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Do volume de jogo absurdo ao absurdo do racismo: Corinthians atropela mais um e está na decisão da Libertadores Feminina

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a atuação da equipe comandada por Arthur Elias na goleada sobre o Nacional de Montevidéu

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / CONMEBOL Libertadores Femenina

Esse é mais um daqueles momentos complicados em que é difícil manter o foco APENAS no futebol. Este que escreve gostaria muito de manter esta humilde análise nas ideias de Arthur Elias e explicar como o Corinthians pulverizou o Nacional de Montevidéu com sonoros e impiedosos 8 a 0 nesta terça-feira (16), no Estádio Manuel Ferreira em Assunção. Apenas falar do volume de jogo absurdo e o futebol envolvente da equipe paulista e de como Adriana, Vic Albuquerque, Diany, Tamires e companhia construíram a goleada sobre o escrete uruguaio. Só que é bem difícil manter a compostura sem mencionar e repudiar o ato lamentável ocorrido após o sexto gol corintiano. Adriana teria sido chamada de “macaca” por uma das jogadoras do Nacional que não foi identificada pelo trio de arbitragem e nem pela transmissão da CONMEBOL. O que é certo é que todo o elenco do Corinthians respondeu aos insultos com gols e o característico gesto antirracista. Mesmo assim, é triste que tenhamos que falar disso novamente.

Dentro de campo, o Corinthians fez aquilo que se espera de uma equipe muito superior ao seu adversário. Impôs seu estilo de jogo, ocupou bem o campo de ataque e se adaptou ao que a partida desta terça-feira (16) exigia. Se o Nacional avançava suas linhas para forçar o erro na saída de bola, Gabi Zanotti recuava e dava opção de passe para as jogadoras. Ou Gabi Portilho atacava o espaço deixado pelas subidas de Vieira ao ataque e pela indecisão da zagueira Ferradans na cobertura do setor. Ou Tamires aparecia por dentro como mais uma volante para abrir o corredor para Yasmim. Seja como for, o Corinthians conseguia se livrar da pressão com certa facilidade e cadenciou mais o jogo no primeiro tempo muito por conta do campo pesado e das fortes chuvas em Assunção. O gol de Campiolo após cobrança de escanteio da direita (na já conhecida jogada de bola parada do escrete de Arthur Elias) foi importante para que o Timão tivesse cenário favorável e controlasse a velocidade das jogadas de ataque desde os primeiros minutos.

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Mesmo pressionado, o Corinthians conseguia sair da pressão alternando toques por baixo e ligações diretas buscando Tamires e Gabi Portilho pelos lados do campo. Gabi Zanotti recuava para dar opção de passe e Diany desafogava e descomplicava as coisas com passes precisos mais por dentro. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Se o primeiro tempo foi mais morno e cadenciado, a segunda etapa acabaria marcada pelo atropelamento de um Corinthians impiedoso e letal nos contra-ataques. Diany marcou o segundo logo aos três minutos. Vic Albuquerque aumentou aos oito e Gabi Portilho fez o quarto aos dezesseis minutos. Com a ampla vantagem no marcador e diante de um Nacional completamente entregue à própria sorte, Arthur Elias foi descansando suas jogadoras e dando minutos para outras mostrarem serviço. Como Jhennifer. A camisa 9 recebeu de Andressinha e fez o quinto finalizando da entrada da área. Adriana fez o sexto cobrando penalidade sofrida por Gabi Portilho. Juliete marcou o sétimo em belo chute da entrada da área e a veterana Grazi fechou o caixão do Nacional aos 44 minutos do segundo tempo. Diante desse massacre, o que mais impressionava era a atitude do time de Arthur Elias. Aliás, é preciso dizer que poucas equipe de futebol feminino são tão agradáveis de se ver jogando como esse Corinthians. O que elas fazem em campo é um absurdo.

Yasmim recebe na esquerda, levanta a cabeça e vê Adriana, Tamires, Gabi Portilho e Vic Albuquerque fazendo as jogadas de ultrapassagem e atacando o espaço. Diany fica de olho numa possível segunda bola da jogada e Gabi Zanotti faz o balanço defensivo. O que esse Corinthians faz em campo é absurdo. Foto: Reprodução / Facebook / Conmebol Libertadores

Sim, este colunista gostaria de continuar falando sobre as mudanças promovidas por Arthur Elias, sobre a maneira como cada jogadora assimilou os conceitos do seu treinador e como esse Corinthians consegue manter um futebol de altíssimo nível mesmo com várias mudanças no time titular. Você já leu aqui no TORCEDORES.COM elogios e mais elogios dirigidos ao Timão e a todas essas atletas. E provavelmente continuará lendo, já que a equipe paulista se garantiu na decisão da Libertadores Feminina e terá mais uma grande oportunidade de fazer história novamente contra o organizado e competitivo Independiente Santa Fe de Robledo, Salazar e Guarecuco. No entanto, a partida desta terça-feira (16) merece um olhar diferente. E a bronca deste e de muitos que ficaram revoltados com a injúria racial dirigida para Adriana após o sexto gol nem é com a autora do xingamento. É com a “dona” Conmebol e seus panos passados nesse e nos mais variados casos de racismo nas suas competições. Masculinas e femininas.

O depoimento do amigo Rafael Alves (do ótimo Planeta Futebol Feminino) resume bem o pensamento deste que escreve. Palavras fortes e necessárias. Palavras que revelam o cansaço de quem combate o racismo todos os dias. Ver jogadores e jogadoras tendo esse tipo de atitude e colocando a culpa no “calor do momento” serão cada vez mais comuns se a Conmebol não agir como se deve. Com campanhas, com conscientização e com punições severas quando o caso exigir. O regulamento disciplinar da entidade (no seu artigo 14) fala de exclusão de competições dependendo das “circunstâncias particulares do caso”. A legislação existe. Falta saber quando ela será aplicada como se deve. Infelizmente, as pessoas já levaram tanta pancada dentro e fora de campo que já deu no saco ficar educando e explicando que racismo, homofobia, machismo e outras bobagens não combinam com o esporte. A Conmebol tem os poderes para realmente fazer algo que preste sobre esse e outros casos. Mas parece que falta vontade para aplicar a regra.

O Corinthians teve que superar a arbitragem (não foram poucas as vezes em que as jogadoras do Nacional largaram as travas da chuteira nas jogadoras brasileiras), o campo pesado, a chuva e o episódio lamentável de racismo para se garantir na grande final da Libertadores Feminina com méritos. Difícil não colocar a equipe comandada por Arthur Elias como a favorita no confronto sabendo de todo o seu potencial e de tudo o que ela já fez. No entanto, manter a prudência, os pés no chão e o foco na partida é fundamental para se chegar à Glória Eterna. É manter o plano e executá-lo com o máximo de perfeição possível.

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