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Por respeito à diversidade, pilotos escancaram contradição da F1 na Arábia

Direitos das mulheres e movimento LGBTQIA+ entram em pauta na primeira corrida da história na Arábia Saudita

Victor Gonçales
Jornalista formado pela Universidade Metodista de São Paulo, trabalhou no Diário Lance!, Portal iG e no portal Basketeria, especializado na cobertura de basquete. Trabalhou, também, na assessoria de imprensa da Liga Nacional de Basquete

Crédito: Divulgação

A Fórmula 1, pela primeira vez na história, colocou os pés na Arábia Saudita para a disputa de um Grande Prêmio. A corrida acontece neste domingo (5), na cidade de Jeddah. Mas não é só a intensa disputa entre Max Verstappen e Lewis Hamilton pelo título da temporada que está em evidência na terra dos sheiks. As violações contra os direitos humanos, em especial aos direitos das mulheres no país árabe, e contra a comunidade LGBTQIA+ se tornaram impossíveis de serem ignoradas dentro de uma categoria com pilotos cada vez mais engajados e ativistas das causas sociais.

A Arábia Saudita é uma monarquia absolutista muçulmana, que faz uma interpretação radical do Alcorão, o livro sagrado do Islamismo. No país, ser homossexual é crime passível de prisão e até pena de morte. Para as mulheres, as restrições de liberdade são muitas. Elas são proibidas de saírem de casa sem a companhia do marido ou de um homem da família. E, para se ter uma ideia, até 2018 elas eram proibidas por lei de dirigirem automóveis.

Sem falar na repressão a jornalistas e opositores da ditadura saudita – aqui lembramos do assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, colunista do “The Washington Post”, morto em uma embaixada do país em Istambul a mando do príncipe saudita Mohamed Bin Salman, segundo relatório de inteligência dos EUA.

Parece, então, uma contradição uma categoria que em 2020 criou uma campanha contra o preconceito chamada “We Race As One” (“Corremos como um”, na tradução ao português) aceitar realizar um GP em um país com este histórico. É o que alguns dos pilotos fizeram questão de demonstrar em suas declarações à imprensa, posts em redes sociais ou em ações práticas.

“Como disse na última corrida, senti que o esporte e que nós temos o dever de tentar ajudar a aumentar a conscientização para certas questões que vimos, particularmente os direitos humanos nos países para onde vamos”, declarou, em entrevista coletiva nesta quinta-feira (02), o heptacampeão mundial, claramente incomodado. “Se eu me sinto confortável aqui? Não diria que sim, mas não é minha escolha estar aqui, o esporte optou por estar aqui. Seja certo ou errado, enquanto estivermos aqui, acho importante tentarmos aumentar a conscientização”, completou o piloto da Mercedes.

Hamilton vai novamente correr utilizando o capacete com a pintura que ostentou na prova anterior do campeonato, no Catar, que tem em destaque as cores do arco-íris, símbolo da comunidade LGBTQIA+. O país, que será sede da Copa do Mundo de Futebol em 2022 é outro que segue das premissas religiosas como justificativas para violações de direitos humanos, assim como os Emirados Árabes, que sediará o último GP da temporada de Fórmula 1 daqui uma semana.

Já Sebastian Vettel, piloto da equipe Aston Martin, promoveu um evento de Kart somente para mulheres na Arábia Saudita e disseminou nas redes sociais a hashtag #RaceForWomen (“Correndo pelas Mulheres” em tradução livre).

“É claro que existem muitas conversas sobre correr aqui, é a primeira vez na Arábia Saudita. Estava pensando no que poderia fazer, temos tanta atenção e foco em exemplos negativos quando se trata das deficiências de certos países no que diz respeito aos direitos humanos e outras coisas”, disse o tetracampeão mundial, um dos mais envolvidos em causas progressistas no atual grid.

Outro que se manifestou, porém de forma mais discreta, foi Mick Schumacher, filho do heptacampeão mundial e lenda do automobilismo Michael Schumacher. O piloto da equipe Haas postou em sua conta no Instagram uma foto utilizando uma camiseta com as cores do arco-íris, com corações coloridos na legenda.

Enquanto isso os organizadores da Fórmula 1 se equilibram entre o discurso inclusivo e o dinheiro dos árabes, que com tanta riqueza oriunda da farta exploração de petróleo na região não medem despesas para tentar melhorar a imagem de seus países. A categoria não abre suas contas, mas estima-se que só a taxa cobrada da organização local para receber uma corrida de F1 custe entre US$25 milhões (R$142 milhões) e US$35 milhões (R$198 milhões). Certamente um dinheiro que vem bem a calhar após as perdas causadas pela pandemia de Covid-19, que provocou o cancelamento e remarcações de diversas provas nos últimos dois anos.

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