Versatilidade, experiência e intensidade: Gabi Zanotti é o tipo de jogadora que merece ser tratada como craque

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as duas últimas temporadas da camisa 10 do Corinthians

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rodrigo Coca / Agência Corinthians

Quem acompanha a coluna PAPO TÁTICO já conhece bem a admiração que este que escreve tem pelo futebol feminino e por algumas jogadoras. Uma das que mais encanta os olhos dos amantes da modalidade (e que ganhou até mesmo alcunha de atleta campeão de Copa do Mundo) é Gabriela Maria Zanotti Demoner. Ou simplesmente Gabi Zanotti. A atual camisa 10 do Corinthians é o tipo de jogadora que já podemos chamar de craque sem nenhum medo de exagerar na avaliação. “Zinedine” Zanotti reúne todas as características de uma “todo-campista” de respeito: versatilidade, intensidade atacando e defendendo, boa visão de jogo, bom chute de média e longa distância e muita experiência a serviço do sempre surpreendente Corinthians de Arthur Elias. E diante disso tudo, a sua ausência das últimas convocações de Pia Sundhage para a Seleção Brasileira se tornam completamente inexplicáveis.

Gabi Zanotti nasceu no dia 28 de fevereiro de 1985 e iniciou a sua carreira no fustal antes de se transferir para os gramados. Passou por equipes como Centro Olímpico (onde foi campeã brasileira em 2013 sob o comando de Arthur Elias), Santos (onde se sagrou campeã paulista em 2011), Kindermann, Foz Cataratas e também teve passagens pela China e pelos Estados Unidos antes de assinar com o Corinthians em 2018, onde ganhou dois campeonatos brasileiros (2018 e 2020), dois campeonatos paulistas (2019 e 2020) e uma Copa Libertadores da América (em 2019). E duas das características bem marcantes de Gabi Zanotti são a versatilidade e a facilidade para jogar em várias posições do campo. Em 2019, por exemplo, a camisa 10 do Corinthians jogava como volante (ao lado de Grazi) e dava o tom da saída de bola numa equipe que atacava com muita intensidade e sufocava as rivais.

Na conquista da Copa Libertadores da América em cima da Ferroviária, Gabi Zanotti jogava como a volante que organiza a saída de bola e ainda aparece na frente para concluir a gol ou dar opção de passe. A camisa 10 do Timão aliava versatilidade, intensidade e muita visão de jogo. Foto: Reprodução / DAZN

Arthur Elias manteve o posicionamento de Gabi Zanotti na histórica decisão do Campeonato Paulista de 2019, quando o antigo Itaquerão (e atual Neo Química Arena) foi tomado por mais de 28 mil torcedores. A base do time que venceu o São Paulo por 3 a 0 (com autoridade) foi praticamente a mesma da conquista da Copa Libertadores da América em cima da bem organizada equipe da Ferroviária de Tatiele Silveira. Gabi Zanotti novamente jogava ao lado de Grazi num 4-4-2/4-2-2-2 que tinha na movimentação de Tamires e Milene pelos lados do campo uma das principais armas ofensivas da equipe. Mais atrás, a (ótima) dupla de zaga formada por Erika e Pardal garantiam a cobertura de laterais e volantes. Aquele Corinthians (que já havia entrado para a história pelas conquistas de 2019) jogava no ataque e ainda contava com uma atleta do calibre de Gabi Zanotti para organizar as jogadas.

O Corinthians campeão paulista em 2019 tinha na dupla de volantes formada por Grazi e Gabi Zanotti a certeza de qualidade na saída de bola e de bons passes para o quarteto ofensivo. O título veio com uma vitória contundente e categórica sobre o São Paulo diante mais de 28 mil pessoas. Foto: Reprodução / SPORTV

É interessante notar que a versatilidade de Gabi Zanotti só aumentou com o passar do tempo. A chegada de Andressinha ao Corinthians no início de 2020 fez com que Arthur Elias mudasse a formação da sua equipe para um 4-3-3/4-1-4-1 com a camisa 20 jogando entre as linhas e qualificando a saída de bola. Além disso, Grazi jogava como referência móvel no ataque e Adriana e Crivelari abriam o campo no ataque posicional adotado pelo treinador corintiano. Nessa formação, Gabi Zanotti passou a jogar como “volante/meia” por dentro ao lado de Tamires (ou Diany, como na vitória por 4 a 2 sobre o Avaí/Kindermann). Ao invés de iniciar a saída de bola, Gabi Zanotti teve mais liberdade para chegar no ataque e ainda abria espaços para as chegadas das companheiras de equipe. Nem é preciso dizer que seu futebol ganhou ainda mais intensidade e qualidade com seu novo posicionamento em campo.

