As lições que ficam para Flamengo e Fluminense após a decisão do Campeonato Carioca

Luiz Ferreira destaca as estratégias de Jorge Jesus e Odair Hellmann no jogo decisivo do Cariocão 2020 na coluna PAPO TÁTICO; Fluminense manteve a forte marcação no meio-campo, mas Flamengo soube usar as armas que tinha e venceu a partida com gol de Vitinho nos acréscimos da partida

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Marcelo Cortes / Clube de Regatas do Flamengo

O Campeonato Carioca de 2020 nos trouxe todos os tipos de lições e reflexões. Na prática, é como se o outrora mais charmoso torneio estadual do país tivesse se transformado no mais perfeito retrato da nossa sociedade por conta dos acontecimentos das últimas semanas. Dentro de campo, o Flamengo (como se esperava, mas jogando bem abaixo do que eu e você já vimos) conquistou o seu quarto título no ano ao bater o Fluminense por 1 a 0 com gol solitário de Vitinho num Maracanã vazio por conta da pandemia de COVID-19. Se a equipe de Jorge Jesus deixou a desejar (mais uma vez), os comandados de Odair Hellmann bateram de frente com um adversário superior tecnicamente, elaboraram uma estratégia eficiente a ponto de criar chances reais de gol e ainda encontraram meios para frear o ímpeto do rival. Essa é a grande lição dessa final de Campeonato Carioca.

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É preciso dizer que o Flamengo teve alguns lampejos do time que amassou os adversários no segundo semestre do ano passado e início de 2020. Mas nada além disso. Jorge Jesus mandou a campo o que tinha de melhor à sua disposição (incluindo os retornos de Léo Pereira, Gérson e Éverton Ribeiro ao time titular). No entanto, seu 4-1-3-2 batia e voltava na muralha posicionada por Odair Hellmann à frente da área tricolor. O Fluminense repetia a forte marcação na sua intermediária, fechava linhas de passe e até fazia pequenas perseguições individuais para tentar roubar a bola e iniciar os contra-ataques quase sempre com Nenê fazendo seus lançamentos para os velozes Marcos Paulo e Evanílson. O Flamengo só encontrava espaço quando Gérson (o melhor em campo) encontrava espaço e se apresentava para organizar as jogadas. Mas nada além disso.

A marcação implacável do Fluminense (organizado no 4-3-3/4-1-4-1 usual de Odair Hellmann) foi o principal obstáculo do Flamengo nessa decisão de Campeonato Carioca. O time comandado por Jorge Jesus tinha a posse da bola, mas encontrava enormes dificuldades para chegar na área tricolor. Foto: Reprodução / FLA TV

No entanto, ao contrário da final da Taça Rio (quando o Fluminense encontrou grande facilidade para impôr seu ritmo), o Flamengo contava com uma mudança tática. Ao invés de se posicionar entre os zagueiros como costuma fazer, Willian Arão jogou um pouco mais próximo de Gérson e ainda arriscou algumas subidas ao ataque. Enquanto teve fôlego, Filipe Luís foi o jogador que se posicionou mais próximo de Léo Pereira e Rodrigo Caio para organizar a saída de bola. Com Pedro jogando como referência e prendendo pelo menos dois defensores do Fluminense, o objetivo de Jorge Jesus era simples: povoar mais o meio-campo e criar ainda mais opções de passe na intermediária ofensiva. O grande problema esteve na já mencionada falta de intensidade nas transições (mencionadas mais de uma vez por este que escreve) e nas péssimas atuações de Bruno Henrique e Arrascaeta.

 

Filipe Luís recuava e Willian Arão se aproximava de Gérson no meio-campo. Jorge Jesus tentou criar mais opções de jogo para o Flamengo, mas a falta de intensidade nas transições e a ótima marcação do Fluminense foram os principais obstáculos do Mister nessa decisão de Campeonato Carioca. Foto: Reprodução / FLA TV

A segunda etapa acabou mostrando como o retorno (apressado) do futebol no Rio de Janeiro foi prejudicial para ambas as equipes. Gilberto e Filipe Luís deixaram o jogo por conta de lesões musculares. Rafinha (que já tinha ido para o sacrifício) também não aguentou. Flamengo e Fluminense sentiram demais o desgaste físico, fato esse que deixou a partida (que já estava truncada) ainda mais feia de se ver. Há quem diga que Odair Hellmann se precipitou ao sacar Dodi e Yago Felipe (que faziam mais uma boa partida) para as entradas de Felipe Cardoso e Caio Paulista, ambos homens de frente. Com Nenê longe da área e Ganso no lugar de Evanílson, o Tricolor das Laranjeiras perdeu o ímpeto ofensivo e ainda abriu espaços na frente da sua defesa. Não por acaso, o gol do título saiu depois que Vitinho dominou na intermediária e avançou sem ser incomodado.

A partida (apesar de muito ruim) deixou lições preciosas para as duas equipes. Se o Flamengo entendeu que precisa se reinventar a todo momento para permanecer no topo, o Fluminense mostrou que tem condições de jogar em alto nível. Não seria surpresa nenhuma para este que escreve se os comandados de Odair Hellmann fizerem boa campanha no Campeonato Brasileiro. Parte do sucesso vem de entender as suas limitações. E foi exatamente o que o Tricolor das Laranjeiras fez. Entendeu que não poderia encarar o Fla de peito aberto, organizou sua equipe de acordo com seu adversário, fez seu jogo e criou muitos problemas para seu adversário. É possível dizer que, pelo que eu e você vimos nos últimos meses, Odair Hellmann foi o treinador que melhor conseguiu compreender a dinâmica do Flamengo de Jorge Jesus. Ele e Jorge Sampaoli. Sem exagero de nenhuma parte.

A comemoração do Flamengo no Maracanã vazio e tomado apenas pelos gritos dos dirigentes e gritos de torcida vindos das caixas de som acabou se transformando no retrato fiel do que o Campeonato Carioca se transformou. Se já não era unanimidade antes da pandemia, a competição (que já foi a mais charmosa do país) ficou marcada pelas confusões nos bastidores, pelas brigas políticas e pelo retorno forçado. É preciso repensar muita coisa.

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