Aira Bonfim: Carnaval – curiosidades sobre o futebol folião de São Paulo

Para folião que se preze é hora de parar tudo, inclusive o campeonato, as obrigações com o time do bairro, o treino e se jogar na folia!

Aira Bonfim
Colunista do Torcedores.com.

Crédito: Reprodução

As relações entre o esporte bretão e a festa mais popular do Brasil são inúmeras e antigas. Longe de me deter a totalidade delas, vou apenas pincelar alguns momentos históricos entre a festa, a várzea, as torcidas e as escolas de samba de São Paulo.

Um conto de carnaval e o futebol pernambucano

Há um ano atrás, na quinta-feira de pré carnaval eu estava em Recife, sim lá mesmo, na terra centenária da brincadeira de Carnaval.

Me lembro de pararmos para almoçar tarde, e no telão do restaurante, entre 15h-16h era transmitido uma partida do Sport Club do Recife.

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Lembro exatamente de ter olhado com estranhamento o horário no relógio e ter pensado que era uma tarde de quinta-feira. Estranho… talvez o meu interior paulistano não compreendesse a agenda esportiva pernambucana.

Corta! Algumas horas depois.

Estou no Bloco do Escuta Levino, pessoalmente, um dos meus prediletos e que marca definitiva que o início do Carnaval em Recife! Mentira! O carnaval começa na quinta, na quarta, em janeiro, em dezembro… sabe-se lá quando ele terminou!

Nessa ocasião, no mesmo bloco, encontrei um colega torcedor do Sport e aproveitei para tirar as minhas dúvidas sobre o jogo de horas antes (que inclusive ele tinha ido!).

Com muita naturalidade escutei:

“É carnaval Aira! Os funcionários do clube e os jogadores pediram para adiantar o jogo!”

Claro!

Óbvio!

Por quê não?

 Um história sobre futebol e o carnaval paulistano

Bom, a história acima foi citada apenas para ilustrar relações mais gentis entre foliões, futebol e o feriado de carnaval, fato que infelizmente não se repete em todos os estados do Brasil.

São Paulo em 2020 promete oferecer um dos maiores carnavais do país e com essa pretensão toda vem o desafio da tal “locomotiva do país” (muitas aspas tá?!) relaxar, conseguir descontrair, sorrir e brincar. (Com todo o respeito, eu ainda preferia estar em Recife…)

Nas minhas andanças varzeanas dos últimos anos, entre campinhos e histórias de quem mantem vivo o futebol amador da cidade, encontrei evidências históricas de um universo boleiro que nessas ocasiões festivas ampliam os níveis de diversão dentro do próprio campo.

Carnaval no clube Cruz da Esperança. Coleção Walmir Mello | Acervo Museu do Futebol

Partidas de futebol entre jogadores fantasiados, muito samba e churrasco estão registradas nas fotos antigas preservadas por essas agremiações.

Esses mesmos times também tomavam conta dos bloquinhos dos bairros, da folia dos arredores dos campos e até para quem o ano inteiro não participava das atividades do futebol. Muitos deles, inclusive, tinham compromissos ainda maiores com a bateria de suas escolas de samba (a zona norte de SP que o diga!).

A várzea, palavra erroneamente usada para designar coisas mal feitas ou desleixadas, no carnaval se permitia brincar em campo, com os corpos viris de seus jogadores coberto por saias e com a presença de esposas e crianças na festa esportiva.

 Um história sobre torcidas e o carnaval paulistano

Diferente dos dias atuais, o carnaval na cidade de São Paulo era até o final da década de 70 promovido por iniciativas independentes, de pessoas cheias de ideias, enredos, fantasias e muito bom humor.

O Bloco dos Esfarrapados saia com a sua bateria e 2 mil litros de pinga a serem consumidas no desfile! (esse detalhe foi proibido tempos depois…)

Nessa mesma época podemos encontrar os primeiros blocos com relações diretas com os clubes de futebol e seus torcedores. Gaviões da Fiel, do Corinthians e a Torcida Jovem, do Santos, são alguns exemplos de blocos nascidos nessa época.

A forte atuação das baterias nas arquibancadas dos estádios, somada aos concursos de baterias da época ensejavam o aproveitamento do batuque para fora do ambiente do futebol, pras ruas!

A presença da prefeitura, com organização e financiamento do carnaval paulista é algo recente e culmina com a transição para a década de 1980, com a elevação do status muitos dos blocos de carnaval independentes para a condição de grêmios recreativos e culturais.

O carnaval passou a ter hora e lugar exatos para o desfile em São Paulo. Os bloquinhos de rua diminuíram uma vez que muitos foram transformados em escolas de samba.

A cidade demandou ordem e obrigou a existir um lugar específico para a bagunça e a brincadeira: o sambódromo.

Com a entrada nos anos de 1990, 7 escolas-torcidas passaram a participar da elite do carnaval e do conjunto de divisões da Liga e pela União das Escolas de Samba.

A aderência da identificação entre torcedores e foliões, mais o fato de torcidas serem associações nascidas para fazer muita festa uniu de um vez por todas o futebol com o carnaval.

Nos 25 anos daGaviões da Fiel, “COISA BOA É PRA SEMPRE”, de 1995, tornou-se o samba enredo campeão e mais conhecido da escola corinthiana. Até quem é rival… assim… dá uma cantadinha quando não tem ninguém vendo…

O ineditismo da conquista de uma torcida-escola de samba na Liga Especial, faria da Gaviões da Fiel parte significativa da história do carnaval em São Paulo ao acumular outros em três títulos no futuro (1999-2002-2003).

Com a passagem dos anos, o convívio das escolas tradicionais com as escolas torcedoras só cresceu. Vale destacar em 2010 a chegada da Dragões da Real à primeira divisão.

A torcida são-paulina, fundada em 2000, trouxe vigor ao subir e renovar a sua identificação clubística com as escolas-torcidas conhecidas como rivais, a exemplo da Gaviões da Fiel e a Mancha Verde.

A Dragões conquistou destaque e através das excelentes pontuações em fantasias, alegorias e adereços, assumiu um lugar de excelência junto às escolas de samba tradicionais do carnaval de São Paulo.

E para nos aproximarmos dos dias atuais, é impossível mencionar a conquista da G.R.C.E.S. Mancha Verde na Liga Especial do carnaval paulistano de 2019.

Sim, para a tristeza dos alvi-negros e são-paulinos, o verde tomou conta do desfile e principalmente, das arquibancadas de quem torceu muito pela vitória da Mancha.

Banidas do convívio nas arquibancadas dos estádios, o carnaval apresenta-se como um local desafiador para o convívio entre torcidas organizadas rivais. Os bandeirões e sinalizadores agora protagonizam a festa do carnaval de SP e não mais do futebol paulistano.

O carnaval e o futebol se reinventam e se reinterpretam.

Feliz Carnaval para TODXS!

#carnavalsemassedio

Carnaval no clube Cruz da Esperança. Coleção Walmir Mello | Acervo Museu do Futebol

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