Seleção Brasileira fecha a temporada de 2020 mostrando consistência, bom jogo coletivo e segurança

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a quarta vitória dos comandados de Tite nas Eliminatórias da Copa do Mundo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

É bem verdade que o torcedor é exigente e ainda tem o desejo de ver a Seleção Brasileira levantando a sua sexta Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, a “corneta” dirigida para Tite após a eliminação do Mundial da Rússia e a campanha irregular na Copa América de 2019 só aumentou nesses últimos meses com a convocação de jogadores dos clubes brasileiros no meio de competições importantes. O que ninguém pode negar é que o escrete canarinho vem mostrando que o trabalho do seu treinador é sim bastante consistente. Mesmo que o futebol apresentado não encha os olhos dos mais puristas. Prova disso é a atuação diante do sempre tradicional Uruguai na noite desta terça-feira (17), em Montevidéu. A Seleção Brasileira soube frear a pressão do seu adversário, mostrou bom jogo coletivo mais uma vez e (o principal) conseguiu aproveitar as chances que teve na partida.

É preciso dizer que a ausência de Neymar é sempre preocupante na Seleção Brasileira. Não somente pela qualidade do nosso melhor jogador, mas pela maneira como Tite encaixou sua equipe em torno dele. Sem o atacante do Paris Saint-Germain (e também sem Allan, vetado por conta de dores musculares), o comandante do escrete canarinho mostrou variações táticas interessantes a partir do seu 4-1-4-1 costumeiro. A primeira delas envolveu Éverton Ribeiro. O meio-campo do Flamengo foi visto jogando um pouco mais por dentro (junto de Arthur e Douglas Luiz). Mais à frente, Firmino tinha a companhia de Gabriel Jesus e Richarlison entrando em diagonal para aproveitar a movimentação do camisa 20. Na defesa, um 4-4-2 em duas linhas para espelhar a formação do seu adversário e tentar frear o ímpeto ofensivo de Cavani, Darwin Núñez e companhia.

Éverton Ribeiro começou jogando mais por dentro no 4-2-3-1 de Tite. Richarlison e Gabriel Jesus se lançavam ao ataque e fechavam os lados do campo nos momentos defensivos. Tudo para evitar que a bola chegasse em Cavani e no promissor Darwin Núñez. Foto: Reprodução / Esporte Interativo

Percebendo que o Uruguai levava mais perigo no início de partida, Tite resolveu mexer na disposição tática da sua equipe: trouxe Éverton Ribeiro para o lado direito (setor onde se sente mais confortável), deixou Firmino um pouco mais por dentro e trouxe Gabriel Jesus para o comando de ataque. Em números, quase um 4-2-4 que ainda contava com as chegadas dos laterais Renal Lodi e Danilo (o primeiro abrindo o jogo pela esquerda e o segundo vindo mais por dentro) e dos volantes Arthur e Douglas Luiz (este último um pouco mais recuado). Não foi por acaso que o primeiro gol da Seleção Brasileira saiu de jogada iniciada pelo lado direito com Gabriel Jesus ajeitando a bola para o camisa 8 chutar e contar com o desvio na zaga uruguaia para vencer o goleiro Campaña. O jogo coletivo do escrete canarinho dava bons resultados no Estádio Centenário.

Tite trouxe Éverton Ribeiro para a direita e reorganizou a Seleção Brasileira numa espécie de 4-2-4 para espelhar a formação do Uruguai e fechar mais os espaços. Destaque para a presença de até sete jogadores do escrete canarinho participando das jogadas de ataque. Foto: Reprodução / Esporte Interativo

O gol de Richarlison (na jogada de bola parada sempre muito bem treinada por Tite e que sempre descomplica as coisas) trouxe ainda mais tranquilidade para a Seleção Brasileira em Montevidéu. Ainda mais com o Uruguai de Óscar Tabárez criando pouco e apelando para os cruzamentos na área brasileira (onde Marquinhos e Thiago Silva demoraram mais para se entenderem na marcação a Cavani e Darwin Núñez). A segunda etapa acabaria marcada por um jogo mais cadenciado e sem tantas chances de gol como nos primeiros 45 minutos, mas ainda com a Celeste Olímpica explorando bem os lados do campo com De la Cruz e Nández e as subidas dos laterais Cáceres e Oliveros. A expulsão de Cavani, no entanto, acabou com qualquer chance de reação do escrete uruguaio. E a Seleção Brasileira apenas “cozinhou” o jogo até o apito final para comemorar mais uma vitória.

Não foi realmente uma exibição de gala dos comandados de Tite e o futebol apresentado pela sua equipe cadencia demais o jogo em determinados momentos. Mas é preciso reconhecer que o trabalho do treinador da Seleção Brasileira é extremamente consistente. Há uma ideia clara (que pode não ser a sua preferida) que funciona e que vem dando resultados dentro de campo. Principalmente quando conseguiu encaixar Renan Lodi, Neymar, Douglas Luiz e Richarlison no seu ataque posicional. É bem verdade que a sua equipe tende a ficar estática e que a defesa ainda comete vacilos preocupantes (principalmente nas bolas aéreas). Por outro lado, a Seleção Brasileira ainda é muito competitiva e mostrou isso nos jogos fora de casa, contra Peru e Uruguai. A quarta vitória consecutiva nas Eliminatórias da Copa do Mundo nasceu dessa ideia de jogo bem clara e bem executada.

Em 59 partidas no comando do escrete canarinho, Tite teve 38 vitórias, 10 empates e apenas quatro derrotas (o que dá 79,5% de aproveitamento), com 112 gols marcados e apenas 19 sofridos. São números excelentes que mostram que a Seleção Brasileira tem sim consistência, qualidade, segurança e uma ideia bem clara de jogo. Por mais que não seja o estilo preferido da maioria dos torcedores, ele dá resultado sim.

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