Sem medo de evoluir, judô olímpico retorna ao Japão, o seu berço natural

Modalidade costuma mudar drasticamente com o decorrer dos anos. Mas mudanças não a impedem de esquecer as raízes históricas

Aécio de Paula
Colaborador do Torcedores

Crédito: Divulgação: COI

Uma perfeita simbiose entre evolução e tradição. Talvez seja o judô o esporte que consiga unir com mais perfeição a sua capacidade de mudar, sem perder a sua identidade. Uma das modalidades mais populares dos Jogos Olímpicos está prestes a viver um ano especial. Fará em Tóquio o seu retorno olímpico. Afinal, o Japão é de fato a sua casa natural. O lugar de onde veio e de onde se criou. As Olimpíadas funcionarão como o retorno de um filho.

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Durante décadas o judô mudou completamente. Talvez como nenhum outro esporte no mundo. As mudanças nas regras se tornaram cada vez mais comuns. “Novas regras deixam o judô mais agressivo e intenso”, diz a capa do jornal em 2019 no Brasil. Matérias como essas se tornaram comuns no meio. A Federação Internacional de Judô (FIJ) parece não ter medo do futuro.

Há cerca de 150 anos, dizia-se que o judô era extremamente violento. Registros históricos revelam que, em alguns casos, os competidores morriam enquanto lutavam. “Quando eu ia competir, sempre me despedia dos meus pais, pois não tinha certeza que voltaria vivo”, diz Sakujiro Yokoyama. Ele foi citado em um estudo histórico da Federação Internacional de Judô (FIJ). De lá pra cá, muita coisa mudou. O judô evoluiu.

A evolução

Muitas foram as mudanças na história da modalidade. Abaixo, você vê parte desta evolução na linha do tempo.

  • 1889 – Estavam banidas as chaves de dedos, pulsos e tornozelos nas competições do judô, que ainda se assemelhavam ao jiujitsu.
  • 1916 – Banidas as chaves de joelho e a técnica do estrangulamento de rim, que era portanto realizada como um movimento de tesoura.
  • 1925 – As aplicações do movimento de chaves nas competições de judô foram limitadas ao cotovelo.
  • Década de 1960 – É diminuído progressivamente o tempo máximo de combate passando de 20 para 15 minutos.
  • 1964 – Jogos Olímpicos de Tóquio se tornam a primeira competição a dividir o torneio de judô em categorias diferentes.
  • 1974 – Pontuações pequenas como Yuko foram adicionadas. Além disso, se introduziu a penalidade por shidô, que é quando o atleta é punido por falta de combatividade.
  • 2000 – O tempo da imobilização passa de 25 para 30 segundos.
  • 2003 – Criação do Golden Score.
  • 2017 – Atletas passam a pontuar apenas no wazari (meio ponto) ou do ippon (ponto completo).

Conexão

Mas o conjunto de mudanças históricas curiosamente revelam um objetivo de retorno ao passado. Muitas dessas regras podem ser entendidas como uma tentativa de deixar a modalidade menos violenta. Questões como cortesia, coragem, honestidade, honra, modéstia, respeito, autocontrole e amizade estão no objetivo do judô em todas as suas etapas. Ou seja, as mudanças no judô parecem mirar nas suas raízes históricas. E falar das raízes históricas do judô é falar portanto do Japão, o seu berço natural.

O japonês Jigoro Kano tinha muito a falar sobre isso. Ele foi, nada menos, do que o fundador do judô. Kano viu a prática do jiujitsu e resolveu partir para uma espécie de aperfeiçoamento. Ou como o próprio nome já diz, ju (suave), do (caminho). O “caminho suave” a que Kano se referiu era o caminho da competitividade de acordo com um código moral. Era portanto objetivo dele que o judô fortalecesse o físico, a mente e o espírito de forma integrada.

Pois é esse o principal objetivo do judô atual. A adaptação às regras parece cumprir o papel de voltar a esses valores que parecem tão caros aos judocas do mundo todo.

Tóquio 2020

Cerca de 140 anos depois do seu nascimento, o judô vai voltar ao Japão. A cidade de Tóquio já está pronta para receber o evento. Sua casa natural vê na modalidade uma das grandes chances de conquistar vários pódios. Afinal, nenhum outro país conquistou tantas medalhas olímpicas na modalidade quanto o Japão. São 82 até hoje. Destas, 37 foram para campeões olímpicos japoneses.

O judô já provou que tem sintonia com o Japão. A retórica também parece ser verdadeira. Para uma modalidade que não se cansa de evoluir, encontrará em casa o seu motivo para seguir evoluindo.

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