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Novatos da Seleção Brasileira fazem a diferença na vitória sofrida sobre a Venezuela; entenda

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Tite e explica os motivos da atuação ruim na partida desta quinta-feira (7)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

É praticamente impossível falar da atuação da Seleção Brasileira na vitória muito mais suada do que o normal sobre a Venezuela sem falar da atuação de Raphinha, Emerson Royal e Antony. Os três foram fundamentais na mudança de postura da equipe comandada por Tite depois de um primeiro tempo muito ruim em Caracas. Falhas defensivas, problemas na organização das jogadas e uma certa pasmaceira diante de um adversário que havia entrado em campo sem qualquer traço de favoritismo ou sinal de que poderia criar dificuldades para o Brasil. E criaram. Muito mais por conta das falhas coletivas do escrete canarinho e de algumas escolhas de Tite no time que iniciou a partida válida pela 11ª rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo. A vitória (a nona seguida na competição) também deixou bem claro que os novatos estão pedindo passagem na Seleção Brasileira e que o apelo popular por este ou aquele jogador pode soar, no mínimo, exagerado.

Para o jogo desta quinta-feira (7), Tite repetiu o 4-1-3-2 das partidas contra Chile e Peru com Fabinho no lugar de Casemiro, Guilherme Arana na lateral e Gabriel Jesus formando dupla de ataque com Gabigol, já que Neymar estava suspenso. O problema é que a Seleção Brasileira entrou em campo numa rotação muito baixa e sofreu demais com uma Venezuela que esforçada e minimamente organizada. O lance que originou o gol venezuelano escancarou todos esses problemas. Gerson não acompanhou Soteldo quando este partiu pelo lado direito antes de fazer o cruzamento para Eric Ramírez abrir o placar (aproveitando escorregão de Marquinhos e Fabinho dentro da área). O volante do Olympique de Marselha errou quase tudo que tentou e sua atuação ruim provocou uma espécie de “efeito cascata” na Seleção Brasileira. O camisa 7 não marcava, não criava e nem se movimentava, fato que obrigava Everton Ribeiro e Lucas Paquetá a abandonarem seu posicionamento para compensar esse problema.

Gerson não acompanha Soteldo no lance que originou o único gol da Venezuela na partida desta quinta-feira (7). O camisa 7 teve uma atuação muito ruim e não conseguiu ser efetivo nem na marcação e nem no ataque. Fora isso, a Seleção Brasileira esteve muito mal no primeiro tempo. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Por mais que Gabriel Jesus e Everton Ribeiro tenham desperdiçado boas chances, fato é que o primeiro tempo dos comandados de Tite foi muito ruim. A Venezuela se fechava com duas linhas na frente da sua área e ainda encontrava espaços por conta das dificuldades de Gerson em fechar seu setor no 4-1-3-2 brasileiro e em fazer a bola chegar no ataque. Não foi por acaso que o treinador do escrete canarinho mandou Raphinha para o jogo e sacou Everton Ribeiro. Estava nítido que faltava mais profundidade e agressividade no setor ofensivo. Com Vinícius Júnior no lugar de Lucas Paquetá, a Seleção Brasileira passou definitivamente para um 4-4-2/4-2-4 com quatro jogadores de frente pressionando bastante a defesa venezuelana. Marquinhos empatou a partida na fortíssima jogada de bola parada tão conhecida da equipe de Tite. Mas estava mais do que claro que o grande nome do Brasil era o camisa 17 Raphinha. Incrível com uma simples mudança mexeu com todo time.

