50 anos do Tri (Parte III): Começa a Copa do Mundo!

TORCEDORES.COM traz mais uma reportagem da série especial sobre os 50 anos do tricampeonato mundial no México; terceiro capítulo trata da falta de confiança da imprensa na Seleção Brasileira e das mudanças promovidas por Zagallo na equipe titular

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Site oficial da CBF

A Seleção Brasileira vivia um momento conturbado nos bastidores. A saída de João Saldanha do comando da equipe em meados do mês de março de 1970 fez com que muita gente “jogasse a toalha” com relação à participação escrete canarinho na Copa do Mundo do México. A imprensa esportiva daqueles tempos bem complicados para o país (vide o endurecimento da ditadura militar com Médici) enxergava uma equipe que dependia demais do brilho individual de jogadores como Pelé, Gérson, Tostão e Jairzinho e que não possuía conjunto nem uma proposta de jogo clara. Tanto que a mesma imprensa usava termos como “vexame” e outras expressões como “fazer turismo no México sempre que projetavam a campanha da Seleção Brasileira no México. Ao mesmo tempo, Zagallo também se via cercado de desconfiança e trabalhava incessantemente para encaixar o time e dar o padrão tático que ele tanto queria. A entrada de Rivellino na equipe ao lado de Clodoaldo e Gérson e o voto de confiança em Tostão se mostrariam determinantes para a conquista do tão sonhado tricampeonato mundial em terras mexicanas.

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O sorteio da Copa do Mundo foi realizado no dia 10 de janeiro de 1970 e também ficou acertado que a nona edição da competição mais importante do futebol mundial seria realizada em cinco cidades: Guadalajara, León. Puebla de Zaragoza, Toluca e a capital Cidade do México. Vale lembrar também que a vitória valia dois pontos naquela época e que os dois melhores de cada um dos quatro grupos se classificavam diretamente para as quartas de final. Além disso, a Copa do Mundo de 1970 também seria marcante por outros motivos. Esse foi o primeiro Mundial em que substituições foram permitidas durante as partidas (com cada equipe podendo fazer duas alterações). O uso dos cartões amarelos e vermelhos também teve seu início no México para identificar as advertências e expulsões respectivamente. E pela primeira vez na história das Copas, o critério de desempate no caso de igualdade de pontos na fase de grupos seria o saldo de gols e não mais os “jogos-desempate”. Caso a igualdade permanecesse, o vencedor seria decidido por sorteio.

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A Copa do Mundo do México, a nona edição do torneio mais importante do futebol mundial, começou no dia 31 de maio de 1970 (um domingo) com o empate sem gols entre os donos da casa e a União Soviética em partida realizada no lendário Estádio Asteca, na Cidade do México, diante de mais de 107 mil pessoas. Os grupos da primeira Copa do Mundo transmitida ao vivo e em cores pela televisão para todo o planeta eram os seguintes:

GRUPO 1 => México, União Soviética, Bélgica e El Salvador
GRUPO 2 => Itália, Uruguai, Suécia e Israel
GRUPO 3 => Inglaterra, BRASIL, Tchecoslováquia e Romênia
GRUPO 4 => Alemanha Ocidental, Peru, Marrocos e Bulgária

Pelo calendário do Mundial, a Seleção Brasileira só faria a sua estreia no dia 3 de junho, contra a Tchecoslováquia, no Estádio Jalisco, em Guadalajara. No entanto, como vimos anteriormente, o escrete canarinho passava por uma série de problemas nos bastidores. João Saldanha havia deixado o comando da equipe e Zagallo, ponta-esquerda das campanhas vitoriosas de 1958 e 1962, assumiu a equipe. O “Velho Lobo” manteve a base criada pelo “João sem medo” e realizou algumas mudanças pontuais. Clodoaldo foi mantido no meio-campo ao lado de Gérson, Piazza foi para a zaga após atuação sólida na vitória sobre a Áustria por 1 a 0 no Maracanã (no dia 29 de abril de 1970) e Rivellino assumiu o posto que era de Paulo Cézar Caju no lado esquerdo.

