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“Muitos atletas falaram mentiras”. Jadel Gregorio fala sobre os bastidores do atletismo brasileiro

Em entrevista ao Torcedores.com, o triplista brasileiro expressa insatisfação com alguns aspectos envolvendo o atletismo, mas ressalta: “Estamos caminhando para uma direção melhor” 

Bruno Nunes
Colaborador do Torcedores

Crédito: Reprodução / Instagram

 

Quando falamos em alto rendimento no esporte, alguns nomes surgem como referência no assunto. É o caso do ex-atleta e treinador Jadel Gregorio, último brasileiro finalista olímpico no salto triplo, e um dos maiores nomes do atletismo na primeira década dos anos 2000. 

 

Como atleta do salto triplo, Jadel acumulou várias conquistas importantes em competições internacionais, entre elas, duas medalhas de prata em mundiais indoor (2004 e 2006) e ouro no Panamericano de 2007. Disputou também  duas finais Olímpicas (2004 e 2008).

 

Em 2007, no auge de sua carreira, o triplista saltou incríveis  17,90m no Grande Prêmio Brasil de Atletismo, superando em 1 centímetro o recorde do João do Pulo, que já durava 32 anos.  

 

Após pendurar as sapatilhas em 2016, Jadel Gregorio iniciou uma nova função no esporte, não mais como atleta, mas como instrutor e incentivador da prática esportiva. Desde então, ele tem se tornado padrinho de vários projetos pelo Brasil, além de atuar como professor e treinador em San Diego, nos EUA.

 

De passagem por São Paulo, Jadel Gregorio conversou com a nossa equipe sobre o atual cenário do atletismo brasileiro, sempre firme em suas declarações, Jadel demonstrou insatisfação com algumas questões que envolvem a modalidade. 

 

Confira nossa entrevista: 

 

Em Tóquio, mais uma vez, o Brasil ficou de fora da final no salto em distância e no salto triplo. Como você avalia a participação brasileira e qual a sua expectativa para o próximo ciclo olímpico? 

 

Então, não teve renovação, e não está tendo renovação. A gente vê que tem um menino aparecendo agora, fez 18 anos, lá do Sul. Ele treina até na equipe que eu sou padrinho, equipe de Foz do Iguaçu. Então assim, não têm renovações.  A Olimpíada pra gente foi aquele festival de conversa e enganação, de que: “eu vou bater recorde”,  “eu vou bater o recorde do João do Pulo”.  Até  fiz algumas lives bravo. Porque na verdade, não existe mais Recorde do João do Pulo, existe o recorde do Jadel Gregorio. Enfim, depois, no salto em distância, também não apareceu nada. Então está muito inconstante. Dinheiro tem! Não dá para reclamar que não tem dinheiro, a patrocinadora Caixa renovou os contratos, tem o Bolsas Atleta, tem incentivo, tem a equipe multidisciplinar, realmente faltou aí uma reciclagem de treinamento, uma reciclagem de atletas, uma reciclagem de conteúdo de trabalho, enfim, é triste porque a gente não vê nenhum nome a ser pontuado para próxima Olimpíada, que vai ser daqui três anos.

 

Após os Jogos Olímpicos, muito se falou sobre as dificuldades enfrentadas por alguns atletas brasileiros. Como você recebeu esses questionamentos por parte dos atletas? 

 

O que a gente vê é que tá muito fácil para os atletas, hoje, com o poder da mídia social, eles falam o que eles querem! Tem muito atleta aí  dando entrevista falando que está passando fome, que vai trabalhar de Uber, que vai trabalhar disso e daquilo, mas esses atletas esquecem de falar que eles fizeram  camping ao longo do ano todo, fora do país, e esses campings foram custeados pelo COB e pela Confederação de Atletismo, ou seja, eles tiveram condições de ir treinar. Eles tiveram condições de competir lá fora. Muitos falaram: “Ah, eu não tinha condições de treinar”. Mentira! Muitos falaram mentiras nas mídias, então todas as pessoas que acompanham realmente o atletismo de perto, sabem que muitos deles (atletas), falaram mentiras e continuam falando mentiras.

 

Tem muito atleta  recebendo aí das Forças Armadas, tem atleta que está recebendo da Confederação e do COB, nessas bolsas atletas e estão falando que não possuem condições. É triste porque a gente vê que de um lado tem muita gente precisando e não tem, e do outro, tem pessoas que têm e estão fazendo esse barulho mentiroso nas redes sociais. Chega a ser desagradável pro nosso atletismo. Pessoas com 40 anos,  já em fim de carreira, gritando, falando que é injustiçado. É só puxar o resultado, gente! 

