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Tottenham 3 x 0 Arsenal: organização e intensidade fazem a diferença

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa as escolhas de Antonio Conte e Mikel Arteta e a briga pela vaga na próxima Champions League

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Reprodução / Twitter / Tottenham Hotspurs

É verdade que a vitória do Tottenham sobre o Arsenal no “North London Derby” desta quinta-feira (12) foi marcada pelos protestos contra a arbitragem de Paul Tierney. O “homem do apito” marcou uma penalidade duvidosa de Cédric Soares e deixou o técnico Mikel Arteta bastante contrariado por conta de outras decisões questionáveis (confira no vídeo mais abaixo). Mas nada disso diminui os méritos do escrete comandado por Antonio Conte. Os Spurs aproveitaram as chances que criaram na partida, foram organizados com e sem a bola e muito intensos nos contra-ataques puxados por Harry Kane e Son. A tola expulsão de Holding e a falta de concentração dos jogadores foi outro fator que complicou a vida dos Gunners. Melhor para o Tottenham, que acirrou a briga pela vaga na próxima edição da Champions League.

É verdade também que o Arsenal começou melhor a partida no belíssimo Tottenham Hotspur Stadium (que recebia o North London Derby com público pela primeira vez). A começar pelas boas combinações de Odergaard e Saka pelo lado esquerdo e pela movimentação constante de Nketiah no comando de ataque. O camisa 30 era a referência móvel do 4-2-3-1 de Mikel Arteta e sempre puxava pelo menos um dos jogadores da linha de cinco dos Spurs. Do outro lado, Gabriel Martinelli aparecia sempre buscando a diagonal e procurando o espaço que se abria na frente da área. Tudo para desarrumar o 3-4-2-1 de Antonio Conte. Kulusevski entrou pelo lado direito e ajudava a fechar o setor para que o coreano Son pudesse ter mais liberdade para avançar junto com Harry Kane nos contra-ataques em altíssima velocidade.

Formação inicial das duas equipes em Londres. Antonio Conte apostou em Kulusevski para liberar Son e Harry Kane. Já Mikel Arteta manteve seu 4-2-3-1 costumeiro e escalou Nketiah como referência móvel no ataque.

O pênalti questionável de Cédric Soares em cima de Son aos 20 minutos do primeiro tempo acabou condicionando todas as ações da partida. Isso porque o cenário favorável ao Tottenham de Antonio Conte com a vantagem no placar permitiu que a equipe pudesse jogar como gosta. Linhas fechadas na frente da área, forte marcação no campo de defesa e alta velocidade nos contra-ataques puxados pela temida dupla de ataque. Do outro lado, o Arsenal mostrava que havia sentido demais o gol de Harry Kane e partiu de maneira desordenada em busca do empate. Holding levou o segundo cartão amarelo depois de se estranhar com Son. A situação do time comandado por Mikel Arteta se tornava ainda mais complicada depois que o Tottenham marcou o segundo com Harry Kane em mais um apagão da zaga aos 37 minutos da primeira etapa.

Vale destacar aqui que o treinador dos Gunners não fez nenhuma substituição para recompor o sistema defensivo. Apenas recuou Xhaka para última linha defensiva e trouxe Gabriel Martinelli para fechar o lado esquerdo. Na prática, um 5-3-1 que deixava Nketiah mais avançado, mas que sofreu demais com o ímpeto ofensivo de um Tottenham que não se compadeceu com a situação do seu rival e sempre esteve presente no ataque ainda que em ritmo um pouco mais lento. Com Elneny protegendo a entrada da área e Odegaard mais recuado (quase como um volante), o Arsenal conseguia chegar no campo adversário sempre apostando nos lançamentos às costas dos alas Emerson Royal e Sessegnon, mas sempre pecando nas conclusões a gol e no último passe. Ainda que a derrota tenha sido justa, os Gunners mostraram poder de reação.

Só que o Tottenham seguia muito superior na partida por conta da superioridade numérica e da concentração dos seus jogadores na movimentação ofensiva. Logo aos dois minutos do segundo tempo, Harry Kane dividiu com Gabriel Magalhães (em mais uma decisão questionável por parte do árbitro Paul Tierney que viu não viu nenhuma anormalidade no lance) e a bola sobrou para Son estufar as redes do bom goleiro Ramsdale. Era praticamente a pá de cal nas pretensões do Arsenal e a destruição completa dos planos de Mikel Arteta. Do outro lado, o Tottenham seguia à risca os planos de Antonio Conte. Os Spurs controlavam o jogo na base do volume ofensivo, boas trocas de passe para esgarçar a última linha do adversário, muita intensidade na pressão pós-perda e Harry Kane distribuindo passes no terço final.

O placar final só não foi mais dilatado porque Ramsdale salvou os Gunners com pelo menos duas grandes defesas e porque Son desperdiçou chance incrível na pequena área. As entradas de Nuno Tavares pelo lado esquerdo, Smith Rowe mais por dentro e Lacazette no comando de ataque até deram um pouco mais de mobilidade ao Arsenal, mas nada que fosse suficiente para incomodar um Tottenham muito sólido na defesa e intenso nas transições. Na prática, o time de Mikel Arteta acabou sentindo demais o cansaço e pouco ameaçou a meta de Lloris no segundo tempo. O goleiro francês só trabalhou de verdade num chute de Odegaard e nada além disso. Antonio Conte ainda descansou alguns jogadores e promoveu as entradas de Bergwjin, Lucas Moura e Joe Rodon. O desenho tático não foi modificado e os Spurs apenas administraram o resultado.

Apesar das entradas de Nuno Tavares, Smith Rowe e Lacazette, o Arsenal não conseguiu reagir no segundo tempo. Antonio Conte trocou peças e manteve seu desenho tático básico num Tottenham que apenas administrou o resultado.

Difícil não concluir que, apesar das decisões questionáveis do árbitro Paul Tierney e dos protestos dos Gunners após o jogo desta quinta-feira (12), o Tottenham fez por merecer o resultado por conta de toda a organização apresentada durante os noventa e poucos minutos e pela concentração em cada disputa de bola. Precisamos reconhecer que Antonio Conte conseguiu resgatar a confiança de um elenco bastante subestimado por muitos colegas de imprensa e vem tirando o melhor de jogadores como Harry Kane, Son, Bentancur, Emerson Royal e vários outros. A vaga na próxima edição da Liga dos Campeões da UEFA seria um verdadeiro prêmio para o trabalho do italiano à frente dos Spurs e um castigo para o Arsenal de Mikel Arteta. Mesmo diante da recuperação notável do time na tabela da Premier League.

O “North London Derby” desta quinta-feira (12) nos mostrou também que intensidade, concentração e organização ainda são fundamentais no esporte de alto rendimento. O time que consegue aplicar essas virtudes em campo geralmente sai vencedor. Ainda que o futebol seja forjado no mais puro caos e desordem, controlar as ações é importantíssimo. E essa é a grande lição que o Tottenham de Antonio Conte nos deixa com a vitória importantíssima sobre o Arsenal de Mikel Arteta.