Desconcentração, falta de intensidade e soberba: os problemas do Flamengo na final da Taça Rio

Luiz Ferreira explica na coluna PAPO TÁTICO o que prejudicou o time comandado por Jorge Jesus na partida contra o Fluminense; Flamengo terá que aprender com os erros o mais rápido possível se quiser conquistar o Campeonato Carioca

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Merçon / Fluminense FC

É bastante comum ouvir que derrotas ensinam muito mais do que vitórias e conquistas. Por mais doídos que sejam, o insucesso pode sim significar um recomeço desde que o derrotado saiba como entender os motivos que o levaram ao fracasso numa partida ou numa competição. Essa é a grande e mais urgente missão do Flamengo. Não somente pela derrota nos pênaltis para um Fluminense aguerrido e organizado na decisão da Taça Rio, mas pela maneira como os comandados de Jorge Jesus aceitaram a marcação adversária, abusarem da lentidão nas transições e por todos os fatos protagonizados pela diretoria rubro-negra momentos antes da partida desta quarta-feira (8). Por mais que ainda tenha gente que defenda que bastidores e campo não se misturam, a soberba dos dirigentes flamenguistas respingou sim em Gabigol, Bruno Henrique, Léo Pereira e companhia. As lições da derrota estão aí.

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Antes de mais nada, é preciso deixar bem claro que o Fluminense fez uma partida quase perfeita no âmbito tático. Odair Hellmann repetiu o 4-1-4-1 do empate sem gols contra o Botafogo, mas apostou numa formação com jogadores mais leves no setor ofensivo. Fechou a linha de quatro defensores com três volantes (Hudson, Yago Felipe e Dodi), recuou Marcos Paulo e Nenê para vigiar Rafinha e Filipe Luís e ainda apostou em Evanílson (substituto de Fred) para bloquear o passe para Willian Arão e Gérson no meio-campo. Equipe encaixada na marcação, saída de bola bloqueada e atletas ligados em cada bola. Sempre aproveitando a absurda e até agora inexplicável lentidão do Flamengo. Fazia muito tempo que não víamos o escrete de Jorge Jesus errar tanto. Mesmo assim, os méritos são da equipe do Fluminense que soube bem como explorar os pontos fracos da equipe do Mister.

O Flamengo abusou da lentidão na saída de bola e nos passes no meio-campo diante de um Fluminense bem fechado e bem organizado. Faltava intensidade e atenção aos comandados de Jorge Jesus para vencer o eficiente bloqueio tricolor. Foto: Reprodução / FluTV

O gol marcado por Gilberto e as chances criadas mostravam que o Fluminense estava melhor na partida e dominava as ações no meio-campo. Enquanto isso, os torcedores rubro-negros se perguntavam onde estava a intensidade, a velocidade e a qualidade nos passes do time comandado por Jorge Jesus. O Flamengo virava o jogo, esbarrava no “ônibus” que Odair Hellmann estacionou na frente da área tricolor (com até seis jogadores vigiando o ataque rubro-negro) e começava tudo de novo. A impressão que ficou é que o Mister tentou repetir a estratégia utilizada contra o River Plate e o Al-Hilal no ano passado: cansar o adversário e se impor na base da preparação física. Mas para vencer uma equipe ágil e qualificada como é o Flamengo, é preciso ter inteligência e concentração. Coisas que sobraram no Fluminense nesta quarta-feira (8), no Maracanã ainda vazio por conta da pandemia.

O Flamengo tinha a posse da bola, trocava passes, mas esbarrava no “ônibus” que Odair Hellmann estacionou na frente da área do Fluminense. Faltava intensidade e velocidade nas jogadas e transições. Mas, acima de tudo, faltou concentração. Foto: Reprodução / FluTV

O Flamengo melhorou a partir do momento em que Jorge Jesus começou a fazer substituições na sua equipe e acertou em cheio com a entrada de Pedro no lugar de um apagado Arrascaeta. O camisa 21 foi jogar como referência na área e prendeu os dois zagueiros tricolores, fato que deu mais liberdade para os demais atacantes do Flamengo jogarem. Tanto que o único gol rubro-negro durante os noventa minutos nasceu de passe de Michael para Filipe Luís às costas de Gilberto no lado esquerdo. O camisa 16 colocou a bola na cabeça de Pedro que não desperdiçou. No entanto, apesar da clara melhora dos comandados de Jorge Jesus na partida, o time ainda pecava demais pela falta de concentração. Na decisão por pênaltis, a estrela de Muriel brilhou mais forte e o título da Taça Rio mais comentada e disputada das últimas décadas foi para as Laranjeiras. E com toda a justiça, diga-se de passagem.

A entrada de Pedro melhorou a produção ofensiva do Flamengo. Tanto que os demais atacantes encontraram muito mais espaço para chegar na área do Fluminense após as mexidas de Jorge Jesus. O time, no entanto, pagou o preço pela falta de concentração na disputa de pênaltis. Foto: Reprodução / FluTV

O Flamengo ainda é o favorito ao título do Campeonato Carioca, mas corre o sério risco de “dar com os burros n’água” mais uma vez se a soberba da diretoria rubro-negra respingar novamente nos jogadores e na comissão técnica. É verdade que o foco aqui é a análise tática e em como as escolhas dos dois treinadores influenciam nas suas equipes dentro de campo. Por outro lado, toda a confusão que antecedeu a decisão da Taça Rio (por conta das escolhas infelizes de Rodolfo Landim e companhia nas questões referentes à transmissão da final) mexeu muito com Flamengo e Fluminense. O primeiro sentiu os respingos da soberba e deixou a impressão de uma certa indolência e preguiça durante boa parte do jogo. E o segundo utilizou isso como incentivo para que sues jogadores se superassem e tivessem a melhor atuação coletiva desde a retomada do futebol aqui no Rio de Janeiro.

O Fluminense mereceu o título da Taça Rio. Afinal, se defender e reconhecer suas próprias limitações diante de um time superior tecnicamente também faz parte da estratégia. A grande questão aqui é saber se o Flamengo vai aprender com as lições de uma das suas atuações mais fracas dos últimos meses e se a sua diretoria vai “baixar um pouco a bolinha” depois das patacoadas cometidas nos últimos dias.

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