Mesmos erros, mesmos resultados e mesmo discurso: Vasco de Ricardo Sá Pinto segue sem padrão tático e competitividade

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a derrota do Trem Bala da Colina para o Athletico Paranaense

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rafael Ribeiro / Vasco

Você já viu este colunista escrever mais de uma vez que é preciso levar em consideração todo o contexto na análise do trabalho de qualquer treinador. Falando especificamente do Vasco, a pandemia de COVID-19 (e os jogos sem torcida), o pouco tempo para avaliação e a falta de opções no elenco seriam bons argumentos para Ricardo Sá Pinto tentar explicar a sequência de maus resultados à frente da equipe. O grande problema, no entanto, está no conjunto da obra. Desde o dia 22 de outubro (data da estreia oficial do treinador português no jogo contra o Corinthians em São Januário) até este domingo (27), o Vasco não evoluiu como equipe. As ideias não são executadas (quando existem) e o time é muito pouco competitivo. A derrota por 3 a 0 para um Athletico Paranaense não mais do que esforçado e minimamente organizado escancarou mais uma vez todos esses problemas.

É interessante que a estreia de Sá Pinto na derrota para o Corinthians deixou alguns pontos positivos. A equipe mostrava um mínimo de organização ofensiva e competitividade além de dar um fio de esperança para seus torcedores. Só que a evolução tão prometida no time do Vasco ficou apenas no campo das palavras. A equipe erra demais na execução de tarefas simples dentro de campo. O primeiro gol do Athletico Paranaense é um ótimo exemplo desse problema. Linhas completamente espaçadas, jogadores longes uns dos outros e problemas crônicos na saída de bola. O passe errado de Neto Borges e a hesitação de Andrey no lance são apenas a ponta de um iceberg imenso de problemas e equívocos que vão desde a escalação do time titular e pela escolha das estratégias para cada partida. O que se vê no Vasco de Ricardo Sá Pinto é uma sucessão de erros em todos os setores da equipe.

Neto Borges não tem pra quem passar a bola e força o passe para o meio. Andrey hesita, Richard faz a interceptação e passa para Nikão abrir o placar na Arena da Baixada. O Vasco de Ricardo Sá Pinto segue com seríssimos problemas na construção das suas jogadas e no sistema defensivo. Foto: Reprodução / GE

É bem verdade que a saída do argentino Benítez é um golpe bem forte num elenco já sem muitas opções de qualidade. Mas fica muito difícil defender (e entender) Ricardo Sá Pinto quando este deixa Talles Magno e Leo Gil no banco de reservas (mesmo com a pisada na bola bisonha no lance do terceiro gol do Athletico Paranaense). O Vasco mostrou muitas dificuldades para encaixar jogadas de ataque. E quando o fez, Cano foi flagrado em impedimento duas vezes. Há sim também o fator sorte. Mas não há como fechar os olhos para o fato de que o Vasco tinha espaços para atacar e não os aproveitou. Ainda mais quando se sabe que um dos problemas crônicos dos times de Paulo Autuori é o posicionamento de zagueiros e laterais na última linha. Some isso aos constantes erros nas tomadas de decisão e você terá uma equipe refém dos lançamentos longos para Germán Cano se virar lá na frente.

Mesmo organizado num 4-4-2 bem compactado, o Athletico Paranaense deixou espaços entre seus jogadores. Só que o Vasco não soube como aproveitar esses erros do adversário deste domingo (27) e mostrou pouquíssimas ideias. Cano ficou isolado no ataque na maior parte do jogo na Arena da Baixada. Foto: Reprodução / GE

Isso sem falar que um dos problemas mais graves do escrete comandado por Ricardo Sá Pinto (que vem desde o início do ano quando Abel Braga ainda era o treinador) ainda é a recomposição defensiva. Além de ser realizada de maneira extremamente lenta, ela é completamente desordenada e concede espaços generosos entre seus setores. Não é nenhum exagero afirmar que o Athletico Paranaense poderia ter aplicado uma goleada histórica se tivesse colocado um pouco mais de capricho nas conclusões ao gol de Fernando Miguel (que acabou vacilando no segundo gol do Furacão ao soltar a bola nos pés de Carlos Eduardo). A facilidade que Renato Kayzer, Nikão (o melhor em campo na humilde opinião deste que escreve), Léo Cittadini e Christian encontravam para se movimentar na frente da última linha do Vasco era enorme. O placar final acabou sendo justo diante de tudo o que foi mostrado em campo.

A recomposição defensiva ainda é feita de maneira lenta e completamente desordenada no Vasco de Ricardo Sá Pinto. Não é exagero afirmar que o Athletico Paranaense poderia ter feito ainda mais gols se a equipe de Paulo Autuori fosse mais caprichosa nas conclusões a gol e no último passe. Foto: Reprodução / GE

De acordo com o SofaScore, o Vasco terminou a partida com 45% de posse de bola, onze finalizações a gol (com apenas quatro indo na direção do gol de Santos) e com 374 passes trocados ao longo da partida (com 84% de acerto). A frieza dos números nos mostra alguns dos problemas do escrete comandado por Ricardo Sá Pinto, mas não fala o principal: a equipe não evoluiu de outubro até esse domingo (27). Este que escreve compreende bem todos os problemas envolvidos na montagem do time e todo o contexto imposto pela pandemia de COVID-19. Estamos sim numa temporada extremamente atípica, com dificuldades de todos os tipos. Desfalques por contaminação, departamentos médicos lotados, desfalques por suspensão e os problemas extracampo bem conhecidos do torcedor vascaíno. Só que precisamos ser honestos com os fatos: o trabalho de Ricardo Sá Pinto em São Januário não é bom.

Demitir o português é a solução? Difícil dizer qual deve ser a atitude da diretoria diante dessa situação complicada do Vasco nesse Campeonato Brasieliro. O que é certo é que o erro não aconteceu hoje e nem na semana passada. Difícil não concluir que Ricardo Sá Pinto não era o treinador certo para o Trem Bala da Colina nesse momento. Não com o elenco em frangalhos pelas contratações mal feitas e por tudo que aconteceu e acontece nos bastidores do Gigante da Colina nesses últimos meses. E toda essa situação se reflete dentro de campo. A posição do Vasco na tabela não é obra do acaso ou obra de qualquer conspiração desses ou de outros. É resultado de uma série de erros cometidos pelos mesmos que escolheram Ricardo Sá Pinto apenas por ele ser português e pela grife que trazia consigo sem sequer procurar saber como suas equipes jogavam e quais eram os problemas delas.

O Vasco ainda depende apenas de suas forças para se livrar daquele que pode ser seu quarto rebaixamento em doze anos. Mesmo assim, o time dá pouquíssimas impressões de que pode fazer mais do que vem fazendo. A equipe de Ricardo Sá Pinto não é competitiva e apresenta vários problemas em todos os setores. E se a demissão do português é o que deve ser feito, quem deve vir para seu lugar?

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