Entendendo o jogo de posição (Parte III) – O auge da filosofia com Pep Guardiola e a tal da pirâmide invertida

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca a forma mais pura e vencedora do “jogo de posição” com o Barcelona de Messi, Iniesta e Xavi; terceira parte da série de matérias especiais traz um pouco dos preceitos de Pep Guardiola

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / UEFA Champions League

Já vimos que o hoje bem conhecido “jogo de posição” tem suas origens no chamado “passing game”, estilo de jogo introduzido pelos escoceses nos clubes da Inglaterra ainda no século XIX. Jack Reynolds e Vic Buckingham levaram suas ideias de posse de bola para a Holanda e Rinus Michels transformou todas aquelas ideias adquiridas no Ajax (e em outros lugares) no hoje cultuado “Futebol Total” em meados da década de 1970. Cruyff reoxigenou as ideias no “Dream Team” campeão europeu em 1991/92. E Loius Van Gaal ajudaria a organizar todas as ideias no final dos anos 1990. No entanto, já no século XXI, Pep Guardiola seria o responsável por transformar o “jogo de posição” numa das filosofias de jogo mais vencedoras de todos os tempos com o histórico Barcelona de Messi, Xavi e Iniesta e ainda teria a ousadia de “inverter a pirâmide” e aplicar conceitos dos primórdios do futebol.

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Pep Guardiola assumiu o comando do Barcelona em 2008, substituindo Frank Rijkaard, jogador multicampeão pelo Milan com Arrigo Sacchi. Vale lembrar que o holandês também foi treinado por Rinus Michels na conquista da Euocopa de 1988 e por Van Gaal no histórico Ajax de 1995. Era, portanto, um adepto das ideias do “jogo de posição” e de outros conceitos de grandes técnicos. A filosofia tema desta série de artigos, no entanto, só encontraria seu auge com Guardiola a partir da temporada seguinte, com a conquista da Liga dos Campeões da UEFA em cima do poderoso e atual campeão Manchester United de Alex Ferguson, Cristiano Ronaldo e Wayne Rooney. O jeito de jogar daquele Barcelona encantaria muita gente e as pesquisas sobre a tal estratégia aplicada por Guardiola se transformaram no principal assunto das mesas de debate na imprensa esportiva.

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A explicação dada por Thierry Henry sobre como Pep Guardiola pensava aquele Barcelona talvez seja a mais didática que você pode encontrar por aí. Aliás, vale lembrar mais uma vez que (assim como lembrou Fergus Suter na sempre recomendada série “The English Game”) o futebol é simples. E o “jogo de posição” é apenas mais uma estratégia para atingir o mesmo objetivo que todos os treinadores do mundo possuem: vencer suas partidas. E foi o que Pep Guardiola fez. Bebeu na fonte de alguns dos seus vários mentores, utilizou os conceitos que aprendeu ao longo de mais quinze anos como jogador e implementou seus conceitos naquele Barcelona. Como treinador do time B, conquistou a Tercera División em 2007 e assumiu a equipe principal em 2008, trazendo consigo jogadores como Sergio Busquets, Pedro Rodríguez e o brasileiro Thiago Alcântara (filho do tetracampeão Mazinho).

A final da Liga dos Campeões da UEFA de 2008/09 veio no bom e velho 4-3-3 defendido por Louis Van Gaal e com um trio ofensivo formado por Messi, Eto’o e um já veterano Henry (o mesmo do vídeo acima). O auge do “jogo de posição” e da filosofia implementada por Pep Guardiola viria dois anos depois com a conquista de mais uma Champions League. O adversário da decisão seria novamente o Manchester United de Alex Ferguson. E a atuação do Barcelona em pleno estádio de Wembley encheu os olhos de muita gente. Havia sim aqueles que não enxergavam nada além de passes para o lado sem sentido. No entanto, o que se desenhava ali era uma verdadeira revolução comandada por Messi, Xavi, Iniesta, Daniel Alves e companhia. A vitória por 3 a 1 na decisão coroou o trabalho de Guardiola no comando de uma das maiores equipes do século XXI com sobras. Quem viu, sabe bem o que foi aquele Barça.

Barcelona vs Manchester United - Football tactics and formations

O Barcelona venceu o Manchester United aplicando com perfeição todos os conceitos de ocupação de espaços, velocidade e valorização da posse de bola propostos por Guardiola. Messi era o “falso nove” do time e contava com uma verdadeira legião de jogadores aparecendo no campo de ataque. Simplesmente histórico.