Com Raphinha e Vinícius Júnior nos lugares de Everton Ribeiro e Lucas Paquetá, a Seleção Brasileira abandonou o 4-1-3-2 e passou a jogar no 4-4-2/4-2-4. O volume de jogo aumentou assim como o nível de competitividade. A participação do camisa 17 na partida foi fundamental. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Com Emerson Royal e Antony em campo, a Seleção Brasileira ganhou ainda mais profundidade, velocidade e equilíbrio pelos lados do campo. O famoso “perde e pressiona” tão característico das equipes comandadas por Tite também voltou com a entrada dos novatos. E nesse ponto, Raphinha se mostraria fundamental ao participar de todos os três gols do escrete canarinho. O camisa 17 não era apenas um ponta que jogava pela direita e cortava para dentro. Era também quem distribuía o jogo a partir do seu setor e que quebrava as linhas da Venezuela com muita habilidade e agressividade. Difícil não notar a influência de Marcelo “El Loco” Bielsa no comportamento do grande destaque da Seleção Brasileira na partida desta quinta-feira (7). Com ele, Antony vindo mais por dentro (logo atrás de Gabigol) e Emerson Royal aproveitando o corredor, o Brasil aumentou o nível de competitividade e virou a partida até com uma certa facilidade pra cima de uma Venezuela visivelmente exausta.

Emerson Royal e Antony deram mais movimentação e profundidade ao escrete canarinho, além de deixaram o 4-4-2/4-2-4 de Tite muito mais consistente no terço final. Mas foi Raphinha quem mudou o panorama do jogo ao assumir o papel de principal armador da equipe no segundo tempo. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

A virada em Caracas manteve a Seleção Brasileira com 100% de aproveitamento nas Eliminatórias da Copa do Mundo. São nove vitórias em nove partidas, 22 gols marcados e apenas três sofridos. São ótimos números, é verdade. No entanto, nem mesmo a frieza das estatísticas esconde o fato de que a equipe comandada por Tite jogou muito mal nesta quinta-feira (7). A Venezuela congestionava o meio-campo com até cinco jogadores (quando Soteldo recuava por dentro) e fechava as linhas de passe da Seleção Brasileira. Por mais que Everton Ribeiro e Lucas Paquetá se movimentassem e buscassem o jogo, o ataque brasileiro perdia velocidade quando a bola chegava nos pés de Gerson. Fora isso, o camisa 7 não cuidava do seu setor e nem se apresentava no ataque. Passes para o lado, baixíssima intensidade e pouca mobilidade com e sem a bola. Nem mesmo a mudança do 4-1-3-2 para o 4-4-2/4-2-4 ajudou o volante do Olympique de Marselha a relembrar seus tempos no Flamengo com Jorge Jesus.

Ao mesmo tempo, fica difícil de entender os motivos que levaram Tite a manter o camisa 7 em campo durante toda a partida sabendo que ele era o ponto mais fraco do meio-campo da Seleção Brasileira. Fora isso, a escolha dos jogadores que iniciaram o jogo contra a Venezuela também deixa algumas dúvidas. Se Everton Ribeiro vai ser o ponta-armador do escrete canarinho, o time precisava de um lateral de mais força no apoio. Danilo rende muito mais armando o jogo e defendendo do que apoiando. Ao contrário de Guilherme Arana, que é quase um ponta pela esquerda no Atlético-MG. É por isso que Emerson Royal, Antony e (principalmente) Raphinha foram tão bem. O primeiro foi mais consistente no apoio, o segundo deu mais mobilidade e improviso ao ataque do que Gabriel Jesus e o terceiro foi o responsável direto pelo aumento no nível de competitividade da Seleção Brasileira ao armar o jogo e ainda aparecer na linha de fundo. Difícil não ver os novatos pedindo passagem.

Fato é que Tite vem adotando um perfil mais pragmático. O resultado vem antes do espetáculo e o bom desempenho está diretamente ligado à boa execução dos conceitos do treinador da Seleção Brasileira. Mas a atuação ruim contra a Venezuela deixou bem clara a importância dos novatos. Raphinha, Emerson Royal e Antony ganharam pontos enquanto outros seguem estacionados. E a grande missão de Tite é saber a dosagem exata entre os testes na sua equipe e a manutenção de um nível mínimo de competitividade num momento em que a vaga na Copa do Mundo está praticamente assegurada.

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