Atlético-MG liga o “modo aleatório” e abusa do “Cucabol” no empate com o Deportivo La Guaira

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa os problemas coletivos do escrete comandado por Cuca em partida válida pela Copa Libertadores da América.

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Clube Atlético Mineiro

O termo “Cucabol” foi criado a partir do estilo de jogo apresentado por algumas equipes de Cuca (notadamente o Palmeiras campeão brasileiro de 2016). Bola parada forte, lançamentos longos, ligações diretas e os famosos laterais cobrados para a área. A alcunha, antes sinônimo de futebol eficiente, foi ganhando uma conotação mais pejorativa por conta da falta de criatividade observada nos times comandados por Cuca. Diante disso, não é exagero nenhum afirmar que o Atlético-MG sofreu do mesmo problema no empate contra o Deportivo La Guaira, na estreia da equipe na Copa Libertadores da América. Foram incríveis 59 cruzamentos realizados no jogo contra a equipe venezuelana. Ainda que o trabalho de Cuca ainda esteja no início e que o Galo tenha sido comandado pelo auxiliar Cuquinha no jogo desta quarta-feira (21), ficou claro que o repertório de jogadas apresentado pelo Atlético-MG foi muito pobre.

O que mais impressionava no Galo era a ausência de qualquer vestígio de organização ofensiva contra o Deportivo La Guaira. Tudo era feito no “modo aleatório”. O problema não estava na execução do plano de jogo de Cuca. Isso não existiu no Atlético-MG na partida desta quarta-feira (21), no Estádio Olímpico de Caracas. Enquanto o escrete venezuelano se organizava num 5-3-2 e marcava sem colocar muita pressão na bola, o Galo era pouco intenso e muito desorganizado. O belo gol marcado pelo zagueiro Adrián Martínez esvcancarou os problemas coletivos de uma equipe que já deveria ter um mínimo de padrão de jogo ou, pelo menos, um esboço desse padrão. Tudo dependia do talento de Nacho Fernández, Guga, Guilherme Arana e Keno diante de um Deportivo La Guaira que se defendia sem sofrer tanto já que seu adversário adotava uma atitude muito pouco intensa e concentrada dentro de campo.

La Guaira vs Atletico-MG - Football tactics and formations

Daniel Farías armou o Deportivo La Guaira num 5-3-2 que marcava muito atrás, mas que não encontrava tanta dificuldades para se defender por conta da postura do Atlético-MG. Mesmo organziado num 4-2-3-1 e com algumas estrelas em campo, o Galo foi muito pouco intenso e bastante desorganizado na hora de atacar.

O “Cucabol” reapareceu com força logo depois que o Deportivo La Guaira abriu o placar no Estádio Olímpico de Caracas. O auxiliar Cuquinha foi flagrado pelas câmeras de transmissão orientando os jogadores do Atlético-MG a levantar a bola na área adversária. Ao todo, o Galo realizou impressionantes 59 cruzamentos durante a partida (sendo que apenas 16 foram realizados de forma correta). Números que comprovam o repertório paupérrimo de jogadas de um time que pode fazer coisas grandes dentro de campo com um mínimo de organização ofensiva e padrão tático. Não que utilizar os cruzamentos para a área como mais uma maneira de atacar seja algo errado. O problema aqui está na forma como eles são feitos. Se a movimentação for correta, se a equipe tiver profundidade e amplitude nos movimentos e trabalhar bem a bola, são pré-requisitos básicos. Mesmo em equipes que possuem um forte jogo aéreo.

O Atlético-MG se impôs na partida a partir dos 30 minutos do primeiro tempo, mas ninguém tinha dúvidas de que a equipe poderia ter empatado (ou até virado) o jogo se tivesse um mínimo de organização. Ainda mais quando o Deportivo La Guaira seguia se defendendo e esperando o apito final. Zaracho empatou a partida após aproveitar sobra do goleiro Olses em chute de Guilherme Arana. Mesmo assim, nem mesmo com Hulk, Nathan, Marrony e Eduardo Sasha o Atlético-MG conseguiu aproveitar os espaços que tinha à frente da área. Não havia triangulações, trocas de passe ou infiltrações. A ordem ainda era levantar a bola na área e tentar aproveitar uma falha da zaga do Deportivo La Guaira que não aconteceu mais. Ao mesmo tempo, a equipe venezuelana aproveitou a péssima noite do Galo para encaixar pelo menos três boas oportunidades de balançar as redes pela segunda vez. Sorte que Éverson estava atento debaixo das traves.

O Deportivo La Guaira manteve a sua linha de cinco defensores no segundo tempo e viu o Atlético-MG levantar bolas a esmo dentro da área. Chamava a atenção a falta de mobilidade dos jogadores atleticanos nos cruzamentos na área. Ninguém dava opção. Foto: Reprodução / YouTube / Conmebol Libertadores

Este que escreve compreende que o trabalho de Cuca ainda está no início e que todo processo que envolve o entendimento mútuo entre atletas e treinador leva tempo para acontecer de fato. Por outro lado, a falta de padrões na hora de atacar qualquer adversário que seja e a dependência quase que completa do futebol de Nacho Fernández, Keno e Guilherme Arana chamam demais a atenção até mesmo dos torcedores mais tolerantes. Mesmo com poucas semanas à frente da equipe, já era para Cuca ter implementado pelo menos um esboço do que deseja para o Atlético-MG. Vale ainda um adendo: Zaracho entrou bem no jogo (mais uma vez) e foi o jogador que melhor conseguia (ainda que individualmente) ler os espaços na defesa do Deportivo La Guaira e se projetar para receber passes em profundidade. Cuquinha acabou tirando o pouco de organização do Galo recuando o argentino depois que Nathan entrou na partida.

Esse “modo aleatório” que resultou no retorno do famigerado “Cucabol” ao Atlético-MG é algo que precisa ser melhorado com uma certa urgência. O grupo H da Copa Libertadores da América não é dos mais complicados (pelo menos em tese) e o Galo tem bola e elenco para se garantir na próxima fase mesmo com todos os problemas levantados aqui. Por outro lado, a falta de organização assusta. Ainda mais quando vem se transformando no “padrão” de um treinador que conhece tão bem o clube.

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