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Superar bloqueios defensivos ainda é o grande desafio de Tite na Seleção Brasileira

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a fraca atuação do Brasil na vitória sobre a Venezuela

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

É fato que a Seleção Brasileira não fez um bom jogo diante da não mais do que esforçada Venezuela. Dito isto, a análise do jogo nos mostra muito mais do que a simples necessidade de se “colocar dois jogadores abertos” ou de “lentidão no meio-campo”. Esqueça por um momento a tradição das duas seleções no cenário mundial. A atuação do escrete canarinho na vitória por 1 a 0 sobre “La Vinotinto” no Morumbi nada mais é do que o cenário mais comum em partidas dos comandados de Tite. Ou de qualquer outra equipe que carregue consigo a condição de favorita no futebol de alto nível. Superar retrancas e fortes bloqueios defensivos ainda é o grande desafio da Seleção Brasileira. Não é algo novo. Muito pelo contrário. E as dificuldades que o escrete canarinho encontrou na hora de atacar a Venezuela só mostra que muita coisa ainda precisa ser ajustada no time.

O contexto da partida também precisa ser levado em consideração. Tite não pode contar com uma série de jogadores nessa sexta-feira (13) por uma série de fatores. Difícil também não observar que Neymar (talvez a ausência mais sentida da Seleção Brasileira) teria sido muito útil para furar a retranca da Venezuela com seus dribles e arrancadas. O técnico José Peseiro armou “La Vinotinto” num 4-5-1 que tinha Moreno, Rincón e Cásseres fechando os espaços por dentro e vigiando Éverton Ribeiro e Roberto Firmino bem de perto. Mas o grande problema dos comandados de Tite estava na falta de intensidade. O Brasil mostrava boa organização e boa ocupação dos espaços, mas pecava demais na movimentação e nas dinâmicas entre os jogadores. Principalmente no lado esquerdo, onde Renan Lodi e Douglas Luiz não renderam o esperado. Principalmente o camisa 18 da nossa Seleção.

O técnico José Peseiro armou a Venezuela num 4-5-1 que negava espaços a Éverton Ribeiro e Roberto Firmino no meio-campo e que se aproveitou muito da falta de intensidade e movimentação da Seleção Brasileira. Renan Lodi e Gabriel Jesus eram acionados, mas permaneciam isolados na maior parte do tempo. Foto: Reprodução / TV Globo

Sem movimentação e triangulações (guardem bem essa palavrinha mágica), a Seleção Brasileira não passava de um time estático e sem ideias. Ao mesmo tempo, a insistência nas jogadas por dentro isolava Renan Lodi e Gabriel Jesus (os “pontas” do ataque posicional de Tite) e só facilitava a vida da Venezuela. Com isso, Firmino, Éverton Ribeiro (que foi um dos poucos que tentou dar mais mobilidade ao time), Richarlison e Douglas Luiz permaneciam “encaixotados” dentro da marcação do adversário e deixavam Allan, Danilo, Marquinhos e Thiago Silva sem ter com quem iniciar as jogadas de ataque. A bola era passada de pé em pé sem que ninguém tentasse a jogada individual ou tentasse “quebrar as linhas” do escrete venezuelano. O jogo ficava monótono e sem objetividade, fato esse que gerou as mais variadas (e justas) críticas aos comandados de Tite no Morumbi.

A Seleção Brasileira insistia em jogadas por dentro e facilitava demais a vida da Venezuela. Sem movimentação e intensidade nas transições, o jogo ficava monótono e sem qualquer objetividade ainda que o escrete canarinho apresentasse boa organização ofensiva no campo adversário. Foto: Reprodução / TV Globo

Sem mobilidade e sem movimentação, a Seleção Brasileira não criava espaços e não conseguia criar situações de gol. Os números do SofaScore mostram bem esse “domínio estéril” dos comandados de Tite. O Brasil teve 73% de posse de bola em toda a partida no Morumbi, mas só conseguiu finalizar três vezes na direção do gol de Fariñez (num total de 11 finalizações durante todos os noventa e poucos minutos de jogo). Muito pouco para a proposta de jogo do escrete canarinho. Ainda mais contra um adversário que entrou em campo com uma proposta extremamente pragmática, mas que fez bom jogo dentro das suas possibilidades. O que faltava em “La Vinotinto” era o acerto no passe longo para Solteldo e Machís acionarem Rondón no comando de ataque. No entanto, a equipe venezuelana esbarrava na atuação segura de Marquinhos e Thiago Silva, sempre bem posicionados e atentos na cobertura.

Curiosamente, o único gol da Seleção Brasileira saiu num dos únicos momentos em que o time realizou as tão pedidas triangulações pelos lados do campo. E isso num contexto que pedia a entrada de Pedro e Everton Cebolinha para aproveitar os cruzamentos na área e aumentar o volume de jogo pelo lado esquerdo de ataque. Richarlison recebeu a bola e atraiu a marcação de Del Pino Mago pela direita. O camisa 7 passou para Lucas Paquetá que deu o passe de primeira para Éverton Ribeiro avançar para a linha de fundo e cruzar para Renan Lodi. O camisa 6 testou para o meio da área e Firmino apenas escorou para o gol. Foi também um dos únicos momentos de toda a partida em que a Seleção Brasileira aplicou um mínimo de intensidade nas suas transições. Bastou um pouquinho de mobilidade e inteligência para vencer um adversário sem muita qualidade, mas bem postado defensivamente.

Richarlison recebeu no lado direito, passou para Lucas Paquetá que acionou Éverton Ribeiro no lado direito. O gol de Firmino (o único da partida) nasceu de um dos únicos momentos em que os comandados de Tite realizaram triangulações e aplicaram um mínimo de intensidade nas transições. Foto: Reprodução / TV Globo

Vale notar que, ao mesmo tempo em que Del Pino Mago abre o espaço que Éverton Ribeiro ataca, o corintiano Otero não fecha o setor e permite que o camisa 10 receba o passe de Lucas Paquetá. A importância dessas triangulações é tão grande que o problema foi notado pelo zagueiro Marquinhos na entrevista após o jogo no Morumbi: “Temos que saber que contra o Brasil as seleção se fecham muito. Eles colocam pressão no juiz e temos que focar, concentrar. Foi a mesma coisa na Copa América. Precisamos trabalhar mais as triangulações, quebrar linha com mais coragem, tentar mais. Deixar um pouco de lançar muito bola longa. E seguir firme lá atrás“, afirmou o defensor do Paris Saint-Germain. Parece óbvio, mas a falta de mobilidade e criatividade da Seleção Brasileira teve origem nessa falta de triangulações. E isso é o básico para quem quer furar retrancas.

Superar bloqueios defensivos de adversários (em tese) mais fracos ainda é o grande desafio de Tite na Seleção Brasileira. A atuação contra a Venezuela foi fraca e deixou sim a desejar, mas o gol marcado por Firmino mostrou o caminho a seguir e a importância das lições aprendidas na partida desta sexta-feira (13). Contra o Uruguai, no entanto, essa falta de intensidade não poderá acontecer de jeito algum.

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