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Trocas de treinador, contratações duvidosas, gestão desastrosa e desânimo: Botafogo não foi rebaixado por acaso

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a derrota para o Sport e toda a sucessão de erros no Glorioso nas últimas temporadas

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Vítor Silva / Botafogo

Poucos clubes se esforçaram tanto para serem rebaixados nesses últimos anos como o Botafogo. O que se viu na noite desta sexta-feira (5) não foi apenas a derrota que decretou a queda para a Série B, mas o resultado de um verdadeiro “combo” de erros cometidos na montagem de um time que está a anos-luz das tradições do clube da Estrela Solitária. É até difícil analisar a atuação dos comandados de Eduardo Barroca no jogo contra o Sport sem observar todo o contexto. A fase terrível dos jogadores considerados “titulares” obrigou o técnico alvinegro a apostar numa equipe repleta de jovens revelados na base do clube. O problema é que esses também acabaram sucumbindo ao desânimo que tomou conta do Botafogo nestes últimos meses. As trocas de treinador, as (muitas) contratações duvidosas e a gestão desastrosa foram as principais responsáveis por enterrar o Glorioso de vez nessa temporada.

É preciso dizer que o Botafogo não fez uma partida ruim contra o Sport. A equipe esteve bem organizada e tentou chegar no ataque na base do toque de bola e na mobilidade do quarteto ofensivo formado por Cesinha, Romildo, Matheus Nascimento e Rafael Navarro. No entanto, a impressão que ficou é a de que a falta de continuidade no trabalho feito à beira do gramado e a pressão em cima de todo o elenco acabou com toda a confiança da equipe. Do outro lado, o Sport (comandado por Jair Ventura) adotou uma postura mais pragmática e foi explorando esse nervosismo dos seus adversários na noite desta sexta-feira (5). O pênalti (extremamente duvidoso e discutível) marcado pelo árbitro Luiz Flávio de Oliveira foi suficiente para incinerar o ânimo dos jogadores do Botafogo. Eduardo Barroca ainda tentou motivar seus atletas, mas sem sucesso. A vaquinha já havia deitado no brejo.

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O começo da partida no Estádio Nilton Santos mostrou um Botafogo até certo ponto organizado, mas que sofria as consequências de meses de erros dentro e fora de campo. Eduardo Barroca apostou num 4-2-3-1/4-4-2 de muita mobilidade no ataque com Cesinha, Romildo, Matheus Nascimento e Rafael Navarro. Foto: Reprodução / Premiere

O que mais impressionava em campo nem eram os problemas táticos e técnicos do Botafogo. A maneira como todo o elenco, comissão técnica e diretoria “aceitaram” as derrotas foi a tônica da última temporada (mesmo levando-se em consideração todo o contexto imposto pela pandemia de COVID-19). Honda, Kalou e outros mais badalados chegaram ao Glorioso e não deram o retorno esperado por torcedores e imprensa. Ao mesmo tempo, a troca dos treinadores na temporada (cinco no total) aliada à péssima gestão do time não permitiram que se criasse qualquer tipo de padrão tático no Botafogo. Fato esse percebido na partida contra o Sport nesta sexta-feira (5). Jair Ventura espelhou o 4-2-3-1 de Eduardo Barroca e apenas esperou o adversário sair do seu campo para encaixar os contra-ataques com Ewerton, Marquinhos, Thiago Neves e Dalberto. A falta de confiança do Botafogo era nítida.

Botafogo vs Sport - Football tactics and formations

Jair Ventura repetiu o 4-2-3-1 de Eduardo Barroca e armou o Sport com forte marcação no meio-campo e saída rápida pelos lados do campo. O Botafogo (repleto de jovens valores da base) tentou impor seu estilo de jogo, mas acabou sucumbindo diante da primeira adversidade, fato que foi uma constante nesses últimos meses.

A opção por escalar um time mais jovem se justificava pela atuação contra o time reserva do Palmeiras na última terça-feira (2) e também pela péssima fase dos jogadores mais “cascudos”. O Botafogo conseguiu competir e até mesmo criar alguns problemas para a equipe comandada por Abel Ferreira na partida disputada em São Paulo. Ainda mais quando nomes como os promissores Matheus Nascimento e Rafael Navarro mostraram personalidade diante de um adversário muito mais qualificado. O problema aqui nem é colocar os garotos em campo, mas o contexto em que eles foram lançados. É extremamente difícil dizer se eles conseguiriam tirar o Botafogo da zona do rebaixamento se já estivessem na equipe titular há mais tempo. O que se vê no clube da Estrela Solitária é uma sucessão de erros bizarros e primários. Difícil colocar a culpa neste ou naquele diante de uma campanha tão ruim com a do Brasileirão 2020.

E o que acontece fora de campo (gestão desastrosa, problemas financeiros e contratações duvidosas) se reflete dentro das quatro linhas. Este que escreve entende que era preciso sim cobrar a comissão técnica comandada por Eduardo Barroca com relação ao futebol apresentado dentro de campo. Mas o que se via era um Botafogo sem confiança e sem ânimo. E não há plano tático que resista a isso. Tanto que o Sport de Jair Ventura apenas se fechou no seu campo, fechou espaços (com as entradas de Márcio Araújo, Rafael Tyere, Luciano Juba, Sander e Raul Prata numa espécie de 5-4-1) e foi administrando o resultado até o apito final. De nada adiantaram as entradas de Lecaros, Matheus Babi e (principalmente) Kalou no segundo tempo. Aliás, fica difícil entender os motivos que levaram Eduardo Barroca a pensar que o marfinense pudesse resolver alguma coisa depois meses sem apresentar um mínimo de vontade.

Sport vs Botafogo - Football tactics and formations

Depois de ver o Sport abrir o placar com Iago Maidana no primeiro tempo, o técnico Jair Ventura recuou sua equipe e apenas esperou o apito final. Eduardo Barroca, por sua vez, empilhou atacantes e viu o Botafogo repetir o velho roteiro das últimas partidas. Muita posse de bola e pouca efetividade no ataque.

O torcedor botafoguense pode (e deve) questionar o critério das arbitragens nos jogos do Brasileirão. Não foram poucas as vezes em que o Glorioso foi uma das maiores vítimas do “critério” dos homens do apito. Seja na marcação de um pênalti, de uma falta ou de um impedimento. Mas deve (e muito) cobrar as últimas diretorias do clube por conta das gestões completamente desastrosas. Foram cinco trocas de treinadores e 52 jogadores usados numa temporada marcada por faturamento baixo e pelo aumento vertiginoso das dívidas. O terceiro rebaixamento da história do clube da Estrela Solitária nada mais é do que o mais puro suco de gestão dos nossos dirigentes aqui por estas bandas. São os mesmos que falam em “profissionalismo”, em “responsabilidade” e em “trabalho”, mas são os primeiros a roerem a corda quando a situação se complica. Ou quando favorecem este ou aquele aliado na disputa pelo poder.

A dúvida que fica na cabeça deste que escreve é só uma: será que o Botafogo vai conseguir superar esse golpe? O Glorioso deu aula de como não se deve gerir um clube de futebol nesses últimos anos. Há quem culpe as arbitragens, a pandemia, a ausência dos públicos nos estádios e outros pontos. Mas a realidade, meus amigos, é implacável e impiedosa. Nenhum rebaixamento acontece por acaso.

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