Sereias da Vila dão aula de intensidade na marcação e conseguem segurar o forte ataque do Palmeiras

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação das equipes comandadas por Christiane Lessa e Ricardo Belli

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Jhon Silva / Twitter / Palmeiras Feminino

A equipe de Christiane Lessa já havia “cometido o crime” contra o Corinthians último dia 2 de maio. As Sereias da Vila se fecharam num 4-1-4-1 bem compactado e exploraram os pontos fracos de um adversário mais qualificado individualmente e muito mais entrosado. A estratégia foi repetida neste domingo (16) contra o fortíssimo Palmeiras de Ricardo Belli. Marcação mais baixa, meio-campo forte na marcação e muita leitura dos espaços para incomodar bastante o líder do Brasileirão Feminino Série A1. A partida na Vila Belmiro terminou empatada sem gols e, enquanto as Sereias da Vila tiveram fôlego para equilibrar os duelos, as Palestrinas não tiveram vida lá muito fácil. Acabou que o resultado foi o mais justo diante do que Santos e Palmeiras apresentaram. Mas o grande destaque dos noventa e poucos minutos de jogo foi (mais uma vez) o sistema defensivo da equipe de Christiane Lessa.

Já era de conhecimento de todos que o Palmeiras de Ricardo Belli iria adotar uma postura ofensiva desde o início da partida na Vila Belmiro. O treinador das Palestrinas apostou novamente no seu 4-4-2 básico de muita movimentação no último terço com Chú acelerando a partir do lado esquerdo e se juntando a Bia Zaneratto no comando de ataque. Ao mesmo tempo, Belli apostou em meias que jogavam com os pés trocados que centralizavam e abriam o corredor para Bruna Calderan à direita e Camilinha pelo outro lado. Tudo para criar superioridade numérica no campo das Sereias da Vila ou tentar o chute de média distância caso a equipe não conseguisse furar o eficiente bloqueio defensivo da equipe de Christiane Lessa. O Palmeiras tinha a bola, criava chances, mas mostrava uma certa afobação. Bia Zaneratto e Chú estiveram com a faca e o queijo na mão, mas falharam na frente da goleira Michelle.

Ricardo Belli armou seu Palmeiras no seu 4-4-2 costumeiro com muita força ofensiva pelos lados do campo e bastante velocidade no terço final. O problema estava na afobação das jogadoras na hora de concluir a gol e no último passe. As Palestrinas poderiam ter caprichado um pouco mais. Foto: Reprodução / MyCujoo

Depois de um início marcado pelo domínio do Palmeiras, a equipe de Christiane Lessa começou a equilibrar as ações na partida adotando uma tática simples. Com Ketlen mais solta (e trocando de posição a todo momento com Erikinha, Cristiane e Amanda Gutierres), as Sereias da Vila começaram a explorar o lado esquerdo da defesa das Palestrinas. Era lá que Camilinha jogava improvisada mais uma vez e mostrava muitas dificuldades para fechar o espaço entre ela e a zagueira Rafaelle. Difícil entender o objetivo de Ricardo Belli ao escalar a camisa 9 na lateral-esquerda quando Katrine fez grandes jogos nessa função. Pode ser que a presença de Pia Sundhage na Vila Belmiro possa ter influenciado o treinador palmeirense a escalar Camilinha por ali. Seja como for, a formação mais enfraqueceu o sistema defensivo do Palmeiras do que impressionou a treinadora da Seleção Brasileira Feminina.

Com Ketlen, Cristiane e Amanda Gutierres se movimentando bastante no ataque, as Sereias da Vila levaram perigo a partir das bolas lançadas às costas de Camilinha (que jogava como lateral). A camisa 9 não conseguiu fechar o lado esquerdo do Palmeiras e apareceu muito pouco no campo ofensivo. Foto: Reprodução / MyCujoo

Além do trio ofensivo, Maria Dias e Bruninha também subiam com frequência ao ataque e forçavam as jogadas em cima de Bruna Calderan (que teve atuação discreta no jogo) e Camilinha. Ricardo Belli esperou o intervalo para corrigir o equívoco na escalação inicial, com a entrada de Duda Santos no lugar de Chú e o deslocamento da camisa 9 para o meio-campo. O Palmeiras ganhou volume de jogo e tentou buscar aquele que seria o gol da vitória com Carol Baiana e Rafa Andrade nas vagas de Júlia Bianchi e Bruna Calderan. O problema é que as Sereias da Vila seguiam marcando muito forte e concediam pouco. Quando as Palestrinas finalmente conseguiam superar o bloqueio defensivo do escrete de Christiane Lessa, a goleira Michelle estava lá para salvar a pátria santista ou as atacantes falhavam nas finalizações. O gol perdido por Ary Borges após belíssimo passe de calcanhar de Bia Zaneratto é emblemático.

Duda Santos melhorou a produção ofensiva do Palmeiras e permitiu que Ricardo Belli organizasse melhor sua equipe em campo. No entanto, as Palestrinas mostraram muitas dificuldades para transformar a superioridade em gols. Mesmo quando o bloqueio defensivo das Sereias da Vila era superado. Foto: Reprodução / MyCujoo

Difícil não notar que o Palmeiras cresceu quando as Sereias da Vila perderam o fôlego. Mesmo assim, a equipe de Christiane Lessa ainda criou boas oportunidades no final da partida (exatamente quando foi a vez das Palestrinas sentirem o ritmo frenético do jogo na Vila Belmiro). O empate sem gols pode não ser o resultado preferido de muita gente, mas nem isso esconde a a atuação coletiva bastante consistente do Santos. A equipe parece estar encontrando um jeito de jogar interessante e que ajuda a equilibrar as ações quando enfrenta oponentes mais fortes, como o Corinthians de Arthur Elias e o Palmeiras de Ricardo Belli. E falando do escrete alviverde, fica a certeza de que o nível de exigência deve aumentar ainda mais nas próximas rodadas do Brasileirão Feminino. A qualidade individual das Palestrinas é muito grande. Mas só isso não é suficiente. Não contra os times do primeiro escalão.

Embora criticada por este que escreve no início da competição, Christiane Lessa vem fazendo um trabalho bom à frente das Sereias da Vila e encontrando soluções interessantes para deixar seu elenco mais competitivo. As atuações contra o Corinthians e o Palmeiras (as duas melhores equipes do país) provam essa tese. Não é qualquer time que consegue segurar corintianas e Palestrinas com tanta qualidade e consistência. Méritos de “Coach” Lessa.

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