Tite mantém a base na Seleção Brasileira e prioriza entrosamento e modelo de jogo em mais uma convocação

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a lista de convocados para os jogos contra Paraguai e Equador pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2022

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

Toda convocação de Seleção Brasileira vai gerar controvérsias e protestos de todos os lados. Há aqueles que reclamam da ausência e/ou presença de determinado jogador e há aqueles que protestam contra o fato de ver seu time do coração desfalcado nas principais competições do país. Seja como for, convocar uma seleção nos nossos dias (e com todo o contexto imposto pela pandemia de COVID-19 ainda bastante presente em nosso país) é um processo que requer estudo atenção e convicção naquilo que se está fazendo. É exatamente por isso que precisamos reconhecer que o trabalho realizado por Tite tem sim uma certa coerência com relação ao modelo de jogo que o treinador escolheu para o escrete canarinho. É bem possível aplaudir ou discordar desta ou daquela escolha. Mas está cada vez mais claro que já existe um caminho, um jeito de jogar bem claro e que pede atletas com características específicas.

Tite já mostrou nas últimas partidas da Seleção Brasileira que pretende manter seu “jogo de posição” e a famosa inversão do 4-1-4-1 para o 2-3-5 com muita intensidade nas transições e com jogadores que saibam controlar bem a profundidade e a amplitude em todos os setores. Só que para que esse sistema seja bem compreendido e bem executado, é preciso um certo conhecimento prévio. Não é por acaso que nomes como Éder Militão, Gabriel Jesus, Richarlison e Lucas Paquetá se juntaram a veteranos como Daniel Alves e Thiago Silva. Tudo é feito para que se gaste o menor tempo possível com entrosamento e compreensão das ideias do seu treinador. Vale lembrar que o período de treinamento disponível é muito curto. Não é por acaso que Tite fez escolhas baseadas nesse modelo de jogo. A frase “futebol é momento” não se encaixa mais quando o assunto é o entrosamento e a preparação da Seleção Brasileira.

Quem chega e quem sai dos clubes?

 

Ao mesmo tempo, o técnico do escrete canarinho mostra que está atento ao que acontece no futebol. Se assim não fosse, o zagueiro Lucas Veríssimo e o volante Fred não estariam na lista de convocados. Não é exagero nenhum afirmar que o primeiro acertou o sistema defensivo do Benfica e vem se adaptando muito bem ao estilo de jogo ultraofensivo de Jorge Jesus com ótimo posicionamento, boa saída pelo chão e muita força nas bolas aéreas. Já o jogador do Manchester United se transformou numa das principais peças do time comandado por Ole Gunnar Solskjaer e vem sendo bastante elogiado pela imprensa inglesa. Pode até ser que Fred seja o tal “ritmista” que Tite tanto buscou para a disputa da Copa do Mundo da Rússia, em 2018. A saída rápida pelo chão e o passe “quebra-linhas” são algumas das características do volante que se encaixam muito bem no modelo de jogo adotado pelo treinador do escrete canarinho.

Mas também existem as controvérsias. E elas estão diretamente ligadas ao lateral Alex Sandro e ao meia Everton Ribeiro. O jogador da Juventus não passa por um bom momento (assim como quase toda “La Vecchia Signora”) e já não passa a segurança na defesa e a firmeza no apoio bem conhecidas de outros tempos. Já o camisa 7 do Flamengo parece sentir um pouco o excesso de jogos e está em nítida queda física e técnica. Não que ER7 tenha “desaprendido”. Muito pelo contrário. O problema é que o jogador não conseguiu render o que se espera dele nas últimas partidas da sua equipe. Uma coisa é render jogando o Campeonato Estadual. Outra é ficar devendo nos jogos de exigência maior. Guilherme Arana (que está na Seleção Olímpica) é um que poderia receber uma chance. Assim como Raphael Veiga, que está em ótima fase no Palmeiras. Ou até mesmo Filipe Luís, que vem jogando o fino no mesmo Flamengo de Everton Ribeiro.

É possível se pensar numa Seleção Brasileira forte e consistente mesmo com os problemas e questionamentos apontados por muitos. E tudo dentro do 4-1-4-1/2-3-5 preferido por Tite. Lucas Paquetá e Douglas Luiz podem ocupar bem o meio-campo (logo à frente de Casemiro) com Daniel Alves se juntando ao meio-campo como “lateral construtor” quando a equipe estiver com a posse da bola. Vinícius Júnior jogaria pela direita (onde não se sente tão confortável) entrando em diagonal para aproveitar a movimentação de Richarlison. Do outro lado, Renan Lodi abriria o campo como autêntico “ponta-esquerda” e Neymar se juntaria ao meio-campo para organizar as jogadas de ataque. Tudo com muito volume de jogo, linhas altas de marcação e muita intensidade em cada movimento para que o escrete canarinho não perca equilíbrio entre seus setores. Mesmo com as controvérsias, a Seleção Brasileira ainda é forte.

Selecao Brasileira - Football tactics and formations

Lucas Paquetá e Douglas Luiz podem fazer a bola girar com muita qualidade no meio-campo da Seleção Brasileira e Vinícius Júnior pode ser muito útil entrando em diagonal pelo lado direito. Ao mesmo tempo, Daniel Alves seria o grande responsável pela construção das jogadas saindo da lateral para jogar mais por dentro.

A qualidade dos jogadores chamados por Tite permite que outras variações sejam utilizadas. Há como se pensar num 4-4-2 com Neymar saindo da esquerda para dentro. Ou até mesmo num 3-4-1-2 com Gabriel Jesus e Richarlison abrindo espaços no terço final. A única certeza é a de que a Seleção Brasileira chega forte para os jogos contra Paraguai e Equador e ainda é uma das melhores do mundo apesar de todas as controvérsias, protestos e críticas que surgiram e que vão surgir nos próximos dias. Este que escreve sabe muito bem que é impossível agradar a todos na vida. Imagine no velho e rude esporte bretão. Tite, por sua vez, já escolheu seu modelo de jogo e vai buscar os jogadores que melhor se adequam aos seus conceitos com e sem a bola. E a prova de que o técnico da Seleção Brasileira vem se adaptando às circunstâncias é a convocação de Lucas Veríssimo e Fred para os próximos jogos das Eliminatórias.

O objetivo é a conquista da sexta Copa do Mundo. Isso está mais do que claro. Por mais que se possa questionar essa ou aquela escolha de Tite com relação aos nomes convocados e ao próprio modelo de jogo implementado na Seleção Brasileira, é muito fácil perceber uma coerência nos nomes chamados e no trabalho que vem sendo realizado. Mesmo que o resultado não seja o esperado.

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