O escrete canarinho fez sete partidas sob o comando de Zagallo antes de embarcar para o México e iniciar a preparação física e a adaptação à altitude do país-sede da Copa do Mundo. Foram cinco vitórias (duas sobre o Chile, uma sobre a Áustria e duas sobre as seleções amazonense e mineira) e dois empates sem gols (contra Paraguai e o time B da Bulgária). Apesar dos bons resultados, as atuações da Seleção Brasileira não eram consideradas as melhores por boa parte da imprensa esportiva da época. Tanto que a “corneta” ganhou proporções gigantescas. Zagallo seguiu seu planejamento muito bem auxiliado por nomes consagrados do futebol brasileiro como Carlos Alberto Parreira, Cláudio Coutinho e Admildo Chirol. A grande preocupação do “Velho Lobo”, no entanto, estava em Tostão. Vale lembrar que, logo depois da etapa final de classificação para o México, Tostão recebeu uma bolada violenta no olho num jogo entre Corinthians e Cruzeiro no dia 24 de setembro de 1969. Entre a cirurgia para corrigir o deslocamento de retina e o retorno aos gramados se passaram seis meses e ninguém sabia se ele voltaria a jogar. No entanto, Tostão mostrou que estava apto a jogar nos treinamentos e amistosos realizados em terras mexicanas.

Brasil - Football tactics and formations

A Seleção Brasileira que venceu o Deportivo Guadalajara por 3 a 0 no dia 6 de maio de 1970 tinha Ado no gol, Marco Antônio na lateral-esquerda e Rogério na ponta-direira. Mas também contava com Tostão no comando de ataque e o 4-3-3 preferido de Zagallo com Rivellino voltando pela esquerda.

As boas atuações de Tostão, o encaixe de Piazza na zaga ao lado de Brito e o entendimento quase perfeito do sistema ofensivo deram a Zagallo a certeza de que a Seleção Brasileira estava pronta para a estreia na Copa do Mundo de México. No entanto, apesar dos três meses de preparação, dos 21 dias treinando em Guanajuato (a mais de dois mil metros de altitude) e de toda a preocupação da comissão técnica em aprender com os erros de 1966, os comandados de Zagallo ainda eram alvos de críticas ferozes por parte da imprensa esportiva. Zizinho (grande ídolo de Pelé) defendia a escalação de dois pontas abertos. Didi (grande nome dos títulos de 1958 e 1962 e então treinador do Peru) afirmava que uma vitória do Brasil no México seria uma surpresa muito grande. No entanto, talvez a maior ousadia (se é que podemos chamar assim) tenha vindo da boca de Otto Glória (técnico da Seleção Portuguesa em 1966). Ele declarava que o Brasil não tinha padrão de jogo e que “Pelé não teria vaga” no seu time. Coisas que a história tratou de de corrigir bem a tempo.

Certo é que o time titular já estava na cabeça de Zagallo e o grupo estava totalmente concentrado na disputa da Copa do Mundo. Félix seria o goleiro, Carlos Alberto Torres e Marco Antônio seriam os laterais e Brito e Piazza formariam a dupla de zaga. O meio-campo teria Clodoaldo, Gérson e Rivellino voltando pela ponta-esquerda tal como Zagallo fez na conquista dos Mundiais de 1958 e 1962. E o ataque teria Jairzinho, Tostão e Pelé. Esse time sofreria apenas uma modificação até a estreia contra a Tchecoslováquia, no dia 3 de junho. Marco Antônio apresentaria dores musculares às vésperas da estreia na Copa do Mundo e daria lugar a Everaldo. Curiosamente, a entrada do lateral-esquerdo do Grêmio daria mais equilíbrio ao sistema defensivo da equipe brasileira. Everaldo não subia tanto ao ataque como Carlos Alberto Torres e o espaço que poderia sugir à sua frente por conta da presença de um ponta-esuqrda de ofício seria ocupado por Rivellino. O 4-3-3 virava um 4-2-3-1 e até mesmo um 3-4-3.

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A Seleção Brasileira que entraria em campo no dia 3 de junho de 1970 contra a Tchecoslováquia teria a entrada de Everaldo na lateral-esquerda e a manutenção da base formada na fase final de treinamentos. A inteligência dos jogadores e a mobilidade do esquema tático permitia que o time utilizasse várias formações diferentes durante os 90 minutos.

A Seleção Brasileira estava pronta para a estreia contra a Tchecoslováquia. O jogo seria marcado pelo nervosismo do grupo, pela descrença da imprensa esportiva e por alguns momentos mágicos do escrete comandado por Zagallo. Mas isso tudo (incluindo a atuação mágica do Brasil e o prenuncio do que estava por vir na nona edição da Copa do Mundo) é assunto para o quarto capítulo do nosso especial sobre os 50 anos do Tricampeonato Mundial.

Relembre as duas primeiras partes do especial 50 anos do Tri:

50 anos do Tri (Parte I): Toda história tem um começo
50 anos do Tri (Parte II): A saída de João Saldanha e a chegada de Zagallo

FONTES DE PESQUISA:

Site oficial da CBF
RSSSF Brasil
The RSSSF Archive
A Pirâmide Invertida, de Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho (Editora Objetiva)
As melhores Seleções Brasileiras de todos os tempos, de Milton Leite (Editora Contexto)

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