“Acordo depende das famílias” diz Flamengo sobre tragédia no Ninho

Dirigentes afirmam que não mudarão os valores ofertados para as famílias; vice-presidente explica o motivo da decisão do clube de recorrer valor imposto pela justiça

Giovanna Di Fluri
Graduanda em Jornalismo UFRJ

Crédito: Marcelo Cortes | Flamengo

No próximo sábado, 8, a tragédia no Ninho do Urubu completa 1 ano. O acidente, que matou dez atletas da categoria de base do Flamengo, ainda não encontrou um desfecho. Isso porque o clube só conseguiu fechar acordo com três famílias e meia, enquanto as outras seis famílias e meia ainda lutam na justiça. Inicialmente, logo após o incêndio, o Flamengo começou a depositar R$5 mil para os familiares dos atletas que perderam a vida, algo em torno de seis vezes mais do que os meninos ganhavam. Por decisão judicial, o clube teve que revisar o valor e pagar R$10 mil para as famílias.

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A decisão, no entanto, fez com que o Flamengo fosse à justiça para recorrer o novo valor imposto. Essa atitude fez com que muitos questionamentos surgissem no que diz respeito ao tratamento que o clube está dando à tragédia do Ninho. De acordo com uma entrevista concedida ao blog do Mauro Cezar Coelho, do Uol, Rodrigo Dunshee de Abranches, vice-presidente geral e jurídico do Flamengo, explicou o motivo do clube ter recorrido da decisão judicial.

O QUE DIZ O FLAMENGO

Segundo o advogado do clube, a decisão da justiça contém inúmeros erros técnicos. “A começar pela intervenção do Ministério Público, que não representa as famílias, ao invés disso, todas as famílias têm advogado e os seus direitos são individuais, assim a atuação do MP é uma atuação indevida. Além do mais, não foi pedida pensão mensal para as famílias, mas uma penhora de R$ 57 milhões. A decisão deu uma coisa que não foi pedida e isso tecnicamente é errado. O julgador não pode dar algo que não foi pedido.” completou.

Sobre a divergência com as famílias que não aceitaram o acordo proposto, Rodrigo disse que “o Flamengo fez uma proposta altíssima de acordo para as famílias, muito acima do que os tribunais do Brasil concedem em seus julgamentos. Três famílias e meia aceitaram. O Flamengo chegou a esses valores de acordo depois de muita conversa e negociação. Não podemos pagar mais por acordo às demais famílias. A trágica situação é a mesma e não podemos pagar diferente. Quem julgar que pode ganhar mais na justiça deve seguir a sua opção.”

Ainda sobre a dificuldade de entrar em um acordo com as seis famílias e meia, o advogado do clube disse que é “importante considerar que os jovens ganhavam muito pouco e estatisticamente tinham chance muito pequena de receber um bom salário como jogadores, porque todos sabem que as divisões de base são uma grande peneira. Porém, estamos ignorando essas questões técnicas e estatísticas e fazendo uma proposta que não considera isso, uma proposta que leva em conta o carinho por nossos jovens atletas. A grande maioria não seguiria a carreira, mas estavam sendo preparados para vida.”

Em um esclarecimento publicado na página do YouTube do Flamengo, Rodolfo Landim também comentou sobre o caso do Ninho do Urubu. Segundo ele, o clube estabeleceu um teto para chegar nos acordos. De acordo com o presidente, essa questão não depende somente do Flamengo, e sim das famílias, uma vez que a discussão dos valores está limitada ao teto estabelecido pelo clube.

RESULTADO ECONÔMICO E ACORDO COM AS FAMÍLIAS

O maior questionamento feito aos dirigentes do Flamengo é em relação ao sucesso da temporada passada. Ou seja, ao lucro com venda de jogadores, conquistas de títulos e compra de novos atletas. A indagação se baseia no sucesso financeiro que o clube obteve e a luta na justiça por um acordo com os familiares das vítimas da tragédia.

Segundo o presidente Rodolfo Landim, o resultado econômico do Flamengo é “uma coisa” e a briga judicial é “outra coisa”: “São processos totalmente distintos. Se o clube tivesse um resultado esportivo ruim e com prejuízo financeiro, não teria responsabilidades com as famílias? É importante dissociar as duas coisas. O Flamengo tem responsabilidade sobre a indenização das famílias e ela é para ser estabelecida em cima de critérios avaliados especificamente para esse caso.”

DISPENSA DOS SOBREVIVENTES

Outro fator que gerou polêmica e mais questionamentos foi a dispensa dos atletas sobreviventes do incêndio no Ninho. Os meninos foram desligados do clube no início do ano.  De acordo com o presidente, a saída dos jogadores foi uma decisão exclusivamente feita pela comissão técnica: “Esse critério foi puro e simplesmente técnico do clube, do qual eu não vou intervir porque não é o meu papel. Eles estão livres a partir desse momento para procurar outros clubes. ‘A gente’ espera que eles tenham sucesso caso queiram seguir essa carreira, ou então que busquem outra atividade. ‘A gente’ entende que ao sair daqui, eles saem muito mais preparados para a vida do que quando chegaram aqui.” 

Das três famílias e meia que aceitaram o acordo, estão os parentes de Athila Paixão, Gedson Santos, Vitor Isaias, e o pai de Rykelmo.

Entre os que não aceitaram o acordo e ainda brigam por uma indenização, estão as famílias de Arthur Vinícius, Bernardo Pisetta, Christian Esmério, Jorge Eduardo, Pablo Henrique, Samuel Thomas e a mãe de Rykelmo.