A chegada de Andressinha fez com que Arthur Elias adotasse o 4-3-3/4-1-4-1 no Corinthians. E com isso, o posicionamento de Gabi Zanotti mudou. Ao invés de iniciar a saída de bola, a camisa 10 foi jogar mais próxima da área e era importantíssima para abrir espaços na defesa adversária. Foto: Reprodução / CBF TV

A decisão do Campeonato Paulista de 2020 nos presenteou com uma Gabi Zanotti que voltava às suas origens. A formação do Corinthians era praticamente a mesma das finais do Brasileirão Feminino (o 4-3-3/4-1-4-1 em ataque posicional de Arthur Elias), mas a camisa 10 passou a jogar ainda mais à frente nas duas partidas da decisão contra a Ferroviária. Os 5 a 0 construídos no segundo jogo contra as comandadas de Tatiele Silveira tiveram a participação direta de Gabi Zanotti jogando por dentro numa variação para um 4-4-2 mais definido com Vic Albuquerque, Adriana e Crivelari se movimentando constantemente no ataque. E isso com Diany e Andressinha organizando a saída de bola. E a nossa querida “Zinedine” Zanotti seguia construindo bem o jogo no meio-campo e distribuindo qualidade com passes precisos, posicionamento perfeito e muita intensidade nas ações ofensivas.

Gabi Zanotti jogou bem próxima do ataque no jogo de volta da final do Campeonato Paulista Feminino e distribuía passes com a qualidade de sempre. A movimentação constante de Vic Albuquerque, Adriana e Crivelari tornava esse Corinthians ainda mais envolvente e ainda mais letal. Foto: Reprodução / SPORTV

Diante de tanta qualidade, versatilidade e vivência nos gramados brasileiros, é bem possível imaginar Gabi Zanotti fazendo parte do grupo da Seleção Feminina. Não exatamente como titular (já que Luana vem entregando demais jogando ao lado da sempre polivalente e determinada Formiga). Além disso, a treinadora Pia Sundhage já mostrou preferência por um 4-4-2 mais definido. Existe também a vontade da treinadora sueca em iniciar uma renovação no escrete canarinho. Só que esse argumento não se sustenta diante das últimas listas de convocadas. Principalmente quando se nota que Pia Sundhage ainda insiste em nomes como Bruna Benites e Bárbara. Jogadoras muito experientes, mas que não entregam mais o desempenho de outros anos. Enquanto isso, Gabi Zanotti já provou várias e várias vezes que merece uma vaga na Seleção Brasileira. Ainda que seja como opção no banco de reservas.

“Prefiro continuar fazendo o que tenho feito. Jogando leve, com alegria, saber a hora de cadenciar e colocar intensidade. Eu trabalho para o clube. Acredito que se eu tiver que ir, sempre honrei e honrarei a seleção, a amarelinha é um sonho. (…) Acredito que até pode ter outras coisas envolvidas, eu não sei… Eu até gostaria de saber. Sempre me questionam e eu realmente não sei o que acontece. Se vocês souberem podem me falar. (…) Se não estão olhando para mim, eu não posso fazer nada”. A entrevista de Gabi Zanotti para a ESPN Brasil deixou bem clara a dúvida (e também uma ponta de insatisfação) no ar. Por que Pia Sundhage insiste em várias jogadoras que já não entregam o mesmo desempenho e deixa a camisa 10 do Corinthians (que vem de duas grandes temporadas e jogando o fino da bola) de fora da Seleção Feminina? A idade não parece ser uma justificativa plausível.

Gabi Zanotti é o tipo de jogadora que surgem apenas de tempos em tempos. Ela é versátil, intensa, inteligente e muito habilidosa com a bola no pé. Não é exagero nenhum chamá-la de craque. Ainda mais quando a camisa 10 se transformou numa das principais peças de um Corinthians histórico e vitorioso. O que ninguém entende é como Pia Sundhage parece não se interessar pelo seu imenso futebol.

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Botafogo tem atuação digna de sua história e se garante na decisão do Brasileirão Feminino Série A2

Velocidade, explosão e gols: entenda por que Ludmila da Silva é jogadora para (pelo menos) mais duas Copas do Mundo