50 anos do Tri (Parte II): A saída de João Saldanha e a chegada de Zagallo

TORCEDORES.COM traz mais uma reportagem da série especial sobre os 50 anos do tricampeonato mundial no México; segundo capítulo traz a saída conturbada de João Saldanha, a chegada de Zagallo e as mudanças táticas ocorridas na equipe às vésperas da Copa do Mundo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Site oficial da CBF

As coisas pareciam ter voltado ao normal na Seleção Brasileira após a chegada de João Saldanha ao comando técnico da equipe. Além de ser o comentarista esportivo mais popular de seu tempo, o “João sem Medo” conseguiu recuperar o prestígio do escrete canarinho junto ao torcedor depois da campanha ruim na Copa do Mundo de 1966 e ainda contagiou a todos falando nas suas “feras” colocando o time no ataque. Os números da Seleção Brasileira nas Eliminatórias para o Mundial do México mostravam que o estilo de jogo mais agressivo e vertical de Saldanha estava dando certo. Foram seis vitórias em seis partidas com 23 gols marcados. Por outro lado, João Saldanha (militante do Partido Comunista Brasileiro e opositor do regime militar) acabaria sendo vítima do clima pesado daqueles tempos e também do seu próprio destempero ao lidar com a pressão do cargo. Zagallo assumiria o comando do escrete canarinho e faria alterações importantíssimas no time que venceria a Copa do Mundo poucos meses depois.

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A Seleção Brasileira de João Saldanha era caracterizada mais pelo estilo agressivo do que propriamente pelo famoso e comentado toque de bola do nosso futebol. Ele existia e os jogadores lançavam mão desse recurso quando era necessário. Mas a lógica era a ataque. O time que venceu o Paraguai por 1 a 0 no dia 31 de agosto de 1969 (jogo realizado no Maracanã e que teve o maior público pagante da história do futebol mundial) seguia exatamente esse caminho. João Saldanha armou a Seleção num 4-2-4 bem típico daqueles tempos com dois pontas de lança se revezando no comando de ataque, dois pontas abertos e apenas dois jogadores no meio-campo. Falando especificamente do jogo contra os paraguaios, o escrete canarinho teve muitas dificuldades para vencer a retranca imposta pelo técnico José María Rodríguez. Tanto que o único gol da partida (marcado por Pelé) saiu de jogada individual pela esquerda com Edu. O camisa 11 chutou cruzado, o goleiro Raimundo Aguilera bateu roupa e a bola sobrou nos pés do Rei que só teve o trabalho de estufar as redes do gol do lado direito das cabines de rádio e televisão.

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A Seleção Brasileira se acostumou a jogar num 4-2-4 típico daqueles tempos sob o comando de João Saldanha. No jogo contra o Paraguai, a equipe manteve a mesma disposição tática dos demais jogos das Eliminatórias, com dois pontas abertos, dois pontas de lança e dois jogadores no meio-campo.

As coisas começaram a mudar para João Saldanha ainda em 1969, quando se mostrou preocupado com o estilo de jogo mais físico dos europeus após uma viagem ao Velho Continente para observações. Ao mesmo tempo, reconhecia que a simples crença no futebol de improviso havia levado o Brasil a resultados ruins e não queria repetir o mesmo erro de seus antecessores. Logo, João Saldanha começou a fazer mudanças na Seleção Brasileira de modo a dar mais robustez ao seu sistema defensivo ao optar por zagueiros mais fortes e mais altos, mas a iniciativa não foi vista com bons olhos por jogadores e imprensa. Principalmente quando o Brasil foi facilmente derrotado pela Argentina com facilidade no dia 4 de março de 1970, no Beira-Rio. De acordo com o jornalista Jonathan Wilson, no livro “A Pirâmide Invertida”, Piazza e Gérson foram dominados no meio-campo e Saldanha acusou Pelé de não obedecer suas instruções de recuar para ajudá-los na marcação enquanto Dirceu Lopes permaneceria mais à frente. A entrada do jovem Clodoaldo na segunda partida contra a Albiceleste melhorou o desempenho da Seleção, que venceu a partida por 2 a 1 com gols de Jairzinho e Pelé.

