Aplicação tática e intensidade na marcação foram os grandes trunfos das Sereias da Vila na vitória sobre o Corinthians

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira explica como o Santos de Christiane Lessa explorou os problemas da equipe de Arthur Elias no jogo deste domingo (2)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Santos Futebol Clube

Após a vitória sobre o Napoli-SC na rodada de abertura do Brasileirão Feminino, este que escreve se questionava se o Corinthians ainda era o time a ser batido no país (mesmo com a eliminação surpreendente na Libertadores Feminina). Não era nenhum pouco difícil imaginar que o escrete de Arthur Elias estava sendo estudado por todos os treinadores dos clubes que disputam a Série A1. E a vitória das Sereias da Vila neste domingo (2) foi o exemplo de atuação de uma equipe que estudou muito bem seu (fortíssimo) adversário e explorou as suas deficiências com muita eficiência e aplicação tática. Inclusive, não é exagero nenhum afirmar que o Santos de Christiane Lessa poderia até ter vencido o Clássico Alvinegro por uma diferença ainda maior de gols. É o tipo de atuação (e de resultado) que deve ser vir de modelo e incentivo para as Sereias da Vila na sequência da competição.

Antes de mais nada, é preciso dizer que a técnica Christiane Lessa conseguiu tirar o máximo de cada jogadora do Santos em termos técnicos e táticos. Mesmo com as improvisações de Fê Palermo e da ótima Brena no lado esquerdo da defesa e com o Corinthians forçando o jogo naquele setor com bolas longas para Gabi Portilho e Katiuscia. O diferencial aqui era a fibra com que as Sereias da Vila fechavam cada espaço diante de um adversário sem a intensidade necessária para fazer a bola chegar em Vic Albuquerque e Crivelari. Conforme a equipe de Christiane Lessa foi se achando em campo, o Peixe foi avançando as suas linhas e forçando o erro de Pardal, Poliana e companhia. Posse recuperada, Rita Bove acelerava o jogo com Ketlen, Maria Dias e Amanda Gutierres se movimentando demais entre as linhas e aproveitando a noite apagadíssima de Andressinha. O Santos jogava com uma aplicação tática imensa.

As Sereias da Vila aproveitaram a atuação ruim do Corinthians com muita intensidade nos movimentos ofensivos. Rita Bove recebia a bola e já acionava Ketlen, Maria Dias e Amanda Gutierres se lançando nos espaços que surgiam na defesa do escrete de Arthur Elias. Foto: Reprodução / BAND

Vale destacar também o trabalho tático feito por Bruninha na lateral-direita e por Erikinha se juntando a Ketlen, Maria Dias e Amanda Gutierres num quarteto ofensivo de muita mobilidade no terço final. Ao mesmo tempo, o trabalho da equipe de Christiane Lessa sem a bola também foi importantíssimo na construção da vitória deste domingo (2). Por mais que o Corinthians tenha muita qualidade, fato é que as comandadas de Arthur Elias tiveram uma noite para ser esquecida na Vila Belmiro. Toda a pressão realizada pelas Sereias da Vila era em cima da camisa 20. Ketlen recuperava a posse e Erikinha, Amanda Gutierres e Maria Dias se projetavam no espaço vazio para receber o passe em profundidade. E os problemas não paravam por aí. Tamires sofria com as descidas de Bruninha pelo seu lado. Andressinha não conseguia dar qualidade na saída de bola. E Grazi ficou isolada na frente junto com Vic Albuquerque.

Andressinha era o “alvo” das Sereias da Vila na saída de bola. A camisa 20 do Corinthians não teve paz no primeiro tempo e sofreu com a pressão de Ketlen, Maria Dias e Rita Bove ainda na intermediária defensiva. Ótimo trabalho tático do Santos e ótima sacada de Christiane Lessa. Foto: Reprodução / BAND

Ketlen e Maria Dias obrigaram a goleira Kemelli a realizar dois milagres na Vila Belmiro (onde andam aqueles que diziam que era preciso “diminuiu o tamanho do gol” no futebol feminino?) antes da camisa 7 abrir o placar aos 40 minutos do primeiro tempo. Após o intervalo, Arthur Elias mandou Gabi Zanotti, Diany e Adriana para o jogo, mas não conseguiu resolver os problemas do Corinthians na compactação no meio-campo e na saída de bola. Tanto que, aos oito minutos do segundo tempo, Amanda Gutierres recebeu bola longa e conseguiu vencer a dividida com a zagueira Érika. A camisa 19 das Sereias da Vila apenas rolou a bola para Brena (que havia saído da lateral para jogar à frente da zaga santista) acertar um belo chute de fora da área. Nesse lance, é bem possível notar como Christiane Lessa conseguiu armar sua equipe com muito volume de jogo. Não é sobre ter a bola. É sobre o que se deve fazer com ela.

Amanda Gutierres consegue vencer Érika na dividida e faz o trabalho de pivô com maestria antes de rolar a bola para Brena marcar o segundo gol das Sereias da Vila. O Corinthians não conseguia se encontrar em campo e pouco ameaçou o gol de Michelle durante a partida. Foto: Reprodução / BAND

O pênalti desnecessário de Rita Bove e convertido por Adriana deu a impressão de que o Corinthians fosse voltar para o jogo, mas as Sereias da Vila mantiveram a intensidade nas transições e seguiram levando muito perigo nos contra-ataques. Cristiane foi para o jogo e ajudou na construção das jogadas com a sua já conhecida qualidade e visão de jogo. E para coroar a atuação do escrete comandado por Christiane Lessa, a impressão que ficou após o apito final foi a de que o Santos poderia até ter vencido por uma margem maior de gols se o sistema ofensivo tivesse um pouco mais de felicidade nas finalizações (méritos da goleira Kemelli nesse sentido). Ao mesmo tempo, também é preciso falar da ótima atuação da linha defensiva do Santos. Mesmo com as improvisações já mencionadas anteriormente e as mexidas durante a partida, Camila Martins, Fê Palermo e companhia conseguiram se impor contra o forte ataque corintiano.

A técnica Christiane Lessa vem conseguindo colocar seu estilo no Santos. A equipe da Vila Belmiro mostrou mais organização e mais aplicação tática do que na partida contra o Minas Brasília. E a única dúvida que fica é se Mari Dias, Erikinha e Amanda Gutierres vão ser aproveitadas no time titular mesmo com o retorno de Byanca Brasil e da recuperação completa de Cristiane. Para manter esse jogo intenso e de alta velocidade, é preciso ter jogadoras que entreguem aquilo que a treinadora deseja dentro de campo.

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