Vasco de Ricardo Sá Pinto mostra muito mais dedicação do que organização no empate contra o Fluminense

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação do Trem Bala da Colina e a estreia de Marcão à frente do Tricolor das Laranjeiras

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Merçon / Fluminense FC

Em outros tempos, o empate conquistado nos acréscimos diante do Fluminense seria comemorado pelo Vasco. A situação do clube de São Januário na tabela do Campeonato Brasileiro e as últimas atuações do escrete comandado por Ricardo Sá Pinto impedem qualquer celebração em torno do ponto conquistado dentro de casa. Na prática, ele só aumenta a pressão sobre o treinador português e sobre o elenco vascaíno. O que eu e você vimos na Colina Histórica foi uma equipe que muito mais dedicada e aplicada do que organizada. E isso diante de um Fluminense que manteve o controle do jogo até o final da primeira etapa e simplesmente recuou. A estreia de Marcão no comando do Tricolor das Laranjeiras acabou ficando marcada pelo recuo excessivo do time no segundo tempo e pela desatenção da defesa no lance do gol de Cano. Jogo igual e resultado justo em São Januário.

Ricardo Sá Pinto tentou surpreender seu adversário recuperando a linha de quatro na defesa (a partir de um 4-2-3-1 que tinha Benítez por dentro logo atrás de Cano). Só que o Vasco seguia pecando demais na defesa. Principalmente na falta de intensidade e concentração nos momentos em que o Fluminense tinha a posse da bola e criava boas chances a partir da circulação de Michel Araújo e Wellington Silva atrás de Fred e com Nenê armando o time a partir do lado direito (exatamente como nos tempos de Odair Hellmann). O gol do camisa 17 nasceu a partir da troca de passes na intermediária vascaína e da agressividade que o escrete das Laranjeiras nas transições para o ataque. Os primeiros minutos da partida em São Januário foram todos de um Fluminense mais organizado, concentrado e móvel diante de uma equipe que lutava muito para vencer as próprias limitações.

Fluminense vs Vasco - Football tactics and formations

O Fluminense aproveitou bem os espaços no 4-2-3-1 de Ricardo Sá Pinto com muita movimentação e agressividade na intermediária ofensiva. Wellington Silva e Michel Araújo exploravam bem o lado de Léo Matos e Marcos Júnior e expunham a desorganização do seu adversário nos primeiros minutos em São Januário.

Só que o Vasco melhorou seu desempenho. Primeiro com o recuo da equipe do Fluminense. E depois com uma postura muito mais baseada no talento dos argentino Benítez e Cano do que num jogo coletivo. A equipe de Ricardo Sá Pinto seguia sem organização e sem um mínimo de padrão tático. Mesmo assim, conseguia manter a bola no campo de ataque. O grande número de finalizações fora do alvo (ver os números do SofaScore no tweet abaixo) comprova essa afobação do Trem Bala da Colina nos momentos ofensivos e nas tomadas de decisão. Ainda mais diante de um Fluminense que se adaptava a pequenas mudanças propostas por Marcão. O treinador do Fluzão optava por perseguições mais longas a partir dos encaixes na marcação, estratégia que acabava desorganizando um pouco a defesa. Com Odair Hellmann, as perseguições eram mais curtas e o Flu mantinha mais a sua organização na última linha.

Este que escreve ainda custa a entender como Talles Magno perdeu a vaga no time titular para Gustavo Torres. Não que o jovem camisa 11 seja imprescindível, mas fato é que entrega muito mais do que o colombiano. E não foi por acaso que o Vasco melhorou com a sua entrada. Ainda que desorganizado e sem jogo coletivo, mas com talento suficiente para aproveitar o recuo de um Fluminense que iniciou a segunda etapa controlando bem o jogo. É bem verdade que Hudson deixou o campo por lesão, mas fica bem difícil entender as entradas de André, Ganso e Fred nos lugares de Nenê, Michel Araújo e Marcos Paulo num momento em que o Tricolor das Laranjeiras tinha bastante campo para atacar. Acabou que o gol de Germán Cano (o 11º nesse Brasileirão) foi um prêmio para a dedicação do Vasco e um castigo para o excesso de pragmatismo de um Fluminense que poderia ter feito muito mais.

Vasco vs Fluminense - Football tactics and formations

Marcão recuou demais o Fluminense com as suas mexidas e viu o Vasco tomar conta da partida nos minutos finais com um jogo muito mais baseado na dedicação do que em organização. O gol de Cano premiou a perseverança dos comandados de Ricardo Sá Pinto e puniu o excesso de cuidados defensivos do Tricolor das Laranjeiras.

Enquanto o Fluminense perde mais uma boa chance de finalmente entrar no G4 do Brasileirão, o Vasco segue pagando pelos erros de quem comanda o clube. Este que escreve não gosta de entrar em assunto políticos dos clubes aqui neste espaço, mas é inegável que toda a confusão em torno das eleições para presidente estão respingando dentro de campo. Fora isso, ainda temos os péssimos números de Ricardo Sá Pinto à frente do escrete de São Januário. O SofaScore publicou no seu Instagram um coparativo entre o treinador português e seu antecessor Ramon Menezes. Mesmo com um corte pequeno (16 jogos de Ramon contra 12 de Sá Pinto), a diferença nos números é muito grande. Assim como o desempenho coletivo da equipe vascaína. Difícil não acreditar num erro de avaliação da diretoria do Vasco na escolha do comandante da equipe, baseada muito mais em “grife” do que qualquer outro aspecto.

Não se trata aqui de “apenas” colocar que Ricardo Sá Pinto vem entregando muito pouco no comando do Trem Bala da Colina. O elenco não ajuda, é verdade. Mas há como se pensar em dias melhores em São Januário com a defesa ajustada, mas compactação e intensidade em todas as transições e com a equipe montada em torno de Cano, Benítez e Leonardo Gil. Este colunista também entende que ainda é muito cedo para se tecer qualquer crítica mais pesada a Marcão. O treinador do Fluminense recebe todo o trabalho bem estruturado de Odair Hellmann e pode implementar suas ideias a partir de um time e um modelo de jogo bem desenvolvido. Por outro lado, é bem complicado fechar os olhos para o fato de que o ex-jogador do Tricolor das Laranjeiras poderia ter sido mais ousado. Ainda mais diante de um Vasco desorganizado e que concedia espaços generosos na sua defesa.

Vasco e Fluminense têm missões bem distintas nesse final de temporada. Mas a pressão está toda em cima de Ricardo Sá Pinto muito por conta das últimas atuações da sua equipe. O Trem Bala da Colina é uma equipe que só consegue criar algo na base do talento individual de Cano e Benítez e que mostra um jogo coletivo quase inexistente. E isso num momento em que o fantasma do rebaixamento volta a assombrar São Januário.

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