As coisas também não andavam bem fora de campo. João Saldanha se recusou a convocar Dadá Maravilha, atacante do Atlético-MG que tinha a admiração do então presidente da República Emílio Garrastazu Médici. Questionado se ele sabia que Dadá era o favorito do general, Saldanha respondeu: “Eu não escolho o ministério do presidente e ele não escala meu time”. Vale lembrar também que Médici já se sentia ofendido por conta da recusa de João Saldanha em alterar a programação de treinos para que a delegação pudesse ir a um banquete no palácio presidencial. Fora isso, a relação com a imprensa, que já estava bastante desgastada, piorou ainda mais quando a Seleção Brasileira empatou em 1 a 1 com o time do Bangu num jogo-treino realizado em Moça Bonita, no dia 14 de março de 1970. Saldanha deixaria o comando da Seleção Brasileira poucos dias depois após uma reunião na sede da antiga Confederação Brasileira de Desportos convocada pelo então presidente da entidade João Havelange. E como o “João sem medo” não era sorvete pra ser dissolvido…

O vídeo acima é um trecho da entrevista concedida ao programa “Roda Viva” da TV Cultura no dia 25 de maio de 1987, onde João Saldanha negou ter afirmado que Pelé tinha problemas físicos, as brigas com o elenco e cita as rusgas com o então presidente Médici como o motivo da sua saída do comando do escrete canarinho. É difícil saber até onde o temperamento difícil de João Saldanha contribuiu para sua saída. Mas certo é que seu posicionamento político foi determinante nesse processo, visto que o “João sem medo” colocou a boca no mundo após o assassinato de seu amigo de longa data Carlos Marighela em novembro de 1969. Saldanha viaja ao exterior e concede entrevistas a vários jornais da Europa e da América Latina denunciando a barbárie da ditadura militar. Já sabendo que sairia, João Saldanha aceitou um emprego na Rádio Globo e a CBD correu atrás de um substituto. Após as recusas de Dino Sani e Otto Glória, Zagallo, ponta-esquerda campeão em 1958 e 1962, foi o escolhido para assumir o cargo de técnico da Seleção Brasileira.

A “corneta” nos meses que antecediam a Copa do Mundo de 1970 era forte, tal como mostra o depoimento de José Maria Marín (ex-presidente da CBF e então vereador da cidade de São Paulo) concedido em abril de 1970 no vídeo acima. Zagallo, no entanto, sabia que a base da Seleção Brasileira já estava mantida e que os jogadores já tinham bastante entrosamento. O “Velho Lobo” também teve inteligência para saber ouvir os mais experientes. Tanto que Gérson, Carlos Alberto e Pelé formavam uma espécie de “subcomitê” de veteranos (os “cobras”, como ficariam conhecidos posteriormente) e faziam sugestões ao técnico na escalação. Essa influência teria ficado mais forte após uma vitória por 3 a 1 sobre a Seleção Mineira bem pouco convincente no dia 19 de abril de 1970 (ponto que teria motivado a “cornetada” de José Maria Marín). Zagallo trouxe Rivellino para o elenco, reafirmou a importância de Tostão no time titular e utilizou os jogos restantes para encaixar Pelé, Gérson, Jairzinho e companhia dentro de seu esquema tático da maneira mais equilibrada possível.

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A Seleção Brasileira que venceu a Seleção Mineira em 19 de abril de 1970 tinha Paulo Cézar Caju voltando pela esquerda, Jairzinho, Dario e Pelé formando o ataque e Clodoaldo dando suporte defensivo a Gérson. A equipe que venceria a Copa do Mundo seguiria essa mesma linha com algumas mudanças pontuais e certeiras.

Além da vitória sobre a Seleção Mineira, o Brasil faria mais seis partidas amistosas antes do embarque para o México (duas contra o Chile, uma contra a Áustria, uma com o Paraguai e uma contra a Seleção Amazonense). E apesar de ter escalado Dadá Maravilha no amistoso contra o selecionado das Minas Gerais, Zagallo não o utilizou em nenhuma partida da Copa do Mundo apesar de ter convocado o atacante para a competição (fato que muitos enxergam como uma “média” com o governo federal e os militares). Fato é que muito se discute ainda nos dias de hoje (50 anos depois do tricampeonato mundial) sobre o papel de cada um na formação daquele que viria a ser conhecido como o maior time de todos os tempos. É possível dizer que João Saldanha foi importante na formação da base da equipe e que Zagallo foi determinante na escolha do esquema tático, na escalação de Rivellino no meio-campo da Seleção Brasileira e por ter ouvido os jogadores mais experientes. De qualquer maneira, ambos foram fundamentais, cada um a seu jeito.

Apesar das vitórias e dos bons resultados, a Seleção Brasileira chegaria ao México cercada de desconfiança de torcedores e imprensa. Tanto que outras equipes eram consideradas as favoritas ao título da Copa do Mundo. Mas isso é papo para a terceira parte do nosso especial sobre os 50 anos da conquista do Tricampeonato Mundial.

Relembre a primeira parte do especial 50 anos do Tri:

50 anos do Tri (Parte I): Toda história tem um começo

FONTES DE PESQUISA:

Site oficial da CBF
RSSSF Brasil
Canal do Roda Viva no YouTube
Estão querendo apagar a memória de João Saldanha – Ludopédio
A Pirâmide Invertida, de Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Escola Brasileira de Futebol, de Paulo Vinícius Coelho (Editora Objetiva)

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