Japeri: a cidade onde o golfe é o sonho das crianças carentes
Cidade do Rio de Janeiro usa o golfe para tentar fugir de uma dura realidade de violência, desigualdade e falta de oportunidade
Divulgação: Clube Japeri Golfe
Esqueça tudo o que você pensa sobre o golfe. Elitismo, distanciamento do público e falta de popularidade não são máximas que façam sentido em Japeri, município do Rio de Janeiro. Trata-se de uma das cidades mais humildes do estado. Mas mesmo assim, um núcleo de golfe é visto como a salvação para muitas crianças da região. No meio de uma visível taxa de desigualdade, um esporte considerado elitista ganha popularidade.
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Japeri é uma típica cidade brasileira com os típicos problemas do país. Ruas sem asfalto e lixo acumulado são características de uma região onde as pessoas tentam viver com o que têm. De acordo com o IBGE, apenas 6% da população da região possui emprego formal. Além disso, a cidade sofre com a falta de saneamento básico e altos índices de criminalidade. Segundo dados do Mapa da Violência de 2019, Japeri tem um dos maiores índices de homicídio do país.
O Golfe
Dentro desse cenário, é difícil imaginar uma ligação com um esporte que sempre foi visto como elitista. Não há um consenso histórico sobre como se deu a criação da modalidade. Mas as mais variadas versões concordam que o golfe surgiu em um contexto de separação social entre ricos e pobres. Em seus primórdios, o esporte precisava ser praticado com bolas de pele ou de couro. Ou seja, objetos que não eram baratos.
Essa realidade não mudou muito. Sobretudo em alguns países com altos níveis de desigualdade. É o caso do Brasil, por exemplo. Para se jogar golfe, é necessária uma área ao ar livre com uma grande dimensão de grama. Os objetos utilizados oficialmente em uma partida também não são baratos. Em resumo, jogar golfe no Brasil não é tarefa fácil ou barata. Isso, em tese, afastaria os brasileiros da modalidade.
Japeri
Mas por mais incrível que isso possa parecer, essa regra não parece ser válida em Japeri. Uma das cidades mais pobres do país parece encontrar em um dos esportes mais ricos do mundo uma espécie de simbiose. A cidade possui um oásis do golfe no Brasil. Trata-se de uma área verde de mais de 70 hectares. O local dá nitidamente outra perspectiva para as crianças da região.
Para se ter uma ideia do que ocorre por lá, o campo é mantido com doações da ReA. Trata-se da entidade máxima do golfe mundial. A ReA se interessa pela localidade há 15 anos. De acordo com dados oficiais, Japeri recebe mais investimento internacional do que a própria cidade do Rio de Janeiro. Vale lembrar que o Rio sediou o retorno olímpico do golfe em 2016.
A História
Tudo começou por causa dos caddies. Os caddies são os meninos que carregam o material dos jogadores no tênis. Mas eles queriam se envolver mais no esporte. Não tinha nada de errado com aquilo, exceto pelo fato de que eles moravam em Japeri. Assim como a grande maioria dos brasileiros, eles se encontravam longe fisicamente e financeiramente dos grandes centros do golfe do Brasil.
A movimentação social por um campo de golfe encontrou apoio na Associação de Golfe Público da cidade (AGPJ), que passou a administrar a Escola de Golfe de Japeri. Diretores da organização municipal conseguiram chamar atenção do mundo da modalidade. Daí portanto surgiu o interesse da ReA na cidade.
Interesses econômicos e de marketing movimentaram o repasse do dinheiro nos últimos meses. Isso porque a verba era repassada da ReA para a Confederação Brasileira de Golfe (CBG). A CBG passou a entender que esse dinheiro não deveria ser introduzido diretamente para Japeri. Toda a confusão, no entanto, não conseguiu anular a força da comunidade, que segue vendo da modalidade uma oportunidade de sair da dura situação em que se encontra.
A escola
Japeri tem uma escola de golfe que atende mais de 100 crianças. O projeto é alardeado aos quatro cantos como a primeira escola pública de golfe do Brasil. Estas crianças têm entre 7 e 17 anos de idade. Tudo funciona de maneira gratuita. Pode parecer estranho em um primeiro momento ver imagens de crianças pobres, negras e periféricas jogando golfe no Brasil. Isso porque não estamos falando de algo comum no país. Mas isso acontece em Japeri. Uma prova de que a linha da oportunidade é a única coisa que separa os mais variados grupos sociais e raciais no Brasil.
Mas as aulas vão muito além do golfe. Etiqueta, comportamento, conscientização ambiental e reforço escolar também funcionam por lá. A única exigência da escola é que os alunos estejam matriculados na rede pública e com rendimento escolar satisfatório.
Consciência
É enxergando seres humanos, onde outros não veriam nada, que a escola tenta se manter. No meio de uma cidade essencialmente negra formada por descendentes diretos de escravos, a escola faz questão de divulgar o seu papel contra o racismo. Neste sentido, o dia da Consciência Negra não passa em branco por lá. Anualmente, os jovens alunos participam da Taça Zumbi dos Palmares. O evento já virou febre na região. Em 2019, completou 12 anos de existência.
Dessa forma, o primeiro campo público de golfe do país tenta furar a bolha. Seja no nível municipal, estadual ou nacional, furar a bolha parece ser o grande desafio em um país cheio de divisões em todos os níveis. No meio do fogo cruzado e de tantos problemas sociais, mais uma vez o esporte parece ser uma solução viável. A cidade de Japeri não deu um fim aos seus problemas. Mas deu um recado para o resto do Brasil. Lá, eles plantaram e cultivaram um enorme campo com a cor da esperança.
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