 

É o que eu falo sempre: Se o treinador não fez resultado nos últimos dois anos, da mesma forma que está mandando o atleta embora, tem que mandar o treinador. Tem muita coisa no atletismo  ainda que está engessada e a gente não sabe quando vai mudar isso aí.

 

Você sempre deixou clara a sua insatisfação com alguns pontos do atletismo brasileiro, tanto na parte estrutural quanto nas questões de investimento e ações do Poder Público. Você enxerga alguma evolução nesse sentido ou o Brasil continua cometendo os mesmos erros de sempre? 

 

Essa gestão nova agora melhorou bastante. Tanto é que nos últimos voos das seleções, foram voos fretados, onde teve um conforto maior para os atletas, não só em questão de viajar, mas em questão de segurança também. Tá viajando só a seleção, que foi testada, enfim. A gente vê que a nova gestão está tentando implantar mudanças. Atletas estão mal acostumados, treinadores estão mal acostumados e isso leva um tempo até chegar no bom senso de todos. 

 

Eu nunca tinha participado de nada, hoje eu faço parte do Ídolo do Atletismo. É um programa novo que foi criado, eu e mais 25 atletas fazemos parte desse grupo. Somos considerados ídolos do esporte, não é mais aquela história que eu brigava sempre, dos “heróis” que não falavam nada, não representavam nada, e estavam recebendo o seu dinheiro lá. Então assim, a gente vê que teve algumas competições mesmo com pandemia, a gente viu que a iniciação está tendo um cuidado um pouquinho melhor, estamos caminhando para uma direção melhor.

 

Mas sempre tem que estar atento,  temos  que estar atento com os treinadores que não estão produzindo, temos que estar atentos com aqueles dirigentes que de repente não estão produzindo também. Mas acredito que no próximo ano vai melhorar um pouco. Lembrando também que os atletas fizeram muito camping,  teve atleta que ficou quase três, quatro meses fora, fazendo camping,  e aí chega lá na Olimpíada e fala que não teve condições. Então tem muita coisa que não tá sendo falada como deveria ser falada.

 

O que o atleta brasileiro de alto rendimento precisa ter em mente, para conseguir chegar em uma olimpíada com chances de brigar por uma medalha nas provas de salto? 

 

Primeiro tem que sair desse mundo de Instagram, né? Esse mundo de mentira que é muita filmagem fazendo um saltinho bonitinho, com gelzinho na cabeça, uma unha feita… Então, tem que sair desse mundinho e fazer mais treinos reais, mais competições, ir para Europa e fazer resultados lá, manter uma Constância, e em cima dessa constância,  a gente vai ter um parâmetro; Saltou 17,10m, saltou 17,20m, saltou 17,50m, aí a gente vai poder falar “oh, realmente esse tem condições de ir para uma final”. Não! Realmente tá muito a quem. Então é isso, é treinar mais, fazer mais competições, ter mais constância nos resultados e em cima desses resultados, a gente vai criar um parâmetro para quem realmente tem condições de ir para final, quem realmente tem condições de ir para o pódio.  Não é em cima de  videozinho, de like, de visualizações, isso aí não vai trazer resultado. E o resultado foi mais que provado nessa olimpíada, a gente viu que tinha Aquela que tava bombando nos seus vídeos, bombando no seus likes e chegou lá na hora que tinha que mostrar resultado e não mostrou. 

 

O que você achou dos Jogos Olímpicos de Tóquio? 

 

Não acompanhei nada. Realmente eu fiquei fora de conexão com os Jogos. Para ser mais sincero com você, eu fiquei aguardando a prova do salto triplo devido a toda essa conversa que teve em cima do meu nome: Que iriam bater meu recorde. E fiquei em cima da prova de salto em distância e as provas de velocidade dos 100m e 200m, de resto eu não vi nada. 

 

Nas últimas semanas você tem visitado alguns colégios e centros de treinamento pelo país. Como você atua para incentivar a prática esportiva aqui no Brasil? 

 

Eu sou padrinho do projeto Idecace, que é o DNA do Brasil, que fica situado em Brasília, mas atende todas aquelas cidades satélites, cuidando de 25 mil crianças. Também sou padrinho da equipe de Foz do Iguaçu. Sou padrinho da equipe de Campo  Mourão no Paraná. A gente foi, agora, para Campo Mourão, conseguimos lá o suporte de cinco bolsas de estudo 100% pros alunos e para os atletas de Campo Mourão, conseguimos lá agora uma verba de 3 milhões e oitocentos pra fazer a pista de atletismo e em Foz do Iguaçu, conseguimos lá, a liberação da pista de atletismo, que estava  com um impasse com algumas pessoas da política. A gente foi para lá, conseguimos conversar e acertar. Então assim, o que que a gente faz:  A gente dá a ideia e a gente coloca a nossa positividade, aqui no Brasil com padrinho e lá nos Estados Unidos como professor.

