Trabalho de Eduardo Baptista é o principal legado do Mirassol campeão brasileiro da Série D

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a vitória do Leão sobre o Floresta neste sábado (6) no Estádio José Maria de Campos Maia

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Célio Messias / CBF

Eduardo Baptista era muito mais lembrado pela explosão numa coletiva de imprensa nos tempos em que era técnico do Palmeiras do que pelo seu trabalho como treinador. A falta de continuidade no trabalho nos grandes centros do futebol brasileiro o levou ao Mirassol, clube de projeto ambicioso, boa estrutura e que já vinha de ótima campanha no Paulistão 2020 (onde chegou nas semifinais da competição). Das zoações e dos “memes” na internet ao título do Brasileirão da Série D (com duas vitórias sobre o surpreendente Floresta de Leston Júnior), passaram-se poucos meses. Mas foi tempo suficiente para que todos acompanhassem o trabalho de Eduardo Baptista à frente do Leão da Alta Araraquarense. O Mirassol é intenso nas suas transições, organizado e possui um padrão de jogo bastante consistente. Com toda a certeza, é um dos principais legados da primeira conquista nacional do clube.

É preciso dizer que o Mirassol entrou em campo com o regulamento debaixo do braço. A vitória por 1 a 0 sobre o Floresta na semana passada dava certa tranqulidade ao Leão trabalhar mais a bola e aguardar o melhor momento de atacar. Só que os comandados de Eduardo Baptista aproveitaram bem a ausência do lateral-direito Lito e a opção do técnico Leston Júnior para um 3-1-4-2 no jogo deste sábado (6). Com muita velocidade pelos lados do campo (principalmente pelo esquerdo com Luiz Henrique e Fabrício voando pra cima de Ronaldo) e bom toque de bola desde a defesa, o Mirassol foi tomando conta da partida e abriu o placar logo aos 17 minutos de jogo, com João Carlos aproveitando rebote do goleiro Douglas Dias. A missão do Floresta (que já era bastante complicada) ficava ainda mais difícil de ser cumprida. Tudo por conta da organização e do futebol apresentado pela equipe de Eduardo Baptista.

Floresta vs Mirassol - Football tactics and formations

Leston Júnior apostou na entrada de Ronaldo no lugar de Lito e numa espécie de 3-1-4-2 que acabou desprotegendo a defesa do Floresta e embolando o jogo no ataque. Já o Mirassol de Eduardo Baptista dominou as ações no meio-campo e mostrou muito mais organização e intensidade nas suas transições. Mais uma bela partida do Leão.

O grande trunfo de Eduardo Baptsta estava na organização e na proposta de jogo da sua equipe. Seu 4-1-4-1/4-3-3 tinha profundidade com João Carlos empurrando a zaga do Floresta para trás, amplitude com Fabrício e Netto abrindo o campo e saída de bola qualificada com Daniel recuando entre os zagueiros Danilo Boza e Heitor para fazer a tão conhecida “saída de três”. Com isso, os laterais Vinícius e Luiz Henrique se lançavam ao ataque e tinham espaço para jogar também por dentro (auxiliando Cássio Gabriel e Rafael Tavares na armação das jogadas). Com o camisa 6 do Mirassol voando pra cima de Ronaldo (que jogou improvisado na ala), não demorou muito para que a equipe do interior de São Paulo impusesse seu jogo dentro de seus domínios. E a vida do Floresta ficaria ainda mais complicada com a tola expulsão do zagueiro Eduardo no finalzinho do primeiro tempo. Consistência e bom jogo coletivo.

Fabrício e Netto abriam o campo, João Carlos empurrava a zaga do Floresta para trás e os laterais tinham espaço para jogar por dentro. O Mirassol de Eduardo Baptista era intenso nas transições, organizado na saída de bola e consistente no ataque. Ótima atuação coletiva do Leão da Alta Araraquarense. Foto: Reprodução / MyCujoo

O segundo tempo no Estádio José Maria de Campos Maia (o simpático “Maião”) apenas confirmou o panorama que já se desenhava antes da expulsão de Eduardo. O técnico Leston Júnior ainda tentou dar sangue novo ao Floresta com as entradas de Núbio Flávio e Renê (e desfazendo seu 3-1-4-2 para apostar num 4-4-1 mais fechado), mas sem muito sucesso. O grande nome da equipe cearense acabaria sendo o goleiro Douglas Dias, que salvou o Lobo da Vila Manoel Sátiro de uma derrota ainda maior. Eduardo Baptista manteve a formação do primeiro tempo, trocou algumas peças nos minutos finais e viu o Mirassol administrar o resultado até o final do jogo sem muitos sustos. O primeiro título nacional do clube de 95 anos de existência veio acompanhado de uma campanha irretocável na Série D e com muita força nos jogos disputados dentro de casa. Foram onze vitórias e um empate. Baita retrospecto do Leão.

O trabalho sério e qualificado de Eduardo Baptista é o principal legado de um Mirassol organizado e que sonha com voos muito mais altos. Primeiro pela confiança na comissão técnica e pelo plano ambicioso. E também por dar condições que estes e outros profissionais possam exercer sua profissão sem problemas. Há quem diga que “é muito mais fácil trabalhar na Série D do que na elite”, o que não deixa de ser uma verdade. Mas o grande mérito de Eduardo Baptista foi pensar diferente dos demais, aceitar um projeto consistente e trabalhar com humildade para recuperar uma carreira que muitos já davam como terminada para o futebol. O técnico que virou “meme” nos tempos de Palmeiras começa a dar a volta por cima mostrando seu talento num clube mais estruturado do que alguns mais tradicionais e que sofrem para se manter vivos no cenário nacional. Acho que não preciso citar nomes…

A tendência é vermos o Mirassol aparecendo no noticiário esportivo com mais frequência nos próximos meses. Não somente pelo título da Série D e o acesso para a Série C, mas por ter dado a chance que um treinador tanto desejava para mostrar seu valor e por provar que é possível sim confiar no seu trabalho a longo prazo. Eduardo Baptista dá a volta por cima e coloca o Mirassol no seleto grupo dos campeões nacionais.

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