Atuação das novatas e formação do segundo tempo são os pontos (muito) positivos da goleada da Seleção Feminina sobre o Equador

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação da equipe de Pia Sundhage no amistoso desta sexta-feira (27)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Mariana Sá / CBF

É bem verdade que a Seleção do Equador não ofereceu lá muita resistência para as comandadas de Pia Sundhage no amistoso disputado na NeoQuimica Arena. Mesmo mostrando uma nítida melhora em aspectos técnicos e táticos sob o comando de Emily Lima. Por outro lado, a atuação da Seleção Feminina na partida (principalmente no segundo tempo com a mudança na formação inicial) e a entrada das novatas Duda, Nycole e Valéria mostraram à treinadora sueca que a solução para a resolução dos problemas da sua equipe é muito mais simples do que pode parecer. O escrete canarinho foi intenso, vertical, envolvente e muito eficiente a partir das mudanças promovidas após o intervalo. Principalmente com Debinha jogando com muito mais liberdade no ataque (como uma autêntica “camisa 10”) e mostrando a sua já conhecida habilidade. No geral, foi uma atuação da Seleção Feminina.

Já falamos anteriormente dos planos de Pia Sundhage para deixar sua equipe mais intensa e mais forte nas tramas ofensivas. O que pouca gente entendeu (inclusive este que escreve) foi a escalação inicial da Seleção Brasileira. A treinadora sueca apostou numa espécie de 3-3-2-2 com Bruna Benites jogando na lateral (mas avançando pouco ao ataque), Tamires jogando mais por dentro (junto de Formiga e Luana), Andressa Alves e Adriana tentando abrir o campo e Debinha e Ludmila como uma dupla de ataque com bastante mobilidade. Acabou que o escrete canarinho insistiu demais nas jogadas por dentro e viu o Equador marcar forte e fechar os espaços no meio-campo. Fora isso, o lado direito da Seleção Feminina não funcionou bem. Acabou que foi a bola parada ofensiva e a pressão pós perda foram os grandes trunfos da equipe de Pia Sundhage nesse primeiro tempo. E só.

Emily Lima armou o Equador num 4-1-4-1 que fechava a entrada da área e negava espaços na frente do seu campo. E a Seleção Feminina acabou facilitando demais a vida da sua adversária ao insistir nas jogadas pelo meio e utilizou pouco os lados do campo para criar suas jogadas de ataque. Foto: Reprodução / SPORTV

Embora Debinha tenha descomplicado a vida da Seleção Brasileira com um belo gol no final da primeira etapa, a impressão que ficou foi a de que a equipe de Pia Sundhage havia perdido consistência com as atuações ruins de Tamires e Andressa Alves. A corintiana Adriana também não vinha bem, mas subiu de produção a partir do segundo tempo quando a treinadora sueca reorganizou o escrete canarinho no seu costumeiro 4-4-2 e promoveu as entradas de Jucinara, Nycole e Andressinha. Além de ganhar força no ataque com a entrada da atacante do Benfica (uma das melhores em campo na opinião deste que escreve) e qualidade no passe nas entrelinhas com a camisa 17, a Seleção Feminina soube explorar bem o cansaço da equipe equatoriana e ainda ganhou mais profundidade com as entradas de Valéria e Duda nos lugares de Andressa Alves e de Adriana respectivamente.

Pia Sundhage reorganizou a Seleção Feminina num 4-4-2 que ganhou ainda mais força no ataque a partir da entradas de Valéria, Andressinha, Nycole e Duda. Ao mesmo tempo, a equipe equatoriana sentiu o cansaço e a intensidade imposta pelas brasileiras na segunda etapa. Foto: Reprodução / SPORTV

É nítido que o caminho a ser seguido por Pia Sundhage é aquele mostrado no segundo tempo com a utilização de jogadoras mais intensas e de uma formação que liberava Debinha para circular por todo o ataque. Nycole entrou muito bem na partida e soube muito bem como prender as zagueiras adversárias e atacar os espaços que apareciam na sua frente. Valéria cobria bem o espaço deixado pelo posicionamento mais conservador de Bruna Benites na lateral e Duda fez ótima dupla com Jucinara pelo lado esquerdo. Aliás, o golaço marcado pela atleta do Avaí/Kindermann nasceu da pressão no portador da bola que Pia Sundhage tanto defende nas suas entrevistas. O frame abaixo mostra a Seleção Feminina fechando as linhas de passe e forçando o erro do Equador. Duda (fora do quadro) vai atacar exatamente o espaço à frente da única adversária em condições de receber a bola na defesa.

Jucinara e Debinha forçam o erro, o Equador sai jogando mal e Duda (fora do quadro) ataca o espaço destacado no frame para se livrar da marcação e fechar a goleada com um lindo chute colocado. A pressão pós perda foi um dos pontos positivos da Seleção Feminina na partida. Foto: Reprodução / SPORTV

Pia Sundhage já deixou bem claro (mais de uma vez) que seu primeiro e principal objetivo é fazer com que a Seleção Feminina faça uma boa campanha nos Jogos Olímpicos de Tóquio. A busca por atletas que saibam jogar em mais de uma posição tem justificativa nessa postura da treinadora sueca. O que não pode ser ignorado, no entanto, é o fato de que a equipe brasileira já tem uma espinha dorsal bem clara: a zaga formada por Erika e Rafaelle, o meio-campo com Formiga e Luana, Debinha (autora de três gols na partida) jogando com liberdade no ataque e Marta participando das jogadas. Nomes como Andressinha e Bia Zaneratto também aparecem com força e a tendência é que a Seleção Feminina seja montada em torno dessas atletas com uma ou outra novidade. Mesmo assim, a atuação das novatas mostra que a nova geração de atletas é excelente e pode dar muitos frutos num futuro próximo.

Os protestos pela presença de nomes como Bruna Benites, Andressa Alves e outros na Seleção Feminina é bem compreensível diante do excelente material humano que Pia Sundhage tem à sua disposição. Os Jogos Olímpicos, no entanto, já batem à porta da Seleção Feminina e a treinadora sueca precisa definir sua equipe. Mas é bom abrir o olho, já que algumas novatas estão pedindo passagem.

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