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Entre a renovação e a experiência, Pia Sundhage escolheu o caminho do improviso e da dúvida; entenda

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a convocação da Seleção Feminina e o que podemos esperar da lista final para os Jogos Olímpicos

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Quem acompanha a coluna aqui no TORCEDORES.COM sabe que este que escreve vem questionando as escolhas de Pia Sundhage para a Seleção Feminina há bastante tempo. A opção por um 4-4-2 mais estático (que traz Marta no lado do campo) sem muitas variações de formação e de posicionamento, os problemas nas laterais do escrete canarinho (principalmente na direita) e a insistência em nomes que já não conseguem acompanhar o nível de exigência do esporte de alto rendimento são apenas alguns pontos apontados aqui neste espaço. Acontece que a convocação para os amistosos contra Rússia e Canadá no mês de junho só reforça a tese de todos aqueles que cobram mais coerência da treinadora da Seleção Brasileira. A impressão que fica é a de que Pia Sundhage preferiu improvisar e apostar numa geração que deve ter seus últimos momentos em Tóquio em detrimento da possibilidade de ter uma equipe mais consistente em terras nipônicas.

Não que a lista de jogadoras convocadas não conte com boas jogadoras. Adriana, Angelina, Ary Borges, Ludmila, Júlia Bianchi e Bia Zaneratto são nomes que podem entregar muita coisa dentro de campo. Além delas, Marta e Formiga ainda impõem muito respeito nas adversárias. Principalmente a camisa 8 da Seleção Feminina, uma das poucas de sua geração que ainda nos brinda com apresentações de altíssima qualidade. As dúvidas com relação ao desempenho do time nos Jogos Olímpicos ainda são muito grandes. A começar pelo sistema defensivo. Se Érika e Rafaelle têm tudo para formar uma dupla de zaga de MUITO respeito, o mesmo não pode se falar das laterais. Tamires é uma das nossas jogadoras mais talentosas, mas mostra que já não tem a vitalidade de outrora para jogar na lateral. Pelo menos do jeito que Pia Sundhage deseja. Não é por acaso que Arthur Elias vem utilizando a jogadora de 33 anos no meio-campo.

É compreensível e louvável que Pia Sundhage busque jogadoras polivalentes e que saibam cumprir mais de uma função em campo. O problema é que a improvisação acaba mais enfraquecendo a Seleção Feminina do que oferecendo mais opções para a treinadora sueca. Se tomarmos como base a lista anunciada nesta sexta-feira (21), é muito possível tirar dela uma equipe forte, consistente e equilibrada em todos os setores. Imaginem uma equipe montada num 4-3-1-2 com Marta na ponta do losango, Tamires e Júlia Bianchi no meio-campo e Ludmila voltando pela direita e se juntando a Debinha no comando de ataque. Mais atrás, Letícia Santos (caso esteja plenamente recuperada de lesão no ligamento do joelho) pode somar experiência e vitalidade junto com Jucinara nas laterais. E no gol, este que escreve apostaria em Lelê, goleira mais acostumada a jogar com os pés e já provou seu valor mais de uma vez.

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Apesar dos questionamentos, a lista de convocadas para a Seleção Feminina traz opções interessantes e jogadoras de muita qualidade. A questão é saber como encaixar os talentos e características de cada uma numa equipe coesa, consistente e equilibrada em todos os setores.

Ainda podemos pensar em Adriana vindo pela esquerda num 4-4-2 mais ortodoxo e Bia Zaneratto abrindo espaços para Debinha e Marta entrando em diagonal num 4-3-3. Seja como for, é evidente que estamos falando de um time com muito mais fluidez e mobilidade do que aquele que disputou a She Believes Cup em fevereiro desse ano. Mesmo assim, a tendência é que Pia Sundhage siga com Tamires na lateral e Marta no lado do campo mesmo sabendo que as duas já não têm a mesma vitalidade de antes. E as coisas ficam ainda mais confusas quando a treinadora sueca ignora solenemente as grandes atuações de Bruna Calderan e Katiuscia, as duas jogadoras que mais se destacam na lateral-direita no futebol feminino no país. As improvisações com Bruna Benites e Camilinha na posição falam por si só. Difícil não concluir que a treinadora sueca escolheu esperar por Letícia Santos até o último momento e não testar nenhuma outra jogadora.

Por mais que a pandemia de COVID-19 tenha prejudicado a preparação de todas as seleções que vão disputar a medalha de ouro em Tóquio, a impressão deste que escreve (e de muitos outros também) é a de que Pia Sundhage perdeu grandes oportunidades de testar jogadoras em melhores condições físicas e técnicas desde o momento em que assumiu o comando da Seleção Feminina. Mesmo comparecendo em uma série de partidas do Brasileirão Feminino para a suas conhecidas observações junto com a sua comissão. O próprio contexto dos Jogos Olímpicos pede simplicidade e objetividade. É exatamente por isso que não é exagero afirmar que o caminho escolhido foi o do improviso, o da dúvida e o da aposta numa geração que se prepara para a sua “Última Dança” em detrimento de uma série de ótimos nomes que poderiam agregar muito mais do que muitos nomes escolhidos pela treinadora sueca nessa sexta-feira (21).

Existe a possibilidade do Brasil chegar longe em terras nipônicas sim. O futebol é extremamente dinâmico e muita coisa pode acontecer até o início das competições na capital japonesa. A questão aqui, no entanto, é insistir em pontos que já se mostraram equivocados em outros momentos. A conclusão é simples. Se a Seleção Feminina chegar longe nos Jogos Olímpicos, será muito mais por conta da sorte e do talento individual do que por conta do seu planejamento. Que os deuses queiram que este colunista esteja errado.

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