Precisamos reconhecer que Odair Hellmann faz um trabalho notável no time do Fluminense; entenda

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a virada do Tricolor das Laranjeiras sobre o Internacional neste domingo (22)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Mailson Santana / Fluminense FC

O torcedor do Fluminense mais exigente pode até torcer o nariz para o título dessa humilde análise por conta das tradições do clube e do seu desejo de ver o time do coração disputando títulos a nível nacional e internacional. No entanto, a posição do Tricolor das Laranjeiras na tabela do Brasileirão praticamente nos obriga a rever esse posicionamento. Ainda mais com a vitória de virada sobre um esfacelado Internacional fora de casa com atuação consistente e mostrando um poder de reação surpreendente. É exatamente por causa desse e outros motivos (que vamos destacar aqui neste espaço) que precisamos reconhecer que Odair Hellmann faz sim um trabalho notável à frente do Fluminense. Mesmo com todas as dificuldades nos bastidores e com o elenco que tem à disposição. Resumidamente, o treinador vem fazendo o popular “omelete sem ovos” na equipe tricolor.

O trabalho de Odair Hellmann fica ainda mais evidente quando vemos o primeiro tempo da equipe tricolor no Beira-Rio. O Fluminense sofreu muito para encaixar seu 4-2-3-1 (que tinha Nenê por dentro, Lucca e Wellington Silva pelos lados e Marcos Paulo como referência móvel no ataque) diante de um adversário que colocou muito volume de jogo nos primeiros 45 minutos. Ainda que desorganizado e deixando espaços demais na sua defesa, o Internacional tomava a iniciativa dentro de casa com muita movimentação no campo ofensivo e foi logo abrindo o placar com Mauricio aproveitando bobeira de Luccas Claro na frente da área e rebote de Muriel. Edenílson chegava com frequência ao ataque e “carimbava” todas as jogadas. Ao mesmo tempo, o Fluminense tentava encaixar o contra-ataque, mas hesitava demais na hora de acelerar. Faltava confiança e consistência no time de Odair Hellmann.

Fluminense vs Internacional - Football tactics and formations

O Internacional começou melhor a partida no Beira-Rio e buscou ocupar o campo de ataque com Thiago Galhardo, Mauricio e Caio se movimentando bastante na frente da área tricolor. O Fluminense, por sua vez, tinha espaços à sua frente, mas hesitava demais na hora de encaixar as jogadas de ataque.

Os números do SofaScore (ver no tweet abaixo ou clicando aqui) também mostram essa superioridade colorada nos primeiros 45 minutos. Primeiro por conta da péssima recomposição defensiva que o time das Laranjeiras fazia e depois pelos oito desfalques que Odair Hellmann teve para montar o Fluminense. Mesmo com mais posse de bola no primeiro tempo, a equipe carioca não conseguia ser agressivo no ataque. O início da segunda etapa dava a impressão de que as coisas iriam piorar com a saída de Yago Felipe por lesão logo aos dois minutos, mas o escrete tricolor seguiu tentando fazer seu jogo até que Lucca fez belo gol olímpico aos minutos com uma certa ajuda do goleiro Marcelo Lomba. E foi a partir desse momento que o panorama mudou completamente. O Flu se fechava na defesa e aproveitava os espaços deixados por um Internacional que se lançou ao ataque totalmente desorganizado.

Leomir (que substituía Abel Braga à beira do gramado) modificou o desenho tático da sua equipe com as entradas de Marcos Guilherme e Johnny. Mas a grande sacada foi de Odair Hellmann com mexidas pontuais: Caio Paulista, Luiz Henrique e Felipe Cardoso nos lugares de Nenê, Lucca e Wellington Silva respectivamente. Com o Fluminense organizado num 4-4-2 mais visível (e com os “wingers” entrando em diagonal às costas de Zé Gabriel e Victor Cuesta), o gol acabou saindo justamente numa das jogadas de contra-ataque realizadas pela equipe. Felipe Cardoso puxou a marcação, Marcos Paulo recebeu na esquerda viu Caio Paulista se lançando no espaço vazio. O camisa 70 chutou na saída de Marcelo Lomba e fez o gol da vitória. Tudo em cima dos erros de posicionamento de Uendel e Victor Cuesta na defesa colorada. Méritos de Odair Hellmann nas mexidas e na estratégia.

Internacional vs Fluminense - Football tactics and formations

Caio Paulista e Marcos Paulo aproveitaram bem o espaço entre os laterais e zagueiros do Internacional para criar várias situações de perigo no segundo tempo. Já o escrete colorado se lançava ao ataque de maneira desorganizada e só fez abrir ainda mais a sua fragilizada defesa. Resultado mais do que justo no Beira-Rio.

O Fluminense é hoje um time que mostra bastante paciência na hora de atacar e encontrar espaços nas defesas adversárias. Bem diferente do Internacional. Por mais que a saída de Eduardo Coudet tenha sido repentina e inesperada (isso assumindo o discurso da diretoria colorada como verdadeiro), é preciso dizer que a equipe se desmanchou completamente em aspectos táticos e até mesmo técnicos. Ainda que o Inter tenha feito dois gols (bem) anulados pela arbitragem. A organização que faltou nos comandados de Leomir sobrou no time de Odair Hellmann. É exatamente por isso que precisamos reconhecer que o seu trabalho à frente do Tricolor das Laranjeiras merece sim ser exaltado por conta de todo o contexto: problemas financeiros, inúmeros desfalques por lesões, COVID-19 e jogadores desgastados pela idade ou pela maratona de jogos. O feito do “papito” é enorme.

É claro que ainda há muito campeonato pela frente. Mas é possível dizer que nem mesmo o mais fanático dos torcedores tricolores poderiam imaginar que o Fluminense fosse estar disputando vaga na Libertadores hoje. E isso a quatro pontos dos líderes do Brasileirão. O trabalho de Odair Hellmann é excelente. E não reconhecer isso é fechar os olhos para uma campanha surpreendente e consistente.

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