigido.

Enquanto tiveram fôlego, Éverton Ribeiro e Arrascaeta se mexeram bastante e abriram espaços para Gabigol e Bruno Henrique. Willian Arão foi outro que esteve muito bem na saída de bola e nas chegadas ao ataque. O Flamengo também criou as suas chances. Foto: Reprodução / TV Globo

Com o final da partida, o time do Flamengo foi se cansando e sentindo muito a diferença grande preparo físico para o Liverpool. Tanto que Jorge Jesus sacou Éverton Ribeiro e Arrascaeta da partida (para as entradas de Vitinho e Diego) antes do final do tempo normal, fato que deixou muitos torcedores rubro-negros contrariados e até mesmo revoltados com as mexidas do Mister. Jorge Jesus explicou após a partida que tanto Arrascaeta como ER7 sentiram demais o cansaço e a alta intensidade importa pelos Reds e que era preciso colocar jogadores mais descansados em campo para ajudar Rafinha e Filipe Luís na marcação a Salah, Mané e companhia. As câmeras da TV mostraram Arrascaeta e Éverton Ribeiro completamente extenuados no momento em que eles deixaram o jogo, mas o ponto aqui é que a saída dos dois tirou muito da criatividade do Flamengo na partida. Sem entrar no mérito se Jorge Jesus errou ou não, a impressão que fica era a de que não havia muito o que fazer diante da situação que se apresentava para o Mister.

A diferença no preparo físico e a qualidade dos jogadores do Liverpool começou a fazer a diferença no final da segunda etapa. Ao mesmo tempo, Éverton Ribeiro e Arrascaeta sentiram demais a intensidade da partida e saíram de campo extenuados para as entradas de Vitinho e Diego. Foto: Reprodução / TV Globo

Mesmo assim, é importante enfatizar que o Liverpool só conseguiu abrir o placar aos 8 minutos do primeiro tempo da prorrogação. E no seu melhor estilo. Henderson recebeu na intermediária e viu Sadio Mané se lançando ao ataque em velocidade junto com Firmino. O passe do camisa 14 saiu no momento certo para o atacante senegalês que serviu o brasileiro dentro da área. Daí até o gol, Firmino mostrou a sua frieza e a sua qualidade para marcar o gol do título. E enquanto os dois partiam em velocidade para a área do Flamengo, o egípcio Salah abria o campo pela direita e prendia seu marcador por ali. Tudo para abrir espaços na defesa rubro-negra e permitir que Firmino e Mané pudessem ter tempo para pensar a jogada de ataque. Rodrigo Caio (que vinha de partida primorosa) acabou falhando no lance. Assim como o menino Lincoln falhou na hora de marcar aquele que seria o gol de empate. Ou como Jorge Jesus acabou pecando pela impulsividade ao sacar os dois jogadores mais técnicos do time tão cedo. Melhor para o Liverpool.

Henderson recebe no meio e já visualiza Mané partindo em velocidade e abrindo espaços para Firmino. O Liverpool marcou o gol da vitória no seu melhor estilo. Contra-ataque de manual, disciplina tática e frieza de dois dos melhores jogadores do mundo na atualidade. Foto: Reprodução / TV Globo

Este que escreve disse lá em cima que não gostaria de entrar na discussão dos erros de Jorge Jesus. Ao mesmo tempo, vale lembrar que se o Fla toma um gol com Arrascaeta e Éverton Ribeiro em campo, é muito provável que todos nós estivéssemos reclamando do mesmo jeito e perguntando por que o Mister não sacou um dos dois e colocou alguém mais descansado. Este que escreve manteria pelo menos um dos dois por mais algum tempo, mas a justificativa do Mister parece bastante plausível diante do que a partida apresentou em Doha. O Flamengo poderia ter sido mais incisivo quando teve a posse da bola e rondou a área do Liverpool. Talvez, se tivesse explorado mais o chute de média e longa distância ou se o time não sentisse tanto o cansaço, as coisas poderiam ter sido diferentes. Na prática, os Reds fizeram exatamente o que o Fla fez com seus adversários aqui no Brasil: se impôs no preparo físico e na estratégia, esperou o momento certo de atacar e saiu vitorioso do Khalifa International Stadium. Simples.

Assim como o Vasco em 1998, o Palmeiras em 1999 e o Corinthians em 2012, o Flamengo foi mais uma equipe brasileira que bateu de frente com uma europeia. O título não veio, é verdade, mas a atuação dos comandados de Jorge Jesus precisa ser exaltada e valorizada. Ao mesmo tempo, ela também mostra um caminho bem possível para o futebol brasileiro, seja no campo das ideias ou no campo de jogo em si. Talvez este seja o grande legado que o ano de 2019 deixa para o futebol brasileiro nesses tempos de 7 a 1 e das velhas e conhecidas bagunças nos bastidores. É possível sim chegar no patamar dos clubes do Velho Continente sem abrir mão do seu estilo e das suas tradições. O Flamengo teve uma atuação surpreendente e só valoriza o velho e rude esporte bretão praticado por aqui. Dava pra ter vencido o Liverpool? Sim, dava. Mas o aprendizado para uma outra oportunidade e para um novo ano que está chegando. Não somente para o Flamengo, mas para todos os times que almejam títulos importantes aqui e fora do Brasil.

O futebol europeu ainda é superior ao futebol brasileiro quando o assunto são as competições interclubes. Mesmo assim, o Flamengo de 2019 se soma a outras equipes históricas e deixa um legado valiosíssimo para o futuro. Quem sabe não chegamos lá nos próximos anos?

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