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A vitória sem sustos de Camarões sobre Moçambique e as boas ideias de jogo que vêm da África

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as ideias de Toni Conceição e Horário Gonçalves no jogo válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Facebook / Lions Indomptables Officiel

O ótimo Ponta de Lança é um dos únicos perfis das nossas redes sociais que trata de tudo aquilo que acontece na África referente a política, cultura e (principalmente) esporte. Ainda assim, possui um número de seguidores inversamente proporcional à importância da sua proposta. Trazer conhecimento e informação sobre um continente do qual ainda se dá muito pouca relevância não é tarefa das mais fáceis e este que escreve viveu um pouco dessa experiência nesta sexta-feira (9) com a vitória de Camarões sobre Moçambique em jogo válido pelas Eliminatórias da Copa do Mundo. Mais do que o triunfo sem muitos sustos dos “Leões Indomáveis” sobre os “Mambas”, a partida realizada no belo Japoma Stadium (localizado na cidade de Douala) nos apresentou algumas das boas ideias trabalhadas por algumas das principais seleções africanas. Tudo isso prova que há muita coisa interessante sendo realizada fora dos grandes centros do futebol mundial e que tudo isso merece espaço e voz ativa.

Comandado pelo português Toni Conceição, a seleção de Camarões entrou em campo organizada numa espécie de 3-4-1-2 de boa organização e que ganhava bastante profundidade com o avanço dos alas Tolo e Ngamaleu. Ao mesmo tempo, Choupo-Moting (atacante do Bayern de Munique e principal nome dos Leões Indomáveis) jogava como uma espécie de “enganche” atrás de Ekambi (companheiro de Lucas Paquetá e Bruno Guimarães no Lyon) e Aboubakar. Apesar da boa proposta de jogo, a equipe de Camarões só conseguia ser mais efetiva quando seus jogadores aceleravam as jogadas de ataque perto da área de Moçambique. Aos 15 minutos, Choupo-Moting desperdiçou ótima chance na frente do goleiro Ernan Siluane. Aos 28, no entanto, o camisa 13 aproveitou cruzamento da direita feito por Hongla e abriu o placar no Japoma Stadium. Difícil não observar em todo o lance a indecisão de Norberto e Martinho e a falta de intensidade do escrete moçambicano na marcação do seu adversário.

A equipe de Camarões entrou em campo organizada numa espécie de 3-4-1-2 com Choupo-Moting atuando como uma espécie de “enganche” e tendo muita liberdade de movimentação por todo o setor ofensivo. O camisa 13 abriu o placar no Japoma Stadium após cruzamento de Hongla. Foto: Reprodução / YouTube / FIFA TV

Moçambique, por sua vez, se defendia e atacava num 4-4-2 mais nítido com Miquissone e Shaquille pelos lados do campo e Gany Catamo e Dayo António formando a dupla de ataque. A postura adotada pela equipe do português Horácio Gonçalves tendia a ser mais reativa do que a de Camarões ainda que não conseguisse encaixar os contra-ataques que tanto buscou durante os noventa e poucos minutos de partida. O que se via era um amplo domínio dos Leões Indomáveis sem muitas dificuldades e sustos. Tanto que o escrete comandado por Toni Conceição voltou do intervalo com uma formação diferente dos primeiros 45 minutos. Ngameleu deixou a ala e passou a jogar mais por dentro como um volante pela esquerda numa variação do 3-4-1-2 para o 4-3-3. Com isso, Moukoudi (jogador que atua no Saint-Étienne) foi para a lateral-esquerda e Mbaizo (atleta que atua no Philadelphia Union) foi para o outro lado. Camarões aproveitava bem os espaços que encontrava no seu campo.

Ngameleu também jogava por dentro na variação do 3-4-1-2 para um 4-3-3 mais nítido em determinados momentos da partida. O time de Camarões encontrava muita facilidade para impor seu estilo de jogo diante de um Moçambique sem muitas ideias e qualidade com a posse da bola. Foto: Reprodução / YouTube / FIFA TV

Choupo-Moting marcou o segundo (em falha gritante do goleiro Ernan Siluane) aos seis minutos do segundo tempo e Toko Ekambi marcou o terceiro em bela cabeçada de manual após cruzamento da esquerda. Camarões controlava o jogo, variava sua formação em campo e apenas esperava o tempo passar depois de conquistar a boa vantagem no placar dentro de seus domínios. Vantagem essa que fez com que a equipe de Toni Conceição baixasse um pouco a sua concentração. Aos 35 minutos, Ngadeu-Ngadjui perdeu a bola na intermediária e viu o atacante Geny Catano (reserva no Sporting de Lisboa) fazer boa jogada e marcar o gol de honra de Moçambique. No entanto, ficava claro que a equipe de Horário Gonçalves só conseguiu levar perigo quando o time de Camarões baixou o nível de intensidade. A essa altura, os Leões Indomáveis já se fechavam em duas linhas com quatro jogadores na frente da área do goleiro Epassy Mboka e apenas esperavam o apito final para comemorar a importante vitória.

Camarões controlava bem as ações no campo e se fechava num 4-4-2 que concedia poucos espaços. Moçambique ainda tentou partir para o ataque na base do “abafa”, mas viu seus jogadores ficarem isolados uns dos outros com a falta de intensidade na movimentação no terço final. Foto: Reprodução / YouTube / FIFA TV

Este que escreve entende bem que o nível do futebol praticado na África é inferior ao dos grandes centros (principalmente na Europa) e que os Mambas concederam demais diante do escrete de Camarões. Mesmo assim, vale muito a pena observar o velho e rude esporte bretão de localidades com menos mídia e menos “grife” do que a América do Sul e a Europa. Por mais que os jogadores não tenham o mesmo nível e por mais que a estrutura não seja a mais adequada. Nomes como Ekambi, Choupo-Moting, Aboubakar, Moukoudi e vários outros já possuem experiência internacional e são fundamentais na difusão das ideias que aprendem e praticam em clubes como o Lyon, o Bayern de Munique e o Sporting mesmo não sendo titulares (em alguns casos). Moçambique pode não ter a mesma vivência no cenário internacional, mas tentou competir quando seu forte adversário baixou o nível de intensidade. As coisas poderiam ser diferentes se os atacantes mais cuidadosos com a pontaria e o último passe.

Camarões e Moçambique podem não ter protagonizado o jogo mais emocionante dos últimos tempos ou apresentado ideias extraordinárias de organização ofensiva e defensiva. Mas mostraram que o futebol praticado na África merece respeito, reconhecimento e espaço na imprensa. E assim como o excelente Ponta de Lança fez e faz com tanta paixão, este que escreve se debruçou sobre o continente para entender de uma vez que o esporte é de todos. Principalmente de quem o pratica e o adapta ao seu contexto (seja ele qual for).

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