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Histórico ouro do Brasil no vôlei masculino em Atenas-2004 completa 17 anos; veja a campanha do título

Além do ouro olímpico, Brasil teve um ciclo extremamente vitorioso e marcou época como uma das maiores seleções de vôlei de todos os tempos

Thiago Chaguri
Colaborador do Torcedores

Crédito: Getty Images

Craques. Dominantes. Eficientes. Vencedores. Sobram adjetivos e faltam linhas para descrever a seleção masculina de vôlei do ciclo olímpico de Atenas. O ouro na edição de 2004 foi a consagração definitiva de uma geração que marcou história no esporte. Encantou e cantou o hino nacional por 12 vezes no lugar mais alto do pódio em 15 competições disputadas desde 2001. Nas outras três oportunidades, foram dois vices e um terceiro lugar.

Campeã em Barcelona 1992, a seleção parou nas quartas de final nas duas participações posteriores, em Atlanta-1996 e Sidney-2000. Bernardinho treinava a equipe feminina e faturou o bronze nas mesmas edições.

Para retomar o caminho dourado, o técnico, conhecido por sua liderança e por ser muito estudioso, assumiu o naipe masculino em 2001. Logo de início, tirou o Brasil de um longo jejum. Há oito anos sem faturar a Liga Mundial (atual Liga das Nações), os comandados de Bernardinho emendaram três títulos em quatro anos. Além da edição de 2001, venceram a competição também em 2003 e 2004.

Já no segundo ano de trabalho, em 2002, veio o inédito título do Campeonato Mundial, competição mais importante depois dos Jogos Olímpicos. No ano seguinte, mais uma conquista: a Copa do Mundo, a terceira em hierarquia de relevância no vôlei. Com o troféu, o Brasil carimbou seu passaporte direto para Atenas.

O corte de Henrique e o heroico retorno de Nalbert

Henrique participou de grande parte daquele ciclo olímpico. Foi titular no Campeonato Mundial e participou dos títulos da Liga Mundial do período. No entanto, o central foi o último a sofrer o corte antes dos Jogos Olímpicos de 2004. Como forma de homenageá-lo, seus companheiros de equipe fizeram questão de levar sua camisa de número 5 para utilizá-la como uma espécie de amuleto, deixando-a exposta no vestiário antes dos jogos.

Diferente da situação de Henrique, Nalbert integrou a lista de Bernardinho. Em março, o ponteiro sofreu um rompimento no tendão do ombro esquerdo enquanto atuava pelo seu time, o Macerata, pelo campeonato italiano. O diagnóstico inicial era pessimista e indicava que o atleta poderia levar até oito meses para voltar às quadras. Após muita dedicação, dias e noites de esforço, heroicamente, conseguiu abreviar sua recuperação pela metade do tempo estipulado. Nalbert foi liberado para atuar já na segunda partida da fase de grupos da olimpíada.

Além do capitão, Rodrigão também teve sua participação na Grécia em risco. O central havia sofrido um edema ósseo na perna direita na reta final da Liga Mundial em Paris. Antes da viagem, o Brasil realizou testes finais contra a França. Recuperado, Rodrigão participou dos três amistosos e também garantiu seu passaporte à Vila Olímpica.

Os convocados e a pressão pelo ouro

A seleção, que acabara de vencer a Liga Mundial, estava preparada para embarcar rumo à Grécia. O desempenho e a dominância do time o credenciava como o principal favorito ao ouro. Torcida e imprensa cravavam a medalha como “certa”. Carregando uma pressão enorme, a comissão técnica fez questão de reforçar o preparo psicológico para que os atletas pudessem lidar da melhor forma possível com a alta responsabilidade.

Ainda em Paris, Bernardinho definiu o elenco para Atenas:

Levantadores: Maurício e Ricardinho
Líbero: Serginho
Opostos: André Nascimento e Anderson
Centrais: Gustavo, André Heller e Rodrigão
Pontas: Giba, Giovane, Dante e Nalbert (capitão)

Fase de grupos

Susto na estreia

Antes de adentrar à quadra, André nascimento pediu autorização para estender a camisa de Henrique no vestiário e Bernardinho concordou. O gesto foi repetido em todos os jogos da equipe, numa espécie de homenagem e amuleto da sorte.

O primeiro passo da caminhada dourada teve um pequeno susto, logo superado. Sacando muito bem, a Austrália surpreendeu e levou o primeiro set. Entretanto, o Brasil melhorou neste fundamento e abriu caminho para a recuperação. Com tranquilidade após o revés da primeira parcial, aplicou 3 sets a 1 (23/25, 25/19, 25/12, 25/21) e venceu na estreia.

Todos os atacantes titulares passaram dos dez pontos. Giba foi o destaque com 18, seguido por André Nascimento e o xará André Heller, ambos anotando 17. O ponteiro Dante e Rodrigão guardaram 13 e 10 respectivamente.

Os rivais em um dos melhores tie-breaks da história

Após altos e baixos de ambas equipes durante o jogo, o tie-break reservou um momento memorável no ginásio Paz e Amizade. Em uma parcial cheia de alternâncias no placar e momentos de emoção e superação, o set desempate – programado para terminar em 15 pontos ou até que alguma seleção abra dois pontos de diferença a partir dos 14 – acabou com vitória brasileira em 33/31, culminando num 3 sets a 2 (25/21, 15/25, 25/16, 21/25 e 33/31) em 2h10 de jogo. Giba foi novamente o principal pontuador, com 26.

A caminho do vestiário, Nalbert e Serginho se estranharam com o levantador italiano Valerio Vermiglio. Além de considerar alguns italianos esnobes, a rivalidade entre as duas seleções era a maior do vôlei na época.

