Seleção Feminina encerra 2019 com evolução do sistema defensivo e ótimas opções para a disputa dos Jogos Olímpicos; entenda

Time comandado por Pia Sundhage venceu o México por 4 a 0 neste domingo (15), em Araraquara; Seleção Feminina encerra o ano invicta sob o comando da treinadora sueca

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

A primeira partida da sueca Pia Sundhage no comando da Seleção Feminina aconteceu no dia 29 de agosto, na goleada de 5 a 0 sobre a Argentina no Pacaembu, em São Paulo. De lá até o último domingo (15), quando o escrete canarinho conquistou a sua sexta vitória em oito partidas sob o comando da treinadora sueca, muita coisa aconteceu no time. Uma nova ideia de jogo foi implementada e novas jogadoras começaram a ganhar espaço na equipe brasileira. A nova goleada sobre o México, inclusive, mostrou que a Seleção Feminina evoluiu bastante desde a eliminação para a França na Copa do Mundo. Há ótimas opções para o time titular em todos os setores. Ainda há muito a se fazer até o início dos Jogos Olímpicos de Tóquio no próximo ano, é verdade. Mas as últimas atuações mostram que a equipe comandada por Pia Sundhage pode nos dar grandes alegrias num futuro bem próximo.

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Pia Sundhage não mexeu muito no time que goleou o México na última quinta-feira (12), em São Paulo. A goleira Luciana, a atacante Chú e a jovem lateral Isabella ganharam noca oportunidade na Seleção Feminina e se juntaram a Cristiane, Bia Zaneratto, Debinha, Tamires e Luana no seu 4-4-2 costumeiro. Assim como aconteceu anteriormente, a movimentação das jogadoras fazia com que a Seleção Feminina se organizasse num 4-2-2-2 e até mesmo num 4-1-3-2 conforme o posicionamento mais ofensivo de Andressinha. No entanto, as mexicanas entraram em campo exercendo uma marcação sob pressão e fechando bem a sua área num 4-1-4-1 bem compactado na frente da sua área. A solução para furar a defesa adversária foi a movimentação inteligente e a intensidade nas transições, coisa que Bia Zaneratto fez com maestria ao sair da área e ocupar os lados do campo e abrindo espaço para a chegada das demais jogadoras brasileiras. Debinha seguia fazendo o contraponto ofensivo ao jogar mais por dentro e dar ainda mais opções de passe.

Bia Zaneratto saía da área e abria espaço para as subidas de Debinha, Chú e Andressinha. Essa movimentação foi importantíssima para abrir espaços no 4-1-4-1 mexicano. Foto: Reprodução / SporTV

Foi a partir dessa movimentação de Bia Zaneratto pelos lados do campo que o Brasil abriu o placar com Cristiane logo aos nove minutos de jogo na Fonte Luminosa. E o time funcionava bem mais uma vez. Debinha fazia a diferença novamente partido do lado direito e abrindo espaços para as subidas de uma Isabella ainda tímida no apoio, Luana fechava bem os espaços com uma vitalidade impressionante, Tamires aparecia por dentro para armar o jogo e Andressinha provava que precisa de mais minutos em campo para mostrar seu bom futebol. Aos 26 minutos, Debinha marcou o segundo em cobrança de falta de manual. Mas um dos grandes momentos da partida aconteceu aos 38 minutos, quando Bia Zaneratto e Cristiane iniciaram jogada pela esquerda e viram Isabella se lançando pelo outro lado. A lateral do Palmeiras teve tempo para ajeitar o corpo, levantar a cabeça e fazer cruzamento perfeito para Cristiane marcar o segundo dela e o terceiro da Seleção Feminina em Araraquara. Já é possível dizer que o time já tem a “cara” de Pia Sundhage.

Isabella recebe na direita e tem Cristiane atacando o espaço e Tamires aparecendo por dentro. Chú abre o campo pela esquerda e Luana chega por dentro para esperar a sobra. A Seleção Feminina já incorporou vários dos conceitos de Pia Sundhage. Foto: Reprodução / SporTV

A Seleção Feminina baixou um pouco a intensidade no segundo tempo com as saídas de Debinha e Cristiane do time titular. Por outro lado, as entradas de Millene, Vic Albuquerque, Giovana, Gabi Zanotti, Bruna Calderano e Aline Milene deixaram a equipe de Pia Sundhage jogando no mesmo 4-4-2 utilizado por Pia Sundhage. Mas o entrosamento das jogadoras de Corinthians e Ferroviária permitia que as jogadoras mudassem de posição dentro do desenho tático proposto pela treinadora sueca. O início do lance que originou o (belo) gol de Vic Albuquerque é fruto dessa movimentação. Luana ficou pela lateral-direita, Aline Milene recuou para recompor o meio-campo, Giovana partiu como ponta e Vic Albuquerque iniciou a jogada alinhada a Gabi Zanotti no meio-campo. Bola longa para Milene na esquerda e esta passa para a camisa 10 que completou para as redes de bico, no canto esquerdo da goleira Itzel. Jogada trabalhada com as atletas sabendo exatamente o que precisam fazer em cada situação.

Érika se prepara para lançar Millene e toda a equipe brasileira está organizada no 4-4-2/4-2-2-2 proposto por Pia Sundhage. Gol que teve início através de uma ideia bem executada nos treinamentos da Seleção Feminina. Foto: Reprodução / SporTV

É lógico que a Seleção Feminina ainda tem problemas que precisam ser corrigidos. Uma das dúvidas que ficaram dos últimos amistoso é como Pia Sundhage vai encaixar Marta no seu 4-4-2 e quem vai sair para a entrada da nossa craque. E ainda se ela terá condições de se adaptar ao esquema tático e à proposta de alta intensidade nas transições num momento em que as lesões ficaram mais frequentes e a idade começa a se fazer mais presente. Este que escreve escalaria Marta por dentro, logo atrás de Cristiane. mas como tirar Bia Zaneratto do time diante da clara evolução da atacante com Pia? Ao mesmo tempo, existe a questão do meio-campo. Andressinha tem potencial, mas segue hesitante em mostrar o que sabe e dá a impressão de “desligar” das partidas em determinados momentos. Certo é que opções não faltam para Pia Sundhage escalar a Seleção Feminina e que a treinadora sueca deve dar preferência às mais experientes e às “polivalentes”, isto é, quem consegue fazer mais de uma função em campo.

O Brasil fecha o ano de 2019 no futebol feminino com um sopro de esperança e a sensação de que o futuro pode sim ser muito melhor do que se pintava antes. O trabalho de Pia Sundhage vem dando frutos (apesar de algumas escolhas questionáveis) e o time vem jogando bem melhor do que há alguns meses atrás. E isso é um tremendo alento.

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