Leila Pereira detona modelo associativo e cobra punição a dirigentes: “Está fracassado e falido”
Presidente do Palmeiras afirma que dirigentes administram clubes pensando em votos e critica falta de responsabilização
Leila Pereira em jogo do Palmeiras (Foto: Brazil Photo Press/Alamy Live News)
Leila Pereira fez duras críticas ao modelo associativo dos clubes brasileiros e defendeu maior responsabilização dos dirigentes por decisões tomadas durante suas gestões. Durante participação no Confut, a presidente do Palmeiras afirmou que muitas instituições sofrem porque seus mandatários podem deixar o cargo sem responder pelos prejuízos causados.
A dirigente também defendeu uma administração profissional e utilizou o próprio Palmeiras como exemplo. Segundo Leila, embora o clube continue sendo uma associação, sua gestão procura seguir uma lógica empresarial, principalmente na separação entre política interna e futebol.
Leila diz que modelo associativo está “fracassado e falido”
Para Leila, um dos principais problemas dos clubes associativos está na influência das eleições sobre as decisões dos presidentes. A mandatária afirmou que dirigentes muitas vezes colocam a permanência no cargo acima dos interesses da instituição.
“É por isso que a cada dia eu tenho a certeza maior que esse modelo associativo está em completa decadência. Porque esses presidentes fazem qualquer coisa pelo voto. Não interessa qual é o interesse da instituição, não interessa qual é o interesse do torcedor, eles querem se manter no cargo”, declarou.
Na sequência, Leila aumentou o tom da crítica. “Então esse modelo pra mim está completamente fracassado e falido”, completou a presidente palmeirense.
Presidente cobra responsabilidade de dirigentes
Leila também criticou situações nas quais presidentes deixam clubes endividados sem sofrer consequências pessoais. Para ela, esse cenário permite que dirigentes atuem praticamente como proprietários durante seus mandatos, mas sem assumir os riscos de um verdadeiro dono.
“Hoje, são vários clubes quebrados que presidentes quebraram esses clubes e não responderam por absolutamente nada”, afirmou. Por isso, a presidente defendeu mecanismos mais rígidos para fiscalizar e responsabilizar os gestores.
“Tem que existir uma punição para esse tipo de dirigente. O torcedor não aguenta mais, as instituições não aguentam mais. É demagogia pura e eu estou falando isso como a presidente de um clube associativo. Então eu falo sentada na cadeira. Isso não funciona mais”, completou.
Leila cita cartões, viagens e benefícios dentro dos clubes
A presidente do Palmeiras ainda questionou como alguns dirigentes utilizam os recursos das instituições. Entre os exemplos, citou cartões corporativos, viagens pagas pelos clubes e outros benefícios obtidos durante o mandato.
“Usa cartão corporativo, viaja às custas do clube, pega camisa do clube, vive às custas do clube. Gente, é simples, é só você perguntar para esses presidentes: o que você faz na vida? Qual a sua profissão? De que você vive?”, questionou.
Leila lembrou ainda que a presidência de clubes associativos normalmente não é remunerada. Dessa forma, entende que a fiscalização precisa alcançar também a relação entre a vida profissional dos dirigentes e os benefícios recebidos durante suas gestões.
Leila defende SAF, mas reconhece casos que deram errado
Durante o debate, Mário Braga, conselheiro do São Paulo e presidente da Comissão de Ética do clube, questionou se o sucesso depende realmente do modelo administrativo ou das pessoas responsáveis pela gestão.
Leila reconheceu que existem SAFs que fracassaram. Entretanto, contrapôs que diversos clubes associativos também enfrentam graves dificuldades financeiras e defendeu que os bons exemplos internacionais sejam considerados na discussão sobre o futuro do futebol brasileiro.
Para a dirigente, a principal diferença está na responsabilidade patrimonial. Em uma SAF com proprietário, argumentou, uma gestão ruim pode provocar prejuízo ao próprio controlador, enquanto dirigentes associativos podem deixar o cargo sem sofrer impacto semelhante.
Palmeiras, Flamengo e São Paulo dificilmente virariam empresas
Leila também reconheceu que transformar alguns dos maiores clubes brasileiros em empresas seria uma tarefa complicada. A presidente citou especificamente Palmeiras, Flamengo e São Paulo.
“Eu não tenho dúvida que Palmeiras, São Paulo, Flamengo, esses clubes tradicionais, é muito difícil virar empresa. Por quê? Porque os conselheiros não querem. Não querem”, afirmou.
Segundo a dirigente, existe resistência porque integrantes da política interna dos clubes possuem influência sem assumir responsabilidade financeira equivalente à de um proprietário. Ainda assim, Leila ressaltou que a escolha de um eventual comprador também precisa passar por uma análise rigorosa.
Leila explica modelo adotado no Palmeiras
Apesar das críticas às associações, Leila comanda justamente um clube organizado dessa maneira. Segundo ela, a diferença está na forma como administra o Palmeiras, buscando separar as disputas políticas das decisões relacionadas ao futebol.
“Quando eu comecei a administrar o Palmeiras, eu pensei em mim, eu vou administrar o Palmeiras como se fosse uma empresa. O Palmeiras é uma associação, mas ele é administrado pela presidente Leila Pereira como se fosse uma empresa”, explicou.
A presidente também afirmou que conselheiros não interferem no trabalho realizado no centro de treinamento. Como exemplo, contou que nem mesmo seu marido, que integra o Conselho do Palmeiras, possui acesso livre ao local.
Leila diz que nunca utilizou Palmeiras em benefício próprio
Ao falar sobre sua própria administração, Leila afirmou que nunca utilizou recursos do clube para despesas pessoais. A dirigente citou viagens e até camisas do Palmeiras como exemplos de gastos que diz pagar com dinheiro próprio.
“Eu nunca, como presidente do Palmeiras, viajei às custas do Palmeiras. Quando eu quero uma camisa do Palmeiras, eu compro a camisa do Palmeiras. Eu nunca utilizei o Palmeiras em causa própria. Pelo contrário. Eu entrei no Palmeiras para servir o Palmeiras”, declarou.
Leila ainda afirmou que pretende encerrar seu mandato, em dezembro de 2027, com a consciência tranquila. Entretanto, admitiu que não consegue garantir como o clube será administrado depois de sua saída.
Leila alerta para dificuldade de punir má gestão
Por fim, a presidente apontou um obstáculo para responsabilizar dirigentes de associações. Segundo ela, muitas vezes é necessário comprovar que o gestor agiu deliberadamente com a intenção de prejudicar a instituição.
“A gente pode fazer no estatuto, não é? Onde se coíba esse tipo de abuso. Mas é difícil, gente. Você tem que comprovar o dolo, a vontade de lesar o clube”, explicou.
Leila encerrou o raciocínio com uma provocação sobre essa dificuldade jurídica. “E às vezes o presidente vai dizer o seguinte: não, eu sou burro mesmo, entendeu? E burrice não é punida, não é? Porque o que se pune é o dolo, é a vontade de lesar o clube.”

