Osmar Stabile tenta organizar as finanças do clube (Crédito: Brazil Photo Press/Alamy Live News)
O Corinthians chegou a um acordo com o empresário Carlos Leite para encerrar uma das três disputas judiciais envolvendo as partes. O clube aceitou não recorrer de uma condenação de R$ 10,2 milhões, enquanto o agente concordou em receber o dinheiro pelo Regime Centralizado de Execuções (RCE).
O entendimento, entretanto, resolve apenas uma parcela das pendências. Carlos Leite ainda possui outros R$ 81,1 milhões em créditos reconhecidos no RCE. Assim, considerando os três processos, os valores devidos pelo Corinthians ao empresário e suas empresas chegam a aproximadamente R$ 91,3 milhões.
Corinthians aceita pagar R$ 10,2 milhões a Carlos Leite
O processo encerrado envolve valores relacionados à intermediação da contratação de Felipe Bastos, realizada em janeiro de 2017, e aos direitos de imagem do ex-jogador, referentes a agosto de 2018.
No fim de agosto, o advogado de Carlos Leite propôs uma solução amigável. Como a tese utilizada pelo Corinthians em sua defesa já havia sido rejeitada em outras ações semelhantes, o clube concordou em não apresentar novo recurso.
Com isso, o Corinthians reconheceu a obrigação de pagar R$ 10,2 milhões. Em contrapartida, evita novos gastos com custas processuais e honorários advocatícios decorrentes da continuidade da disputa.
Carlos Leite também fez uma concessão. Em vez de abrir um cumprimento de sentença separado, o empresário aceitou incluir o crédito no RCE do Corinthians e receber de forma parcelada, assim como os demais credores incluídos no regime.
O juiz Miguel Ferrari Júnior, da 43ª Vara Cível de São Paulo, homologou o acordo na última sexta-feira.
Dívida com empresário supera R$ 91 milhões
A pendência de R$ 10,2 milhões representa apenas uma parte do problema. Além desse processo, empresas ligadas a Carlos Leite possuem outros R$ 81,1 milhões a receber do Corinthians.
Esse montante envolve diferentes operações realizadas desde 2014. Entre elas aparecem negociações relacionadas a jogadores importantes da história recente do clube, como Cássio, Fagner, Elias, Gil e Renato Augusto.
Somando os valores atualmente indicados nos três casos:
- Processo incluído no novo acordo: R$ 10,2 milhões
- RC Consultoria & Assessoria Esportiva: R$ 26,5 milhões
- B&C Consultoria & Assessoria Esportiva: R$ 54,6 milhões
- Total: aproximadamente R$ 91,3 milhões
Portanto, apesar de encerrar uma das disputas judiciais, o Corinthians continua com uma dívida elevada relacionada ao empresário. Os dois outros processos já tiveram resultados favoráveis às empresas de Carlos Leite na Justiça e também aparecem no RCE.
Cássio, Fagner e Elias aparecem em uma das cobranças
Uma das ações envolve a RC Consultoria & Assessoria Esportiva. Quando o processo começou, em janeiro de 2024, a cobrança era de R$ 22,7 milhões.
Com multas, juros e correções, entretanto, o montante chegou a R$ 26,5 milhões. A dívida reúne comissões e direitos de imagem relacionados a diferentes negociações realizadas entre 2014 e 2018.
Entre elas estão:
- Renovação de Cássio, em agosto de 2014
- Contratação de Fagner, em janeiro de 2015
- Venda de Ramon Motta ao Besiktas, em junho de 2014
- Venda de Elias ao Sporting, em agosto de 2016
- Direitos de imagem de Felipe Bastos, em março de 2017
- Direitos de imagem de Matheus Matias, em fevereiro de 2018
Dessa forma, parte relevante da dívida atual surgiu durante um período em que Carlos Leite participava frequentemente de operações realizadas pelo Corinthians no mercado.
Outra ação saltou de R$ 33,4 milhões para R$ 54,6 milhões
O maior processo envolve a B&C Consultoria & Assessoria Esportiva. A cobrança começou em R$ 33,4 milhões, em janeiro de 2024, mas alcançou R$ 54,6 milhões depois da aplicação de multas, juros e correções.
Nesse caso, a lista de operações é ainda maior. Ela inclui diferentes renovações de Cássio e Fagner, além de negociações envolvendo Camacho, Mateus Vital, Jonathas, Matheus Matias, Gil e Renato Augusto.
Entre as pendências aparecem três renovações de Cássio, realizadas em 2018, 2019 e 2022. Fagner também aparece com renovações nos mesmos três anos.
Além disso, a cobrança inclui a contratação de Renato Augusto, em julho de 2021, e as operações envolvendo Gil em 2019 e 2020. Assim, contratos firmados durante diferentes administrações contribuíram para a formação do valor atualmente cobrado.
Acordo anterior não conseguiu encerrar disputa
O Corinthians já havia tentado solucionar as pendências com Carlos Leite. Em novembro de 2023, durante os últimos meses da gestão de Duilio Monteiro Alves, o clube acertou um modelo de pagamento com o empresário e alguns de seus sócios.
A proposta previa a cessão de créditos que o Corinthians tinha a receber da Brax Produções e Publicidade. A empresa adquiriu os direitos de exploração das placas publicitárias nos jogos do clube como mandante no Campeonato Brasileiro entre 2025 e 2029.
Entretanto, a operação não avançou. A Brax não assinou como anuente o contrato de cessão de crédito entre o Corinthians e os empresários.
Segundo Carlos Leite, a participação da empresa no documento teria sido uma exigência feita posteriormente por Augusto Melo. Sem uma solução, o agente afirmou que voltou a procurar o clube e, diante da falta de acordo, decidiu executar as dívidas judicialmente em fevereiro de 2024.
Relação financeira com Corinthians começou há quase duas décadas
A relação de Carlos Leite com o Corinthians vai além das intermediações de jogadores. Em alguns momentos, o empresário também emprestou dinheiro diretamente ao clube.
Em 2008, por exemplo, Leite adiantou R$ 600 mil para ajudar nas contratações de Wellington Saci e Eduardo Ramos. Posteriormente, os dois jogadores passaram a ser agenciados pelo empresário.
Já em 2017, durante a presidência de Roberto de Andrade, o agente assinou um contrato de mútuo de R$ 4,1 milhões com o Corinthians. Com juros de 1,94% ao mês, o débito chegou a R$ 8,31 milhões no fim de 2021, mas essa dívida já foi quitada.
Desde que o clube contraiu sua primeira dívida com Carlos Leite, seis presidentes passaram pelo Corinthians: Mario Gobbi, Roberto de Andrade, Andrés Sanchez, Duilio Monteiro Alves, Augusto Melo e Osmar Stabile.
Agora, o acordo elimina uma das disputas judiciais, mas não encerra a relação do empresário com a lista de credores. Carlos Leite ainda tem dezenas de milhões de reais a receber, enquanto o Corinthians tenta administrar suas obrigações financeiras por meio do RCE.

