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É preciso ir muito além do senso comum para entender o que provoca essa má fase do Palmeiras; confira a análise

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira destroi alguns mitos sobre o trabalho de Abel Ferreira e aponta a origem dos problemas da equipe nos últimos jogos

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: César Greco / SE Palmeiras

Quem acompanha o Palmeiras seja por paixão, ofício ou qualquer outro motivo sabe muito bem que o trabalho de Abel Ferreira vem sofrendo críticas ferozes nas últimas semanas. A equipe realmente não vem jogando bem apesar de ter se garantido na decisão da Libertadores e figurar na parte de cima da tabela do Campeonato Brasileiro. No entanto, ao contrário do que vem sendo amplamente falado e comentado na grande imprensa esportiva, os grandes problemas do Palmeiras não têm origem na construção de jogadas e na parte ofensiva. E para se identificar as causas, motivos, razões ou circunstâncias dessa má fase técnica do escrete comandado por Abel Ferreira, é preciso ir além do discurso mais raso que trata “apenas” de uma suposta falta de padrão ou repertório da equipe alviverde. Na verdade, a origem das atuações ruins e dos péssimos resultados das últimas semanas está naquele que é considerado um dos pontos mais fortes do trabalho do português à frente do Palmeiras.

Os números da equipe comandada por Abel Ferreira no Campeonato Brasileiro dizem muita coisa sobre o foco desta humilde análise. Em sete jogos, o Palmeiras teve um aproveitamento de apenas 23,8% dos pontos disputados (uma vitória, dois empates e quatro derrotas com oito gols marcados e 12 sofridos). É interessante notar que isso tudo vai de encontro ao discurso defendido por boa parte da imprensa esportiva, que trata o finalista da Libertadores como uma equipe forte na defesa e pobre de ideias no ataque. Este que escreve sempre ouviu que o trabalho de Abel Ferreira caminhava nesse sentido. De uma preocupação maior com o sistema defensivo e um estilo mais reativo de jogo baseado em contra-ataques, passes longos e ligações diretas para Dudu, Rony, Luiz Adriano e companhia brigarem lá na frente. Porém, ao nos debruçarmos sobre os números, vamos encontrar um Palmeiras que parece sofrer demais com uma certa fragilidade defensiva e com sérios problemas nesse setor.

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As últimas partidas nos apresentaram um Palmeiras extremamente frágil na defesa e com sérios problemas para cobrir os espaços entre seus defensores. A equipe de Abel Ferreira se transformou em presa fácil para equipes que aceleram bastante os passes no terço final ou que exploram as bolas longas nas costas da última linha. Foto: Reprodução / Premiere / GE

A atuação da equipe na goleada sofrida diante do Red Bull Bragantino escancarou todos esses problemas. E o que se via em campo era uma espécie de “reação em cadeia”: com a defesa falhando muito, o meio-campo e o ataque não se arriscam tanto nas tramas ofensivas com receio de perder a bola e proporcionar chances ao adversário. Com isso, o jogo do Palmeiras vai ficando previsível, lento e chato para quem assiste. Bem diferente do Palmeiras que controlou o Atlético-MG no jogo que colocou a equipe na decisão da Libertadores no famoso episódio do “vizinho chato” e dos desabafos de Abel Ferreira após a partida no Mineirão. Aliás, as últimas entrevistas coletivas do treinador português acabaram marcadas por críticas ao trabalho da imprensa esportiva e questionamentos sobre os problemas do Palmeiras dentro de campo. Problemas que respingam no escrete alviverde e que, ao invés de blindar os jogadores, colocam ainda mais pressão no trabalho do técnico português.

Seja como for, é muito difícil não perceber que a defesa (justamente um dos pontos mais fortes do Palmeiras nesses últimos anos) tem sido a grande dor de cabeça de Abel Ferreira. Os desfalques por lesões, suspensões ou convocações para seleções nacionais influenciam no desempenho dentro de campo com toda a certeza. Mas é preciso observar mais atentamente que a origem dos problemas mencionados anteriormente aqui neste espaço. Além de sofrer para conter as bolas longas por trás da última linha, o Palmeiras também sofre com os espaços entre zagueiros e laterais principalmente pelo lado esquerdo. Observem a jogada da maioria dos gols sofridos pelo escrete alviverde nas últimas sete partidas e vocês vão ver como os adversários conseguem penetrar na área de Weverton (ou Jailson) com certa facilidade e seguindo o mesmo roteiro. Um dos zagueiros sai para fazer a pressão no portador da bola e o lateral-esquerdo não cobre o setor, o que acaba abrindo buracos enormes no setor.

