Torcedores | Notícias sobre Futebol, Games e outros esportes

Lista de convocadas e renovação de Pia Sundhage indicam “Última Dança” da geração de Marta, Cristane e Formiga

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destaca as escolhas da treinadora sueca e a preparação para os Jogos Olímpicos de Tóquio

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

O anúncio da lista de jogadoras convocadas para a disputa da She Believes Cup (em fevereiro) e da renovação do contrato de Pia Sundhage até o ano de 2024 dizem muita coisa por si só. Não se trata de qualquer coisa que foi mencionada na entrevista coletiva desta quinta-feira (28) na sede da CBF, mas daquilo que ficou nas entrelinhas. Já se sabe que a treinadora sueca tem uma base formada e que seu foco principal (pelo menos neste momento) é a disputa dos Jogos Olímpicos de Tóquio. Mas a sua permanência no comando da Seleção Feminina até os Jogos de Paris (em 2024) indicam que a geração de Marta, Cristiane e Formiga pode ter entrado na sua “Última Dança”. Não é difícil imaginar que Pia Sundhage queira dar uma última oportunidade para todas essas jogadoras conquistarem um título de expressão e que suas últimas convocações tenham sido feitas para acomodar as três lendas na sua equipe sem que ela perca o equilíbrio entre seus setores.

A referência à aclamada série “The Last Dance” (que contou a história da última temporada de Phil Jackson à frente do lendário Chicago Bulls de Michael Jordan e Scott Pippen é bem clara. Principalmente por conta das semelhanças entre os enredos. De todas as jogadoras mencionadas anteriormente, apenas Formiga sinalizou com uma aposentadoria após os Jogos Olímpicos de Tóquio. E como o termo “renovação” foi repetido várias e várias vezes nas últimas entrevistas coletivas de Pia Sundhage, a tese da “Última Dança” começa a fazer mais e mais sentido. Pelo menos para este que escreve. Ainda mais quando se percebe que a treinadora sueca vem pensando numa equipe que acomode pelo menos duas das três jogadoras citadas no título desta análise. A busca por laterais que tenham condições de fazer todo o trabalho ofensivo e defensivo é apenas um dos pontos comuns entre todas as convocações.

É bastante compreensível que Pia Sundhage tenha mantido essa base mesmo com todos os problemas ressaltados aqui mesmo neste espaço antes do período de treinamentos em Viamão. A insistência em nomes como Bruna Benites, Camilinha e Chú quando jogadoras como Angelina, Bruna Calderan, Yasmin, Maria Alves e várias outras que vem se destacando aqui e no exterior incomoda bastante este que escreve. Mesmo diante da temporada completamente atípica que tivemos por conta da pandemia de COVID-19 e de todas as dificuldades para se marcar amistosos contra seleções de ponta. No entanto, o anúncio da sua renovação de contrato parece indicar essa “Última Dança” dessa que foi uma das gerações mais vitoriosas da história da Seleção Feminina. E Pia Sundhage parece estar bastante resoluta diante das suas escolhas para sua equipe. E a formação utilizada nas últimas partidas mostra exatamente esse quadro.

A impressão que fica das últimas convocações é a de que Pia Sundhage busca uma formação que acomode pelo menos Marta e Formiga entre as titulares. Em termos táticos, a escolha pela convocação de Bruna Benites como lateral/zagueira pela direita indica que a nossa Rainha pode entrar mais à direita sem tantas obrigações defensivas e ter mais liberdade para encostar no ataque. Formiga (a veterana que mais tem entregado desempenho e boas atuações) já tem vaga cativa ao lado de Luana no meio-campo. Já Cristiane (apesar de toda a admiração deste colunista) deve perder lugar para as velozes e envolventes Ludmila e Debinha por conta de problemas físicos. De resto, a equipe que deve iniciar a She Believes Cup não deve ser muito diferente daquela que goleou o Equador duas vezes no final de 2020. Impossível não notar a influência dessa “Última Dança” na Seleção Feminina nas últimas convocações.

É bem verdade que Pia Sundhage conseguiu transformar a Seleção Feminina numa equipe competitiva, organizada e bastante consistente nos últimos anos. A grande questão dessa “Última Dança” reside no fato de que todas as convocações contam com jogadoras veteranas que já estão em declínio físico e técnico que já tomaram conta de boa parte das dezoito vagas para a disputa dos Jogos Olímpicos. Como depositar toda a confiança em atletas como essas numa competição em que o nível exigido será altíssimo? É compreensível que Pia Sundhage queira dar essa última oportunidade a toda essa geração. O ponto que este colunista quer discutir é se realmente vale a pena deixar tantas jogadoras promissoras de fora das Olimpíadas para se montar o time titular em torno de uma base que já se prepara para se despedir dos gramados. E olha que este que escreve não está se referindo a Marta, Cristiane e Formiga.

A renovação do contrato da treinadora sueca até 2024 indica também um processo de transição que já deve estar em curso há bastante tempo. A “Última Dança” e a referência ao lendário Chicago Bulls, por outro lado, podem apontar para um último sopro de bom futebol de toda uma geração que merecia melhor sorte na Seleção Feminina diante da última chance que boa parte delas terá para finalmente colocar a medalha dourada no peito. É algo que merece a nossa atenção nesses próximos meses.

CONFIRA OUTRAS ANÁLISES DA COLUNA PAPO TÁTICO:

Botafogo tem atuação digna de sua história e se garante na decisão do Brasileirão Feminino Série A2

Versatilidade, experiência e intensidade: Gabi Zanotti é o tipo de jogadora que merece ser tratada como craque