ABC supera o América de Natal em clássico recheado de alternativas, lances de emoção e boas ideias

Luiz Ferreira explica como Moacir Júnior venceu o duelo de estratégias com Daniel Neri no Clássico Rei desse domingo (20) aqui na coluna PAPO TÁTICO

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Andrei Torres / ABC Futebol Clube

Este que escreve defende a ideia de que precisamos olhar para o que acontece em outros centros do futebol nacional com mais carinho há algum tempo. Existe muita coisa boa sendo feita em outros estados e em competições menos badaladas do nosso velho e rude esporte bretão. A vitória do ABC sobre o América de Natal neste domingo (20), em partida válida pelo Brasileirão da Série D, é um bom exemplo disso. Alternativas táticas, duelo de estratégias entre os técnicos Moacir Júnior e Daniel Neri e emoção do início ao fim do Clássico Rei. A lamentar somente a ausência do público na Arena das Dunas por conta da pandemia de COVID-19 e da necessidade de se evitar aglomerações. Tudo por conta da qualidade apresentada por ABC e América de Natal. Mais uma prova de que faz muito bem olhar para outros estados do país em busca de qualidade e boas ideias. O futebol brasileiro só tem a agradecer.

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É preciso dizer que quem começou melhor a partida deste domingo (20) foi o América de Daniel Neri. Organizado num 4-2-3-1/4-4-2 bem compactado e com saída rápida pelo chão, o Mecão foi controlando bem o ABC e alternava a troca de passes no meio-campo com marcação em bloco mais baixo para aproveitar o espaço às costas dos laterais Netinho e Bruno Souza. Já o ABC de Moacir Júnior demorou um pouco para se encontrar na partida. Por mais que Vinícius Paulista recuasse para fazer a famosa “saída Lavolpiana” entre os zagueiros do Elefante, a equipe demorou muito para entender a movimentação do setor ofensivo do seu grande rival. Depois que Esquerdinha abriu o placar em belíssima cobrança de falta (logo aos seis minutos de partida), Daniel Neri fechou o América de Natal com duas linhas à frente da área do goleiro César Tanaka e passou a cadenciar mais o jogo na Arena das Dunas.

Daniel Neri fechou o América de Natal com duas linhas com quatro jogadores na frente da área depois que Esquerdinha abriu o placar na Arena das Dunas. O ABC, embora bem organizado dentro de campo, demorou para entender e assimilar os movimentos do seu rival. Foto: Reprodução / TV Brasil

O gol de Helitão (marcado aos 19 minutos do primeiro tempo após falha do goleiro César Tanaka) recolocou o ABC na partida e expôs os problemas defensivos do América de Natal. A equipe comandada por Daniel Neri tinha mais posse de bola, buscava mais a saída de bola limpa, mas errava demais. O panorama não mudou muito depois do intervalo. O Mecão tomava a iniciativa e o ABC esperava o momento certo para encaixar os contra-ataques. Mesmo com Boaventura aproveitando falha do goleiro Jerfesson para fazer o segundo da equipe alvirrubra (e com o atacante Max desperdiçando ótima chance de ampliar o placar), o Elefante manteve a estratégia do técnico Moacir Júnior: ultrapassagens, viradas de jogo e jogadas em profundidade. Aos 14 minutos do segundo tempo, Bruno Souza fez o lançamento longo para Levi. Este só ajeitou para Netinho colocar a bola na cabeça de Valderrama. Belo gol.

O ABC empatou a partida partindo das premissas do técnico Moacir Júnior. Intensidade nas transições, virada de jogo e muita profundidade com seu 4-1-4-1. Do outro lado, o América de Natal seguia com sérios problemas defensivos e pagava o preço pelas chances perdidas. Foto: Reprodução / TV Brasil

A impresão que ficou depois do (belo) gol de Valderrama foi a de que o América de Natal sentiu o golpe. A bola já não saía mais limpa para o meio-campo como no primeiro tempo e o técnico Daniel Neri não conseguia fazer sua equipe recuperar a consistência no meio-campo. Muitos desses problemas foram causados pela maneira como o ABC posicionou as suas linhas depois de empatar a partida pela segunda vez. O objetivo de Moacir Júnior era claro: tirar o espaço dos volantes do seu adversário e dificultar a vida dos zagueiros Boaventura e Élton na saída de bola. Ao mesmo tempo, Denner, Rodrigo Fumaça e Felipe Manoel melhoraram o desempenho do Elefante nesses momentos finais da partida na Arena das Dunas. As chances diminuíram e a tensão aumentou, é verdade. Mas o gol de Marcos Antônio aos 50 minutos do segundo tempo foi o prêmio para a equipe que melhor entendeu cada situação que o jogo apresentou.

Moacir Júnior avançou as linhas do 4-1-4-1 utilizado por ele no ABC de modo a isolar os volantes Erivan e Willian Daltron da linha defensiva do América de Natal. A partir daí, o Mecão começou a encontrar muitas dificuldades para fazer a bola chegar limpa no ataque. Foto: Reprodução / TV Brasil

Acabou que o ABC venceu o Clássico Rei com a justiça e a certeza de que foi a equipe que melhor se comportou dentro de campo. Moacir Júnior começou a vencer o duelo tático com Daniel Neri a partir do momento em que entendeu que era preciso isolar os volantes da primeira linha do América de Natal. As viradas de jogo, as bolas longas às costas dos laterais e o ótimo volume de jogo na metade final do segundo tempo também ajudaram o Elefante numa partida complicada e recheada de emoção. Ainda que a Série D esteja no início e que o nível apresentado nela seja bem inferior ao visto nas séries A e B, a grande verdade é que temos sim coisas boas sendo realizadas em centros menos badalados do nosso futebol. Não somente pela boa vitória do ABC sobre o América neste domingo (20), mas pela quantidade de pessoas que trabalham todos os dias para manter esses clubes tradicionalíssimos em atividade.

Além dos principais clubes do Rio Grande do Norte (um dos lugares mais bonitos que já visitei), equipes como Castanhal, Brasiliense, Joinville, Uberlândia, Retrô, Guarany de Sobral e várias outras também vem apresentando um futebol interessante nessa Série D. Equipes com histórias completamente diferentes uma das outras, mas que comprovam a tese deste colunista sobre a qualidade do futebol de outros centros. Afinal, o velho e rude esporte bretão não se resume à Série A.

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