Fluminense supera os obstáculos e vence o Boavista na base da movimentação constante e da aplicação tática

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação do time de Roger Machado na partida realizada nesta terça-feira (23)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Merçon / Fluminense FC

É sempre bom lembrar que toda e qualquer análises proposta por quem quer que seja precisa levar em consideração todos os fatores envolvidos em cada partida. No caso da vitória do Fluminense sobre o Boavista (em jogo válido pela quinta rodada da Taça Guanabara), a equipe comandada por Roger Machado teve que superar as condições tenebrosas do gramado do Estádio Elcyr Resende, a falta de ritmo dos atletas titulares e também o contexto imposto pela pandemia de COVID-19. Aliás, é preciso deixar bem claro que federações e clubes seguem dando um show de insensibilidade ao aplicar o “jeitinho brasileiro” para driblar as restrições impostas por prefeituras para conter a transmissão da doença. Mesmo assim, o Tricolor das Laranjeiras mostrou que segue subindo de produção apesar de tudo. O Fluminense de Roger Machado superou obstáculos e vem ganhando consistência com o retorno dos mais experientes.

Quem acompanha a coluna PAPO TÁTICO aqui no TORCEDORES.COM já sabe que Roger Machado quer que suas equipes troquem passes curtos com a aproximação dos jogadores e ataquem em bloco, gerando superioridade numérica em todos os setores do campo. Foi assim no Grêmio, no Palmeiras, no Atlético-MG e no Bahia ainda que cada seu trabalho em cada uma dessas equipes tenha aspectos bem específicos por conta do contexto em que cada uma estava inserida. Não é difícil concluir que o gramado do Estádio Elcyr Resende prejudicou o Fluminense nesse sentido. O meio-campo demorou para se adaptar e encaixar a marcação, a defesa teve problemas para conter o ataque do Boavista (principalmente por conta da atuação ruim de Matheus Ferraz) e o setor ofensivo não tinha fluidez. Se não fosse o goleiro Marcos Felipe (que defendeu o pênalti cobrado por Jean), a vida do Fluminense teria ficado muito mais complicada.

Quem chega e quem sai dos clubes?

 

Roger Machado corrigiu o posicionamento da sua equipe no intervalo e viu o Tricolor das Laranjeiras ganhar consistência com as linhas do seu 4-1-4-1 mais compactadas e os jogadores mais próximos uns dos outros. Martinelli levava perigo com suas subidas ao ataque e Yago Felipe (autor do primeiro gol do Fluminense na partida) se juntava a Michel Araújo nas jogadas de ataque, seja aparecendo por dentro ou abrindo o campo pela direita. A dinâmica colocada pelos “pontas” Lucca e Gabriel Teixeira junto aos laterais Igor Julião e Danilo Barcelos (ainda que este último tenha pecado demais na marcação por conta da falta de ritmo) ajudou a desafogar o meio-campo e fez a bola chegar mais redonda nos pés do garoto Samuel (que não foi tão bem nas jogadas de pivô, mas gerou profundidade ao empurrar a zaga do Boavista para trás). O Fluminense ganhou consistência e muito volume de jogo no segundo tempo.

Roger Machado corrigiu os problemas do seu 4-1-4-1 e viu o Fluminense chegar no campo de ataque com muito volume de jogo. Yago Felipe (um dos melhores em campo) se juntava a Michel Araújo na criação das jogadas e a equipe tricolor chegava na frente com até sete jogadores. Foto: Reprodução / Youtube / Cariocão TV

O Boavista (que jogava com suas linhas bem próximas da área do goleiro Klever até sofrer o primeiro gol) se lançou ao ataque para tentar o empate. Essa foi a senha para que Roger Machado mexesse no Fluminense e mandasse os garotos Kayky e John Kennedy para o jogo e reforçasse o meio-campo com a entrada de Wellington. O desenho tático pouco mudou com as alterações, mas deixou o Tricolor das Laranjeiras mais veloz nos contra-ataques. Tudo para explorar o espaço às costas dos zagueiros Douglas Pedroso e Elivélton na base da velocidade e da alta intensidade nas transições (outra marca dos times de Roger Machado). O início da jogada do segundo gol tricolor (marcado por Jonh Kennedy) mostra bem essa faceta do treinador. Amplitude para abrir as defesas adversárias, posicionamento dos jogadores dentro de campo e muita objetividade nos passes. O futebol do Fluminense já começa a ganhar corpo.

As entradas de John Kennedy e Kayky não mexeram no desenho tático básico do Fluminense. Os garotos formados na base de Xerém deram mais velocidade aos contra-ataques e aproveitaram muito bem os espaços na defesa do Boavista. Roger Machado vai dando sua cara ao time tricolor. Foto: Reprodução / Youtube / Cariocão TV

Roger Machado sabe que é importante ter opções no banco de reservas para encarar a extensa maratona de jogos que virá pela frente. Ainda mais quando o Fluminense está a um mês da sua estreia na Copa Libertadores da América e terá que enfrentar viagens longas (dependendo dos seus adversários na fase de grupos) além da própria pandemia de COVID-19. O retorno de titulares como Luccas Claro, Fred, Nenê e outros mais experientes podem dar mais consistência e “casca” para uma equipe que conta com jovens muito promissores como Calegari, Martinelli, John Kennedy e vários outros. A tendência é que mais titularem façam sua estreia na temporada a partir das próximas partidas. Tudo para que Roger Machado consiga implementar suas ideias e deixar o Fluminense ainda mais competitivo. Por outro lado, é bem possível que os mais jovens continuem ganhando espaço com o treinador tricolor.

Essa foi a terceira vitória seguida do Fluminense no Campeonato Carioca. Este que escreve sabe muito bem que a competição serve muito mais como “laboratório” e que o nível exigido é muito menor do que numa Libertadores ou num Campeonato Brasileiro. Mesmo assim, Roger Machado está encontrando soluções e opções interessantes para um Tricolor das Laranjeiras que deve seguir surpreendendo tudo e todos. Assim como fez na temporada passada.

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