Arnaldo Ribeiro – Raí: até a próxima!

Colunista do Torcedores.com analisa desempenho de Raí no São Paulo e relembra momentos

Arnaldo Ribeiro
Colaborador do Torcedores

Crédito: Rubens Chiri/saopaulofc.net

Raí deveria ou não seguir no comando do futebol do São Paulo?

A minha resposta está no fim do texto e me custou um bocado. Vou explicar por quais motivos…

Raí apareceu pela primeira vez na minha vida antes mesmo de eu me formar em jornalismo. Admirador de seu futebol desde os tempos de Botafogo (SP), Ponte Preta, seleção brasileira e São Paulo, decidi elege-lo como personagem do meu primeiro “perfil” na faculdade.

1991… Raí já era capitão do São Paulo de Telê Santana. Disputava as finais do Campeonato Brasileiro daquele ano. Fui com a cara e coragem, de ônibus, ao Centro de Treinamento da Barra Funda. Me identifiquei pela grade, depois do treino. Finalzinho da tarde. Ele foi atencioso. Disse: “Preciso tomar banho e fazer fisioterapia. Depois te atendo.” Passou mais de 1 hora. O vigia do CT me aconselhou: “Garoto: já é de noite. Vá embora. Não adianta esperar mais.” Decidi esperar…

Ele enfim apareceu. Me convidou para sentar ao redor da piscina do Centro de Treinamento e conversou comigo com a maior paciência do mundo. Mais de 1h de fita. Sabia da história toda da vida dele. Escrevi o perfil, todo orgulhoso. “Matei a pau”, pensei. Na avaliação, o professor Luiz Egypto deu nota mínima. “Apuração: muito boa. Texto: sem molho.” Minha primeira lição como jornalista. Não basta ter todas as informações . É preciso seduzir o leitor. Básico…

Segui Raí à distância. Foi campeão brasileiro, da Libertadores, do mundo, muito mais que o “irmão do Sócrates”… E eu me formei em jornalismo, escrevendo um pouco melhor. Entrevistei Raí várias vezes depois. Pelo São Paulo, seleção, PSG, pelo São Paulo de novo… Pela Folha, Estadão, Placar…

No dia em que voltou ao São Paulo e foi campeão paulista contra o Corinthians, em 1998. No dia em que perdeu dois pênaltis contra o mesmo Corinthians, em 1999. Quando parou de jogar, em 2000, depois de ter se recuperado de grave lesão no joelho.

A relação com ele não terminou aí. Eventos do excelente projeto da Fundação Gol de Letra, com direito a alguns jogos contra e a favor. Raí participou até de alguns rachas na nossa pelada de quinta-feira, com gente da Editora Abril, da ESPN…

Sujeito legal. Simples. Digno. Correto. Atencioso. Humano. Convidei Raí para fazer parte do elenco da ESPN, primeiro como “embaixador”, depois como parte do elenco do Resenha ESPN, hoje comandado por André Plihal.

Na ESPN, Raí sempre foi o mesmo cara exemplar de sempre. Até que um dia o São Paulo de Leco o convidou. Seu fiel escudeiro e conselheiro Paulo Velasco logo pediu o desligamento das funções de comentarista da ESPN por “incompatibilidade”. Nada mais sensato.

Fui rever Raí num bar, depois de um Linha de Passe de segunda-feira, mesmo dia em que ele, recém-empossado, anunciou que Hernanes não ficaria no São Paulo e que Lucas Pratto estava voltando para a Argentina por “saudade da filha”. Critiquei duramente Raí e sua postura passiva e conformista como novo comandante no Linha de Passe. No bar, ele foi tirar satisfações, inconformado com meus comentários. Tentei esclarecer ali que, apesar da minha admiração incontestável, estávamos a partir daquele momento em lados opostos: eu, comentarista; ele, cartola.

E Raí não repetiu como cartola o sucesso que teve como jogador. Longe disso. Não por falta de esforço. Sacrificou sua vida pessoal. A Fundação. Se entregou de alma e corpo, mas cometeu alguns deslizes – não dá para ser fotografado na França, em Roland Garros, com o São Paulo disputando final de campeonato. Não dá!

Raí falhou como comandante, como líder, na tomada de decisões – justamente suas maiores virtudes como atleta. Escolher André Jardine e Fernando Diniz como treinadores do São Paulo, no atual momento, por um ideal “de jogo bonito” são coisas imperdoáveis, estapafúrdias, de quem não tem visão estratégica, assim como a falta de uma cobrança mais efetiva em cima dos atletas e comissão técnica.

Mesmo cético em relação ao seu eventual substituto (provavelmente um conselheiro qualquer), a conclusão é que Raí está reprovado na sua primeira experiência como dirigente. Tenho total tranquilidade para afirmar isso, embora me custe, sim. E estou pronto para pagar o chopp que faltou naquele bar, há dois anos – para conversar com ele e explicar todas essas linhas acima.

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