R$ 500 milhões no futebol, novo CT e base: veja detalhes da proposta de Lamacchia pela SAF do Vasco
Oferta pela compra de 90% da nova SAF inclui aportes anuais e investimentos em estrutura
Clube está desde dezembro sem um patrocinador principal (Crédito: Action Plus Sports Images/Alamy Live News)
A proposta de Marcos Lamacchia para assumir 90% da nova SAF do Vasco vai muito além do aporte de R$ 500 milhões no futebol. Os documentos apresentados no processo de recuperação judicial detalham investimentos no centro de treinamento e nas categorias de base, regras para utilização de São Januário, garantias aos credores e até restrições para uma futura venda da participação.
A Justiça do Rio de Janeiro já autorizou a abertura do processo competitivo, marcado para 25 de setembro, além de liberar um novo financiamento DIP de até R$ 150 milhões. Entenda a decisão da Justiça e como funcionará o leilão da SAF do Vasco.
Agora, a Almirante Participações e Empreendimentos, de Lamacchia, entra como favorita. A empresa apresentou a proposta-base do processo e terá o direito de igualar uma eventual oferta superior de outro interessado.
Proposta prevê R$ 500 milhões exclusivamente para o futebol
A Almirante pretende adquirir 90% da nova SAF. Como parte da operação, a proposta prevê R$ 500 milhões em aportes de capital, divididos em parcelas anuais de R$ 100 milhões e corrigidos pelo INPC. A quantia deve ser aplicada exclusivamente no futebol, incluindo elenco, comissão técnica e contratações, sem utilização para pagamento das dívidas existentes.
Além disso, aproximadamente R$ 80 milhões do financiamento DIP já concedido pelo Banco Crefisa poderão ser convertidos em participação societária na SAF.
CT e categorias de base receberão mais R$ 150 milhões
Os investimentos obrigatórios não terminam nos R$ 500 milhões. Isso porque a proposta estabelece outros R$ 150 milhões destinados à infraestrutura e à formação de jogadores.
Os compromissos estão divididos da seguinte maneira:
- R$ 120 milhões no centro de treinamento profissional ao longo de dez anos;
- R$ 30 milhões nas categorias de base em até dois anos;
- projetos capazes de gerar até R$ 150 milhões em incentivos fiscais durante dez anos;
- aportes adicionais caso os recursos da nova SAF não sejam suficientes para cumprir as obrigações previstas.
Almirante não poderá vender ações por dez anos
A proposta também cria restrições para evitar uma saída rápida do futuro controlador. Caso vença o processo, a Almirante ficará impedida de vender sua participação na SAF durante dez anos.
No mesmo período, a nova SAF não poderá distribuir dividendos. Dessa forma, os recursos gerados pela operação permanecerão ligados às necessidades e aos compromissos da empresa.
A Almirante também assumirá a obrigação de cumprir integralmente o Plano de Recuperação Judicial, além das dívidas tributárias e extraconcursais, e deverá manter equilíbrio financeiro por pelo menos cinco anos.
Nova SAF ficará com todo o futebol do Vasco
A operação prevê a transferência de praticamente toda a estrutura relacionada ao futebol profissional para a nova empresa. Isso inclui ativos esportivos e comerciais atualmente ligados ao Vasco.
A nova SAF receberá:
- departamento de futebol;
- contratos de jogadores e comissão técnica;
- contratos comerciais e de patrocínio;
- direitos de propriedade intelectual relacionados ao futebol;
- direitos de utilização dos centros de treinamento.
Assim, o futuro controlador assumirá diretamente a operação esportiva e as principais receitas vinculadas ao futebol vascaíno.
São Januário terá pagamento anual à associação
O estádio continuará pertencendo ao Vasco, mas a nova SAF terá direito prioritário e exclusivo de utilização de São Januário para suas partidas como mandante até 31 de dezembro de 2030.
Em contrapartida, a SAF deverá pagar R$ 3 milhões por ano ao clube associativo pelo uso do estádio. Caso São Januário esteja em reforma, o valor anual cairá para R$ 2 milhões.
A regra estabelece, portanto, uma relação financeira entre a associação e a empresa mesmo depois da transferência do futebol para a nova estrutura societária.
Lamacchia terá vantagem se aparecer outra proposta
A oferta da Almirante foi aceita como stalking horse. Na prática, ela funciona como proposta-base para o processo competitivo marcado para 25 de setembro.
Se outro interessado apresentar uma oferta superior, Lamacchia terá o chamado Right-to-Match, que permite igualar as condições e continuar com a preferência pela aquisição. Além disso, um eventual vencedor terá de pagar R$ 25 milhões à Almirante como Break-Up Fee.
Outro obstáculo para novos concorrentes será a exigência financeira. Qualquer interessado em disputar os 90% da nova SAF precisará apresentar uma caução de R$ 150 milhões.
Garantias incluem conta vinculada e fiadores
Caso a Almirante confirme a aquisição, a proposta exige a manutenção de uma conta vinculada, conhecida como escrow. O saldo deverá ser suficiente para cobrir pelo menos três meses das obrigações previstas na recuperação judicial.
Além disso, Marcos Lamacchia e a Crefipar Participações e Empreendimentos S/A atuarão como fiadores solidários das obrigações financeiras assumidas.
A proposta também recebeu novas salvaguardas durante o processo. Entre elas está um seguro bancário de R$ 324 milhões, montante equivalente à dívida da SAF incluída na recuperação judicial.
Almirante alterou proposta após questionamentos
A empresa apresentou uma emenda depois de manifestações da Justiça e do Ministério Público do Rio de Janeiro. Além do seguro de R$ 324 milhões, o documento trouxe mudanças relacionadas aos empréstimos realizados durante a recuperação judicial.
Entre as alterações está a conversão do DIP de R$ 150 milhões em sinal de compra. Caso um terceiro vença o processo competitivo, a Almirante também se comprometeu a renunciar ao empréstimo.
A empresa ainda abriu mão do vencimento antecipado de outro financiamento, de R$ 40 milhões, realizado em julho. Além disso, assumiu o compromisso de antecipação do biênio até o limite de R$ 27 milhões.
Processo ainda depende de diferentes aprovações
Mesmo que a Almirante seja declarada vencedora em 25 de setembro, a operação não estará automaticamente concluída. O negócio ainda precisa cumprir diferentes condições antes da transferência definitiva do controle.
Entre elas estão a aprovação judicial da venda, a conclusão da due diligence e as autorizações dos órgãos competentes. Posteriormente, a proposta também terá de passar pelos Conselhos do Vasco.
A solução do conflito com a 777 Carioca LLC também aparecia originalmente entre as condições, mas essa etapa já foi superada após o acordo envolvendo as partes.
Lamacchia aparece como favorito para assumir a SAF
O Vasco já havia realizado uma primeira busca por investidores no fim de 2024. Naquele momento, o empresário grego Evangelos Marinakis esteve entre os nomes que demonstraram interesse.
Ao longo do processo de recuperação judicial, porém, os outros candidatos não avançaram até a etapa decisiva. A Almirante permaneceu e apresentou uma oferta vinculante.
O prazo previsto para conclusão da operação é 30 de setembro de 2026. Caso o fechamento não aconteça até essa data, a investidora poderá optar pela prorrogação ou desistir do negócio sem penalidades.