Seja com Jorge, com Renan jogando improvisado ou Piquerez, o lado esquerdo é um dos setores mais frágeis da equipe do Palmeiras. Além das bolas longas nas costas da última linha, o espaço entre laterais e zagueiros é facilmente explorado pelos adversários. As últimas atuações escancararam esse problema no sistema defensivo. Foto: Reprodução / TV Globo

Este colunista volta a bater na tecla do início desta análise. Não faz nenhum sentido afirmar que Abel Ferreira é um treinador retranqueiro, defensivo ou qualquer outra alcunha do gênero quando observamos os números e as últimas atuações do Palmeiras no Campeonato Brasileiro. Ao mesmo tempo, afirmar que o escrete alviverde “não tem padrão” ou que é “pobre de repertório ofensivo” é outro mito repetido à exaustão pela imprensa esportiva que deve ser destruído. Pode-se falar em problemas de execução das jogadas, erros na tomada de decisão e em outros pontos. Mas nunca dizer que não existe uma ideia de jogo. Na própria goleada sofrida diante do Red Bull Bragantino foi possível perceber a dinâmica ofensiva do Palmeiras atacando num 3-2-5 e com os jogadores buscando aproveitar o espaço às costas dos laterais adversários para chegar na linha de fundo. E mesmo sem uma referência na área em determinadas partidas, o Palmeiras conseguia ter presença na área e ser agressivo no ataque.

Há dinâmicas ofensivas bem claras no Palmeiras de Abel Ferreira. Os desenhos táticos variam bastante (do 4-2-3-1 para um 5-3-2 e até mesmo um 3-2-5) e seguem uma linha bem clara dentro do plano de jogo do treinador português, indo na direção contrária do discurso da “pobreza de ideias” e “falta de padrão” do escrete alviverde. Foto: Reprodução / TV Globo

Toda essa variação nas formações táticas (seja com três zagueiros, com um “falso lateral” pela esquerda ou no tradicional 4-4-2) são importantes em toda a construção das jogadas de ataque do Palmeiras de Abel Ferreira. Mesmo assim, vale destacar que jogadores importantes na campanha vitoriosa da Libertadores e da Copa do Brasil de 2020 ou estão em má fase técnica ou sofrem com problemas físicos, fatos que obrigaram o treinador português a apostar num ataque mais móvel com Dudu e Rony jogando mais à frente de Raphael Veiga. Nesse ponto, também é interessante notar que falta no elenco do Palmeiras um jogador que dite o ritmo das jogadas (como Allan faz no Atlético-MG ou Willian Arão e Filipe Luís fazem no Flamengo). Por mais que Patrick de Paula e Danilo sejam promissores, são muito mais infiltradores do que passadores. Mas a dinâmica ofensiva funciona. Sempre com um dos atacantes recuando para abrir espaço para a subida dos laterais/alas na linha de fundo ou em diagonal na direção do gol.

Dudu recua e lança Jorge no espaço aberto pela sua movimentação. Essa dinâmica ofensiva entre atacantes e laterais é uma das marcas do trabalho de Abel Ferreira no Palmeiras. Mesmo com a falta de um jogador que dite o ritmo das jogadas no meio-campo, a equipe consegue levar perigo aos adversários através dessa movimentação. Foto: Reprodução / Premiere / GE

Como se vê, os problemas coletivos do Palmeiras vão muito além da “falta de criatividade” do time. Há sim ajustes mais do que necessários em todos os setores. Principalmente na defesa, um dos pontos mais fortes do escrete de Abel Ferreira nos últimos meses. Mas sair do senso comum e do discurso mais raso da imprensa esportiva se fazia mais do que necessário para se compreender bem tudo aquilo que pode (e deve) ser feito pelo treinador português. Ao mesmo tempo, é sim possível (e saudável para o debate em torno do jogo) criticar, apontar erros e as possíveis soluções para tudo aquilo que foi mencionado anteriormente levando-se em consideração todo o contexto de final de temporada, desfalques e as oscilações naturais do time e de cada jogador. É impossível manter um nível alto de desempenho quando temos um calendário tão bagunçado! Mas é possível se adaptar às diferentes situações sem cair tanto. E essa parece ser a grande missão do Palmeiras nessa reta final.

Também há como dizer que Abel Ferreira tem exagerado no tom das entrevistas coletivas e até passado (muito) do ponto em determinadas falas. Por outro lado, este que escreve entende bem a revolta do treinador do Palmeiras com relação à maneira como alguns jornalistas “analisam” seu trabalho. Seja como for, o que o torcedor deseja ver é o comandante do elenco passando calma e tranquilidade aos jogadores em cenários mais complicados. Mais do que nunca, o escrete palmeirense precisa de paz e foco para encarar o que ainda está em jogo.

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