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França deixa recado curto e grosso em vitória sobre a Alemanha: vai ser muito difícil vencê-la

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação das seleções comandadas por Didier Deschamps e Joachim Löw no jogo desta terça-feira (15)

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / UEFA EURO 2020

Poucas seleções mostraram tanta consistência e tanta solidez nesses últimos meses como a França, a atual campeã da Copa do Mundo e uma das grandes favoritas ao título da Eurocopa 2020. Há quem reclame da postura mais pragmática (e reativa) do escrete comandado por Didier Deschamps. É verdade que “Les Bleus” não chegam a empolgar os amantes do velho e rude esporte bretão. Mas resumir a atuação de Mbappé, Griezmann, Benzema, Kanté e companhia a isso é ignorar completamente a maneira como a equipe construiu a vitória sobre uma Alemanha desorganizada e surpreendentemente apagada. Nível físico de excelência, jogo coletivo de (alta) qualidade, força, concentração e muita maturidade para lidar com cada situação que o jogo apresenta dentro de campo. Além disso tudo, o jogo desta terça-feira (15) foi um recado curto e grosso para todo o mundo do futebol: será MUITO DIFÍCIL vencer a França. Pelo menos nessa Eurocopa.

É preciso dizer que a equipe comandada por Didier Deschamps já trazia consigo a vantagem do entrosamento e do entendimento de uma proposta de jogo clara, eficiente e vencedora (gostem dela ou não). Linhas mais baixas na frente da área, muita marcação na intermediária (com o “pequeno gigante” Kanté se multiplicando em campo) e intensidade altíssima nas transições e contra-ataques puxados por um Mbappé que se mostra cada vez mais maduro para assumir o protagonismo. A vantagem no placar foi conquistada logo aos 19 minutos do primeiro tempo com jogada que começou de uma trivela lindíssima de Pogba que achou Lucas Hernández na esquerda antes de Hummels escorar contra o próprio gol. Chamava a atenção a maneira como a França executava bem os movimentos do 4-3-3/4-1-4-1 de Didier Deschamps quando a Alemanha tinha a bola e iniciava as jogadas de ataque. Consistência e bom jogo coletivo.

A França se fechava no 4-3-3/4-1-4-1 preferido de Didier Deschamps com Mbappé acelerando nos contra-ataques e procurando Griezmann e Benzema no campo ofensivo. Mais atrás, Kanté cuidava da marcação e os volante Pogba e Rabiot cuidavam da saída de bola. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

A Alemanha (organizada num 3-4-2-1 com Kimmich praticamente excluído da criação das jogadas e com o trio ofensivo formado por Müller, Gnabry e Havertz estático e sem intensidade na movimentação ofensiva) simplesmente não conseguia transformar os 62% de posse de bola em oportunidades de balançar as redes. Fora isso, a equipe de Joachim Löw deixava a marcação muito frouxa e só facilitava a vida de Mbappé, Benzema e companhia. Mas o grande problema do escrete germânico estava no meio-campo. Toni Kroos e Gündogan ficaram sobrecarregados na saída de bola e ainda tinham que se virar para proteger a última linha (que esteve bem descoordenada em determinados momentos), já que Gnabry e Havertz pouco auxiliavam na recomposição defensiva. A França parecia sempre estar um passo à frente do seu adversário e conseguia sair da pressão germânica com relativa facilidade com a bola pelo chão.

Toni Kroos e Gündogan não recebiam a ajuda do trio de atacantes do escrete comandado por Joachim Löw e sobrecarregaram os dois volantes na marcação. A França esteve sempre um passo à frente em quase todos os momentos do jogo na Arena de Munique. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

A França diminuiu um pouco o ritmo depois de abrir o placar e permitiu que a Alemanha chegasse com perigo no segundo tempo com Gnabry (duas vezes) e Toni Kroos. Foi a senha para que Didier Deschamps trouxesse as linhas da França para mais próximo da área de Lloris e apostasse nos contra-ataques envolvendo os passes precisos de Griezmann, os lançamentos de Pogba e a velocidade de Mbappé. Do outro lado, a equipe comandada por Joachim Löw começava a sentir os efeitos desse “jogo de gato e rato” no meio-campo e abria ainda mais espaços entre suas linhas. Era tudo que a França queria. E o que mais chamava a atenção na partida desta terça-feira (15) era a maneira como o time comandado por Didier Deschamps conseguiu se organizar dentro de campo para explorar os espaços que a remexida Alemanha de Joachim Löw deixava entre suas linhas. Não é exagero nenhum afirmar que o escrete germânico saiu no lucro.

A equipe de Didier Deschamps manteve a organização defensiva e ainda levava muito perigo nos contra-ataques contra uma Alemanha descoordenada e sem consistência. Mbappé e Benzema deitaram e rolaram pra cima de Ginter, Hummels e Rüdiger nos contra-ataques. Foto: Reprodução / SPORTV / GE

E se ainda há quem considere que a França “apenas” pratica o jogo reativo, vale lembrar que a equipe comandada por Didier Deschamps teve dois gols anulados (com a ajuda do VAR) por impedimentos milimétricos. Além disso, a arbitragem ignorou pênalti de Hummels em cima de Mbappé em lance muito discutível. Na prática, “Les Bleus” controlaram o jogo e permitiram poucas chances para uma Alemanha que passa por um processo de “renovação forçada” dentro de campo e no banco de reservas. É verdade que Goretzka fez muita falta ao meio-campo germânico por conta da força física e da qualidade na distribuição dos passes, mas nem isso alivia o lado de Joachim Löw na construção da sua proposta de jogo. Ainda é difícil compreender os motivos que levaram o técnico alemão a deixar Kimmich tão longe do setor de criação. Ainda mais quando Toni Kroos e Gündogan estavam sobrecarregados na função.

O recado francês é muito claro. A equipe de Didier Deschamps pode não empolgar o torcedor ou apresentar um futebol vistoso. Mas é uma equipe altamente competitiva e que sabe como unir talento, força e concentração num estilo de jogo maduro e bem sedimentado. Será muito difícil superar essa França letal nos contra-ataques e extremamente sólida no seu sistema defensivo. Há como preferir outras maneiras mais propositivas. Mas é impressionante como a eficiência dessa seleção salta aos olhos.

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