 

Como é trabalhar com o esporte nos EUA? Explica um pouco do seu projeto em San Diego. 

 

Eu trabalhei com duas meninas, (Ruthie Williams e Alysha Hike), as duas ganharam tudo por 3 anos consecutivos. 1 a gente encaminhou para Oregon e a outra foi encaminhada para San Diego. Essa que foi para Oregon saltou 6,80m. Aí, no Trial, ela ficou muito nervosa, porque  era muito nova, e acabou não acertando esse  resultado que ela poderia soltar. Ela poderia soltar 7m e seria uma das atletas mais novas da equipe americana a ir para os Jogos Olímpicos. A outra atleta infelizmente quebrou um osso do pé e não pôde fazer uma boa temporada. Mas foram encaminhadas. São duas atletas que são boas e treinando direitinho, no formato que a gente vinha treinando, elas podem com certeza aparecer no cenário olímpico com muita força.

 

O nosso trabalho lá (nos EUA), é um trabalho de educação corporal. Eu não posso falar que eu dou só treinamento de técnica ou de força, porque eu venho numa linha aonde eu acredito que, o conhecimento biomecânico do corpo faz a diferença, então,   a gente vê que alguns atletas não sabe nem correr, não sabe nem andar, então a gente acerta isso para que o empenho seja melhor. Eu não trabalho só com atletas. Eu trabalho com pessoas também sedentárias, eu tenho alunos de 80, 82 anos. Então a gente tem que fazer com que esse aluno agache, a gente tem que fazer com que esse aluno, ele possa correr, possa saltar, possa lançar, então, é uma educação corporal biomecânica. E nisso os resultados dão certo. Porque eu sou uma pessoa que gosta de performance, aí eu vou acertando aqui, acertando ali, ponho um pouquinho mais de ênfase onde está com déficit, e os resultados acontecem. Fomos muito  felizes nesse período em que a gente trabalhou antes da pandemia.

 

E aí entrou a pandemia, eu não quis fechar contrato com ninguém porque seriam só três meses. Aí eu peguei e vim para o Brasil. Tive tempo de vir para cá, cuidar das minhas coisas. Rodei o Brasil todo. Nesse pouco tempo que eu tô aqui, eu fui em alguns colégios, fui em alguns lançamentos de livro, foi em artes plásticas, então é essa minha função; Divulgar o esporte, divulgar a saúde e fazer com que essa bandeira chegue mais longe e mais alto.  

 

Recentemente você recebeu uma réplica da medalha de ouro conquistada nos jogos pan-americanos que havia sido furtada em uma exposição. Como foi poder ter de volta essa medalha que representa uma conquista tão importante? 

 

Quando roubaram a medalha eu nem percebi. Na verdade, roubaram duas medalhas, roubaram a medalha do campeonato mundial de Moscou, Indoor, onde eu tenho o recorde sul-americano indoor, 17,56m, e roubaram a medalha do Panamericano. O que aconteceu: Eu deixei as minhas medalhas fazendo uma exposição itinerante no Brasil, e em uma delas, na última eu acho, roubaram as duas medalhas. Como vem tudo em caixa, eu deixei encaixotado, dentro de casa, e quando eu fui abrir… Cadê as medalhas? E aí o tempo passou. Eu não imaginava que eu iria receber essa medalha. Eu estava procurando um atleta para me dar a medalha dele, para eu poder fazer uma réplica. 

 

Daí eu entrei em contato com o COB, eles pediram um boletim de ocorrência, eu fiz um boletim de ocorrência. Mandei. E aí o nosso Rogério Sampaio entrou em contato comigo, falou: “eu tô indo para Santos, eu vou para minha casa, e aí quando eu tiver indo eu levo e te entrego em mãos”. E aí para mim foi uma emoção. Não perto da emoção de ter ganho o Pan, caramba, eu tenho a medalha de volta, né? Fiquei bastante contente. Estou bastante contente também com o esforço que fizeram lá dentro, todo o pessoal do COB, que me deu assistência. Conseguiram chegar até essa medalha. Então para mim foi bem bacana, foi gratificante mais uma vez poder contar com o órgão esportivo. 

 

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