O elo olímpico entre pai e filha

No dia anterior ao jogo contra a Holanda, Giba recebeu a notícia do nascimento de sua filha Nicoll. Uma emissora de TV em Curitiba propiciou imagens de Cristina Pirv – jogadora romena de vôlei e sua esposa à época – e Nicoll no quarto do hospital, emocionando e motivando ainda mais o ponteiro brasileiro.

Atuando no período da manhã pela primeira e única vez na competição, a seleção venceu os holandeses. 3 sets a 1, em 25/22, 24/26, 25/21 e 25/19. Assim, os jogadores ganharam uma pequena folga, sendo liberado para passeios e até o consumo moderado de cerveja.

Atuação “perfeita”

Contra a Rússia, forte candidata à medalha, o Brasil teve sua melhor atuação nos Jogos Olímpicos, segundo declaração do próprio Bernardinho. Mesmo tendo jogadores como o central Kazakov de 2,17m e o oposto Dineykin, com 2,15m, os brasileiros foram superiores nos bloqueios, anotando dez pontos no fundamento contra apenas cinco dos russos, donos da maior média de altura da competição, com 2,02m. O saque também foi um diferencial. Foram 5 aces brasileiros e nenhum do adversário.  A superioridade foi traduzida em números. As parciais do 3 sets a 0 foram de 25/19, 25/13 e 25/23. O central Gustavo Endres cravou 15 acertos, acompanhado de perto por Giba e Dante, com 14 cada.

A única derrota da competição

Já classificado em primeiro do grupo, Bernardinho optou por rodar o elenco. Giba foi poupado. Gustavo atuou somente um set. Ricardinho e o oposto André Nascimento jogaram as duas primeiras parciais. O levantador deu lugar ao veterano Maurício. Serginho permaneceu em quadra por tempo integral, pois era o único líbero do time. O experiente ponteiro Giovane, o oposto Anderson e Rodrigão marcaram 15 pontos cada na derrota para os Estados Unidos por 3 a 1 (22/25, 23/25, 25/18 e 22/25).

Superando o pesadelo

Chegou a hora da verdade. Quem perdesse, voltaria para casa. Em Atlanta e Sidney, a seleção havia caído nas quartas de final.

Antes do confronto, a comissão técnica exibiu um vídeo gravado por familiares e amigos dos jogadores. O intuito era motivar e mostrar a importância de cada um do grupo não somente como atletas, mas principalmente como pessoas. Giovane, campeão olímpico em 1992 junto de Maurício, pediu a palavra e ressaltou os esforços realizados pelo grupo. Todo esse clima positivo inflamou o elenco, que venceu o jogo por 3 a 0 (25/22, 27/25 e 25/18), superou o pesadelo brasileiro das duas últimas edições e se garantiu na semifinal. Giba e André Nascimento colaboraram com 15 e 14 pontos respectivamente.

Troco com juros e correção

Diante do único adversário que o derrotou, o Brasil impôs seu ritmo e não deu chances ao azar. Atropelou os Estados Unidos principalmente nos dois primeiros sets, ao vencer por 25/16 e 25/17. Na terceira parcial, os norte-americanos engrossaram o jogo e ensaiaram uma reação, mas não adiantou. O time de Bernardinho avançou à final ao fechar o set em 25/23. Dante puxou a pontuação com 15 e Giba veio logo em seguida, ajudando com 14.

É ouro! A consagração de um time histórico

Rivais, as equipes adentraram à quadra sob troca de olhares e sorrisos provocativos. Durante o jogo, Luigi Mastrangelo, central de 2,12m, tentava desestabilizar os brasileiros. Contudo, a equipe não se desconcentrou. Pelo contrário. Passou por cima dos italianos no primeiro set, aplicando 25/15. Cometendo muitos erros, a seleção verde e amarela viu o rival empatar após perder a parcial seguinte por equilibrados 26/24.

No entanto, a partir do terceiro set, a Azzurra não teve mais chances. O Brasil dominou as ações. Mostrando a força de um elenco para lá de acostumado a decisões, venceu os dois sets seguintes por 25/20 e 25/22 e o jogo por 3 sets a 1, faturando o bicampeonato olímpico, consagrando uma geração inesquecível e vitoriosa, cheia de personagens históricos do vôlei brasileiro.

Giba ganhou o prêmio de MVP (Jogador Mais Valioso) da final e do campeonato. Além das premiações, o ponteiro foi o principal pontuador da decisão, cravando 20 na quadra italiana. Gustavo com 14 e Dante com 13 tiveram grande contribuição. Ricardinho, além de grande exibição na final, também fez uma excelente competição, assim como o lendário líbero Serginho.

Mas para todos os jogadores, o destaque mesmo foi o grupo. A união, amizade, o apoio e a dedicação foram fatores fundamentais para a conquista, que eternizou o nome de uma das maiores seleções de vôlei da história.

CAMPANHA

Fase de grupos

15/08 – Brasil 3 x 1 Austrália (23/25, 25/19, 25/12, 25/21)

17/08 – Brasil 3 x 2 Itália (25/21, 15/25, 25/16, 21/25 e 33/31)

19/08 – Brasil 3 x 1 Holanda (25/22, 24/26, 25/21 e 25/19)

21/08 – Brasil 3 x 0 Rússia (25/19, 25/13 e 25/23)

23/08 – Brasil 1 x 3 Estados Unidos (22/25, 23/25, 25/18 e 22/25).

Quartas de final

25/08 – Brasil 3 x 0 Polônia (25/22, 27/25 e 25/18)

Semifinal

27/08 – Brasil 3 x 0 Estados Unidos (25/16, 25/17 e 25/23)

Final

29/08 – Brasil 3 x 1 Itália (25/15, 24/26, 25/20 e 25/22)

 

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