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Algumas considerações honestas, sinceras e um tanto impopulares sobre a permanência de Sylvinho

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira avalia o trabalho do treinador à frente do Corinthians no Brasileirão e projeta a temporada de 2022

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Rodrigo Coca / Agência Corinthians / Fotos Públicas

Poucos treinadores geraram tanta controvérsia nesses últimos meses como Sylvinho. Não somente pelo seu desempenho no comando técnico do Corinthians, mas por todo o contexto louco no qual a equipe paulista esteve inserida nessa temporada. De equipe candidata ao rebaixamento (como era colocado por boa parte da imprensa esportiva no meio do ano), o Timão ganhou reforços, se reencontrou em campo e foi colecionando bons resultados até terminar o Brasileirão num honroso quinto lugar e garantir um lugar na fase de grupos da Copa Libertadores da América de 2022. Repetimos: tal feito parecia impensável quando a temporada começou. Mesmo assim, a Fiel Torcida elegeu Sylvinho como um dos grandes “vilões” do ano e torceu o nariz quando a diretoria anunciou sua permanência na equipe ao final da temporada. Este que escreve, no entanto, possui uma opinião bastante impopular sobre o trabalho do treinador do Corinthians.

A estreia de Sylvinho aconteceu no dia 30 de maio (justamente na primeira rodada do Campeonato Brasileiro), na derrota para o Atlético-GO na Neo Química Arena. Ao todo, foram 40 partidas à frente do Corinthians com 15 vitórias, 13 empates e 12 derrotas (aproveitamento de 48%). No início do seu trabalho, o treinador corintiano sofreu com a falta de material humano para montar a sua equipe de acordo com aquilo que acreditava e com os conceitos que aprendeu ao longo de vários anos trabalhando como auxiliar no Sport, Cruzeiro, no próprio Timão e na Seleção Brasileira. As chegadas de Renato Augusto, Giuliano, Willian e Roger Guedes permitiram que o treinador pudesse implementar seu 4-1-4-1 preferido com muita movimentação ofensiva e bastante compactação na frente da área. As ideias que Sylvinho trazia tinham valor e eram muito bem executadas pelos jogadores nos jogos válidos pelo Brasileirão.

A chegada dos reforços permitiu que Sylvinho implementasse seu 4-1-4-1 preferido com muita qualidade na saída de bola, linhas compactadas e meias interiores muito presentes na criação das jogadas. O Corinthians ganhou força ofensiva e qualidade com e sem a bola. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Com material humano, Sylvinho pôde finalmente implementar parte dos seus conceitos no Corinthians. E eles começavam por uma defesa bem ajustada e que tem muita influência do trabalho realizado por Tite. Volantes bem posicionados, laterais defendendo a profundidade (e que dificilmente desprotegem o espaço às suas costas), zagueiros com ótimo passe e bastante atento na movimentação dos companheiros de equipe e atacantes buscando o espaço entre as linhas adversárias. E aqui temos a primeira consideração mais “impopular” deste que escreve. Podemos falar muitas coisas sobre o trabalho de Sylvinho. Menos que ele não tem uma ideia bem clara do que quer que sua equipe faça com e sem a bola. Este que escreve vê sim um treinador que deseja potencializar o talento dos seus jogadores ao máximo e que busca criar condições para tal. Mesmo que suas escolhas não sejam as mais adequadas em determinados momentos.

O Corinthians terminou o Brasileirão com 40 gols a favor e apenas 36 sofridos, números que mostram que a defesa teve bom desempenho na competição e que o ataque ainda precisa de alguns ajustes embora tenha feito a diferença em determinados momentos. Com o 4-1-4-1 quase imutável de Sylvinho fazendo a inversão para um 2-3-5 com Fábio Santos e Fagner mais por dentro, o Timão conseguia empurrar as defesas adversárias para trás e ainda abrir espaços pelos lados com as chegadas dos interiores (principalmente Renato Augusto) e a movimentação constantes dos “pontas” mais por dentro. Não era raro ver Roger Guedes e Willian aparecendo pelo meio e Jô (a referência ofensiva do time de Sylvinho) ocupando o espaço que um deles deixou pelo lado do campo. Tudo para que Renato Augusto tenha tempo para decidir se aciona o extremo ou se tenta o passe de ruptura como vimos tantas vezes nessa reta final de Campeonato Brasileiro.

Extremos aparecem por dentro, Jô dá profundidade e laterais avançam por dentro e atacam o espaço. Tudo é feito para que Renato Augusto tenha tempo para decidir se faz o passe de ruptura ou se aciona um dos “pontas” no duelo individual contra um dos zagueiros adversários. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Por outro lado, é preciso dizer que Sylvinho acabou pecando um pouco pela teimosia e pelo apego extremo a determinados conceitos. Inicialmente, o treinador manteve Roger Guedes como “falso nove” para depois apostar em Renato Augusto no setor. O Corinthians perdeu força ofensiva e o passe qualificado do camisa 8 no meio-campo (justamente um dos pontos mais fortes do time). Depois de desperdiçar pontos importantes que poderiam ter colocado a equipe numa posição melhor no Brasileirão, Sylvinho apostou em Jô como uma referência mais fixa no ataque e adaptou seus conceitos às características do grupo que tinha à disposição. Por mais que Renato Augusto tenha vindo a público defender o trabalho do treinador, algumas de suas escolhas foram bastante questionáveis e irritaram demais a torcida corintiana. Ainda mais quando estava mais do que claro que o Timão podia render muito mais do que vinha rendendo.

Sylvinho insistiu em Renato Augusto jogando como “falso nove” até apostar na entrada de Jô no comando de ataque. Com o camisa 8 de volta ao posto onde se sente mais confortável, o Corinthians subiu de produção e ganhou qualidade nos passes em todos os setores. Foto: Reprodução / TV Globo / GE

Por mais que Sylvinho mereça parte das críticas por conta de algumas escolhas que fez ao longo da temporada no Corinthians, é preciso reconhecer que sua equipe tem uma ideia bem clara de jogo. É verdade que Renato Augusto, Willian, Roger Guedes e companhia tenham feito a diferença em vários momentos. E também ficou evidente que o modelo de jogo implementado pelo treinador tem sim qualidade e ajudou a potencializar o talento destes e de nomes extremamente promissores como Joao Victor (zagueiro para mais de dez anos), Du Queiroz, Gabriel Pereira, Roni, Xavier e outros que entregaram bom desempenho com a camisa corintiana em 2021. Ao mesmo tempo, a recuperação de Cantillo (jogador que se encaixou muito bem jogando como “5” no 4-1-4-1 de Sylvinho) e a chegada de Paulinho podem elevar ainda mais o nível do jogo praticado pelo escrete do Parque São Jorge. O Corinthians tem uma linha de pensamento clara e ela precisa ser trabalhada.

Este que escreve concorda plenamente que o trabalho de Sylvinho ainda tem muitos pontos que precisam de ajustes e que o apego a determinados conceitos acabou sendo a causa de alguns dos insucessos do Corinthians no Campeonato Brasileiro. No entanto, por tudo que fez ao longo do ano, por ter topado comandar o time num momento conturbado e sem os reforços que chegaram e pelas ideias colocadas em prática, Sylvinho merece uma pré-temporada e um pouco mais de tempo. Ainda mais quando se sabe que a equipe já comprou suas ideias.

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