De acordo com o jornalista inglês Jonathan Wilson (autor do fantástico e altamente recomendável “A Pirâmide Invertida”), a essência da filosofia defendida por Pep Guardiola (e também do “jogo de posição” como um todo) era bastante simples: “Só existe um segredo no mundo do futebol: ou tenho a bola, ou não tenho (…) O Barcelona optou por ter a bola, embora seja legítimo que outros não a queiram. E, quando nós não tivermos a bola, nós temos de recuperá-la porque precisamos dela. (…) Enquanto atacamos, a ideia é sempre manter a posição, sempre estar no lugar em que cada um deve estar. (…) Temos dinamismo e mobilidade, mas as posições devem estar sempre ocupadas por alguém. Assim, se perdermos a bola, será difícil para o adversário contra-atacar. E se atacarmos mantendo a formação, será mais fácil perseguir o homem com a bola quando a perdermos.

Como se percebe, a defesa também era motivo de atenção para Pep. Assim como Van Gaal, o treinador espanhol dizia que sua equipe deveria assumir posições defensivas caso não recuperasse a bola em menos de cinco segundos. A utilização de um centroavante de mobilidade, de um volante criador de jogadas e de um pontas com os “pés invertidos” passou a ser utilizada por quase todas as equipes do mundo sem, no entanto, copiar a intensidade e a velocidade do que era proposto por Guardiola. A própria Seleção Espanhola (comandada por Vicente del Bosque) conquistou a Copa do Mundo de 2010 (marcando apenas oito gols em sete partidas) e a Eurocopa de 2012 utilizando conceitos daquele histórico Barcelona, mas sofrendo certas críticas por conta das atuações tediosas da sua equipe que aplicavam um jogo bem menos intenso daquele sugerido por Guardiola no escrete blaugrana.

Espanha vs Italia - Football tactics and formations

A Espanha conquistou a Copa do Mundo de 2010 e a Eurocopa de 2012 baseando seu jogo na filosofia do Barcelona de Guardiola. Tanto que Vicente del Bosque apostou em Fàbregas como “falso nove” para abrir espaços para as entradas dos pontas Iniesta e David Silva. As crítica chegaram apesar dos títulos.

O estilo espanhol de troca de passes e valorização de posse de bola acabaria ganhando a alcunha de “tiki-taka”, termo que Pep Guardiola abominava. O jornalista Marti Peranau (autor do excelente e igualmente recomendável “Guardiola Confidencial”) revelou que o espanhol tentou explicar o que pretendia várias vezes: “Em todos os esportes coletivos, o segredo é sobrecarregar tanto um lado do gramado que o oponente deve forçar sua própria defesa a jogar. Você sobrecarrega de um lado e os atrai tanto que eles deixam o outro lado fraco. E quando nós fizermos tudo isso, nós atacamos e marcamos do outro lado. É por isso que você tem que passar a bola, mas apenas se você estiver fazendo isso com uma intenção clara. É apenas para sobrecarregar o oponente, para atraí-los e então acertá-los com o golpe. É assim que nosso jogo deve ser. Nada a ver com tiki-taka.

Depois quatorze títulos conquistados e 412 gols marcados em quatro temporadas de Barcelona, Pep Guardiola tirou assinou com o Bayern de Munique após um ano sabático. A primeira temporada com os bávaros também foi cercada de críticas pelas tentativas de impôr seu estilo de jogo no futebol alemão. E diante das eliminações nas semifinais da Liga dos Campeões para a Internazionale de José Mourinho (na edição de 2009/10), para o Chelsea de Roberto Di Matteo (em 2011/12) e para o Real Madrid de Carlo Ancelloti (em 2013/14), Pep percebeu que precisava adaptar seu “jogo de posição” ao futebol cada vez mais físico e intenso que surgia. Não foi por acaso que, mais precisamente em 2016, o mundo pôde acompanhar uma mudança significativa no seu Bayern de Munique. Algo que já se desenhava com Cruyff e Van Gaal. Quase um retorno às origens do nosso futebol.

O Bayern aplicou cinco a zero no Werder Bremen em jogo válido pela Bundesliga de 2015/16, mas o que impressionou mesmo foi a disposição dos jogadores em campo. Com o avanço de todo o time bávaro para o ataque, Guardiola aplicou conceitos de Cruyff e Van Gaal para resgatar o tradicional 2-3-5 dos primórdios do nosso futebol. Foto: Reprodução / ESPN Brasil.

