Atuação da Seleção Feminina contra o Canadá deixa muito mais perguntas do que respostas; confira a análise

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica o que aconteceu com a equipe de Pia Sundhage na partida válida pela She Believes Cup

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Sam Robles / CBF

Este que escreve sabe muito bem que ter cuidado com as análises de uma partida de futebol é fundamental para não cair na armadilha do “resultadismo”. Não se trata de tirar os méritos de uma equipe, mas ter atenção para que um resultado positivo não mascare os problemas que possam aparecer em campo. É com mais ou menos essa “vibe” que a vitória da Seleção Feminina sobre o Canadá (válida pela She Believes Cup) precisa ser encarada. Não é exagero afirmar que a melhor atuação coletiva das comandadas de Pia Sundhage aconteceu no primeiro tempo. Não somente pelos gols de Debinha e Júlia Bianchi e pela ótima tarde de Adriana, mas pela maneira como a equipe se comportou. Por outro lado, o segundo tempo da Seleção Feminina foi simplesmente terrível. De acordo com Pia, “algumas precisam competir um pouco mais para alcançar um nível internacional”. Mas será que ela também não é responsável por isso?

A melhor atuação coletiva da Seleção Brasileira na She Believes Cup teve sim o “dedo” de Pia Sundhage. A treinadora sueca manteve seu 4-4-2/4-2-4 básico, mas optou por um meio-campo mais leve e por jogadoras que tinham condições de fazer o contraponto defensivo. Andressinha e Júlia Bianchi protegiam a defesa, Ivana Fuso (jogadora com enorme potencial e que pode ser aproveitada mais vezes no escrete canarinho) e Adriana jogavam mais abertas, mas também caiam por dentro para dar opção de passe e (no caso da camisa 14) abrir o corredor para as subidas de Tamires. Mais na frente, Debinha era a referência móvel e ainda contava com a companhia de Marta no setor. Com a camisa 10 liberada de qualquer obrigação defensiva (a não ser a pressão na saída de bola do Canadá), a Seleção Feminina conseguiu emplacar uma boa atuação coletiva e balançou as redes duas vezes sem muitas dificuldades.

Brasil vs Canada - Football tactics and formations

Com Andressinha, Júlia Bianchi, Ivana Fuso e Adriana no meio-campo, a Seleção Feminina conseguiu travar as saídas do Canadá forçando as jogadas pelo lado esquerdo. Marta jogou mais próxima do ataque e Debinha levou Jade Rose e Zadorsky à loucura com muita movimentação e intensidade no terço final.

A formação escolhida por Pia Sundhage fazia com que a Seleção Feminina ficasse mais “torta” para o lado esquerdo (setor onde Adriana, Tamires e Debinha jogavam), já que Tainara não avançava tanto e Ivana Fuso fechava mais pelo meio para cobrir aquele espaço. Mesmo assim, a impressão que ficou desse primeiro tempo foi a de um equilíbrio maior na equipe brasileira. Com as linhas mais adiantadas, o Canadá ameaçou muito pouco a meta brasileira nos primeiros 45 minutos. As únicas chances da equipe de Deanne Rose e Beckie só aconteceram quando a goleira Bárbara se atrapalhou na saída de bola em duas ocasiões. E vale destacar também a atuação de Adriana. A camisa 14 foi a melhor em campo e ainda desempenhou função tática importante no primeiro tempo ao se aproximar de Andressinha e Júlia Bianchi quase como uma volante e ainda aparecer no ataque saindo da esquerda e entrando em diagonal.

A atuação das “wingers” foi o grande achado de Pia Sundhage no primeiro tempo. Adriana tinha fôlego para se posicionar quase como uma volante e ainda aparecer no ataque. Ivana Fuso, por sua vez, ocupou bem os espaços e ajudou na armação das jogadas e na marcação pelo lado direito. Foto: Reprodução / SPORTV

O problema todo é que a atuação da Seleção Feminina no segundo tempo praticamente incinerou todo o bom trabalho coletivo da primeira etapa. Primeiro por conta das mexidas de Pia Sundhage, que insistiu em Camilinha como lateral e em Andressa Alves como volante. Além disso, o ataque perdeu mobilidade com Bia Zaneratto e Cristiane e Júlia Bianchi ficou completamente sobrecarregada na marcação na frente da defesa. Tanto que Adriana parou de ser acionada pelo lado do campo por conta da pressão imposta pelo Canadá. Aliás, não é exagero e nem desrespeito com ninguém afirmar que o resultado final poderia ter sido muito diferente se a equipe de Bev Priestman fosse só um pouquinho mais competente nas finalizações. Bruna Benites parecia perdida no meio das canadenses, mas teve méritos ao salvar aquele que seria o gol certo de Zadorsky aos 38 minutos do segundo tempo. Atuação preocupante.

Camilinha, Jucinara e Andressa Alves entraram muito mal na partida e a Seleção Feminina sofreu com as investidas das canadenses. Não era raro ver as jogadoras brasileiras errando no posicionamento e abrindo espaços generosos na última linha. Faltou competitividade e intensidade. Foto: Reprodução / SPORTV

Tivemos algumas respostas, algumas delas foram com jogadoras jogando bem, mas algumas precisam competir um pouco mais para alcançar um nível internacional. Então tivemos destaques positivos e outros nem tanto. Segundamente, conseguimos marcar gols, fiquei bem contente com o primeiro tempo de hoje. Defensivamente, precisamos ajustar alguns detalhes. Como no jogo de hoje, quando o Canadá colocou quatro atacantes e nos pressionou. Foi parecido com o que ocorreu contra os EUA, com muitas jogadoras pressionando alto. Precisamos melhorar isso para conseguirmos realizar transições e contra-ataques“. As palavras de Pia Sundhage após a vitória sobre o Canadá resumem bem o que foi visto nessa quarta-feira (24), em Orlando. O primeiro tempo foi marcado por uma sólida atuação coletiva, mas os 45 minutos finais foram muito ruins e escancararam os vários problemas do escrete brasileiro.

Não há como discordar de Pia Sundhage quando ela fala em falta de competitividade e que é preciso realizar as transições com mais intensidade. O grande X da questão reside no fato de que vários desses problemas foram causados pelas escolhas da treinadora sueca. Começando pela insistência em improvisações no time titular da Seleção Feminina e um certo “saudosismo” com a geração de Marta, Bárbara, Cristiane e outras. É bem compreensível que Pia busque jogadoras que saibam jogar em mais de uma posição e nomes experientes para os Jogos Olímpicos. O problema é quando isso tira a vaga de atletas da posição e que poderiam render muito mais do que algumas das citadas anteriormente. Acaba que a falta de competitividade citada por Pia Sundhage foi causada por boa parte de suas escolhas para a Seleção Feminina. Me desculpem, mas não dá pra entender Camilinha jogando na lateral e Andressa Alves como volante.

Apesar de tudo, o saldo da participação da Seleção Feminina na She Believes Cup é sim positivo. No entanto, a atuação da equipe contra o Canadá deixou muito mais perguntas do que respostas. Como Pia Sundhage fala de competitividade e não percebe que isso foi causado pela escolha de jogadoras que não conseguem mais entregar isso em campo? Este que escreve espera sinceramente que o critério mude para os próximos compromissos da equipe brasileira.

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