O Barcelona já havia feito isso algumas vezes em 2011, mas foi a partir do Bayern que o mundo voltou a falar da “pirâmide invertida”. Tudo começa com um 4-3-3 básico. Os laterais passam a jogar mais por dentro se alinhando ao volante passador (o antigo “centro-médio”), os meio-campistas interiores avançam até a intermediária ofensiva e os pontas abrem o campo para esgarçar as defesas adversárias. No comando de ataque, um centroavante que sabia jogar como referência e também abrir espaços no ataque (tal como Lewandowski faz muito bem no próprio Bayern). O 4-3-3 inicial se transformava num 2-3-5 bastante útil para encarar a outra moda que surgia na Europa: as linhas de cinco na defesa, quase uma inversão do tradicional esquema tático. Foi assim que Pep Guardiola conseguiu vários títulos com o Barça, com o Bayern e também com o Manchester City, seu atual clube.

O técnico espanhol seguiu fazendo várias e várias adaptações ao seu “jogo de posição” para encarar equipes mais fortes, mas velozes e mais intensas do que as que vinha enfrentando. Uma delas (e talvez a mais notável) seja o posicionamento de David Silva, Kevin De Bruyne e Bernardo Silva (todos jogadores mais ofensivo) como “interiores” no seu Manchester City bicampeão inglês (2017/18 e 2018/19), hegemonia essa quebrada apenas pelo impressionante Liverpool de Jürgen Klopp na atual temporada. De qualquer maneira, Guardiola segue incansável para deixar os Citzens ainda mais imprevisíveis e “rebeldes” bem ao gosto de Cruyff. Um exemplo disso aconteceu no jogo de volta das oitavas de final da última Liga dos Campeões. Com Foden jogando como “falso nove” e abrindo espaços para as chegadas de Gabriel Jesus e Sterling em diagonal e Gündogan e De Bruyne por dentro.

Gabriel Jesus e Sterling abertos, Foden como referência móvel no comando de ataque e Gündogan e De Bruyne como “interiores” e pisando na área a todo momento. Guardiola segue fazendo adaptações no seu estilo de jogo para acompanhar as mudanças do futebol. Intensidade, conjunto e força. Foto: Reprodução / YouTube / Manchester City

Fã confesso de Marcelo “El Loco” Bielsa e altamente influenciado por Johan Cruyff (seu treinador por seis anos), Pep Guardiola é um fanático por controle do jogo. E todas as suas ideias giram em torno desse conceito. É preciso ter o controle das ações e a posse da bola para atacar e defender com a máxima eficiência. E quanto mais rápido, melhor. É possível também enxergar conceitos defendidos por Loius Van Gaal e muita coisa da filosofia defendida por Juanma Lillo (técnico de Guardiola na sua passagem pelo Dorados, do México, e seu auxiliar no Manchester City). Foi com Lillo, inclusive, que Guardiola aprendeu toda a sistematização dos seus treinos e vários dos conceitos aplicados nas suas equipes. E talvez o maior deles seja o fato de que nada pode ser descontextualizado. Futebol é, antes de tudo, sobre relações interpessoais. Sobre a vida e como você a encara.

Guardiola é um técnico tão intenso quanto suas equipes. E a aplicação das suas ideias e do seu “jogo de posição” ainda são copiadas e reproduzidas em todo o mundo com as devidas adaptações a cada campeonato e a cada elenco. As próximas reportagens desta série especial vão trazer algumas das aplicações práticas dessa filosofia no Flamengo de Domènec Torrent e no Atlético-MG de Jorge Sampaoli. Será o momento de colocar tudo em seu devido lugar.

FONTES DE PESQUISA:

BLOG PAINEL TÁTICO: Cruyff, Michels e van Gaal: as origens do Jogo de Posição, filosofia que une Sampaoli e Torrent
BLOG PAINEL TÁTICO: Como pensa Juanma Lillo, guru e agora auxiliar de Pep Guardiola no City
A Pirâmide Invertida, por Jonathan Wilson (Editora Grande Área)
Guardiola Confidencial: Um ano dentro do Bayern De Munique acompanhando de perto o técnico que mudou o futebol para sempre, por Marti Peranau (Editora Grande Área)

LEIA MAIS:

Entendendo o jogo de posição (PARTE I) – Origens e conceitos

Entendendo o jogo de posição (PARTE II) – Johan Cruyff, Louis van Gaal e a revolução do Barcelona