Home Futebol Botafogo tem “reprise” de 2023 com empate na Libertadores e demissão de Tiago Nunes

Botafogo tem “reprise” de 2023 com empate na Libertadores e demissão de Tiago Nunes

Na coluna PAPO TÁTICO, Luiz Ferreira analisa a atuação do Glorioso contra o Aurora, a saída de mais um treinador e a crise sem fim no clube

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.
Botafogo tem "reprise" de 2023 com empate na Libertadores e demissão de Tiago Nunes

Jogadores do Botafogo se movimentam durante o embate contra o Aurora (Vitor Silva/Botafogo)

Este que escreve havia lembrado que o Aurora merecia atenção do Botafogo por conta de uma série de fatores. O principal deles estava na falta de controle dos nervos e de concentração do time até então comandado pelo técnico Tiago Nunes. As lembranças de um 2023 trágico retornaram com força após o gol sofrido aos 51 minutos do segundo tempo.

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E não somente pelo doloroso empate nos instantes finais (uma constante no Brasileirão Série A do ano passado). O Glorioso encontrou dificuldades para controlar o embate na altitude de Cochabamba e padeceu com a desconcentração do seu sistema defensivo em diversos momentos da partida desta quarta-feira (21). Difícil seguir culpando o “trauma de 2023”. O que faltou diante do adversário boliviano foi mesmo um futebol minimamente consistente, que ao menos conseguisse segurar a bola por algum tempo.

Acabou que o “DAY AFTER” ao jogo começou com a demissão de Tiago Nunes. A péssima gestão do grupo, as “revelações” sobre as condições psicológicas de alguns jogadores e suas escolhas táticas contribuíram para sua saída do Botafogo. Mas é bom deixar claro que ele não é o único culpado.

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Escalações iniciais e os primeiros sinais do que estava por vir

Quem via a escalação inicial (com Júnior Santos e Marlon Freitas nos lugares de Savarino e Tchê Tchê, respectivamente) percebeu que Tiago Nunes queria um Glorioso mais “físico”, isto é, que conseguisse vencer duelos e se impor na base da qualidade individual. O que se viu, no entanto, foi uma equipe que teve enormes dificuldades para controlar o espaço atrás da última linha e que viu um Aurora ficar mais com a posse da bola nos primeiros minutos.


Formação inicial das duas equipes. Marlon Freitas e Júnior Santos foram titulares no 4-2-3-1/4-1-4-1 básico de Tiago Nunes. O Aurora manteve a formação com três zagueiros.
Formação inicial das duas equipes. Marlon Freitas e Júnior Santos foram titulares no 4-2-3-1/4-1-4-1 básico de Tiago Nunes. O Aurora manteve a formação com três zagueiros.

Fato é que o Botafogo não conseguia manter a posse da bola e caiu na “trocação” do adversário em diversos momentos. O mais grave, no entanto, estava nas transições defensivas. Não foram poucas as vezes em que Marlon Freitas e Danilo Barbosa ficaram sobrecarregados na marcação e tendo que cobrir uma grande faixa do campo. Além disso, Lucas Halter e Alexander Barboza tinham que se virar para conter os cruzamentos para a área. O cenário era muito complicado.

Todo o sistema defensivo do Botafogo sofreram diante das investidas do Aurora. Faltou ajuda na marcação e mais compactação. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores
Todo o sistema defensivo do Botafogo sofreram diante das investidas do Aurora. Faltou ajuda na marcação e mais compactação. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores

Apesar de todas as dificuldades, o Glorioso realmente conseguia se impor na base da qualidade dos seus jogadores. Tiquinho Soares (apesar de ter desperdiçado mais uma penalidade) se movimentou muito na frente e foi importante para abrir espaços na defesa boliviana. Victor Sá conseguiu boas escapadas pela esquerda e Júnior Santos foi oportunista no lance do gol alvinegro. Ainda era pouco, mas parecia suficiente para segurar o Aurora.

Tiquinho Soares se movimentou bastante no campo de ataque e abriu espaços para as escapadas de Victor Sá e Júnior Santos. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores
Tiquinho Soares se movimentou bastante no campo de ataque e abriu espaços para as escapadas de Victor Sá e Júnior Santos. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores

Depois de abrir o placar, o Botafogo até conseguiu controlar mais o jogo até o intervalo. O problema, no entanto, é que a equipe de Tiago Nunes sentiria novamente a parte física na segunda etapa, principalmente depois que o técnico Mauricio Soria colocou seu time mais à frente ao adiantar as linhas do seu 3-4-1-2 básico. As descidas de Ballivián, Didi Torrico e Serginho em cima de um Hugo completamente desprotegido eram sinais do que estava por vir.

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Tiago Nunes “estaciona o ônibus”, mas o Botafogo decepciona mais uma vez

Por mais que os efeitos da altitude estivessem minando o fôlego dos jogadores, este que escreve viu certa precipitação de Tiago Nunes na saída de Tiquinho Soares. Ainda mais depois que Janderson não aguentou nem vinte minutos em campo. Com Mateo Ponte jogando à frente de Damian Suárez, Tchê Tchê fechando o meio com Danilo Barbosa e Marlon Freitas (ambos exaustos), e Matehus Nascimento brigando sozinho na frente, a Estrela Solitária simplesmente abdicou do ataque.

Tiago Nunes viu Janderson sair com menos de vinte minutos em campo e "estacionou o ônibus" na frente da área do Botafogo. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores
Tiago Nunes viu Janderson sair com menos de vinte minutos em campo e “estacionou o ônibus” na frente da área do Botafogo. Foto: Reprodução / YouTube / CONMEBOL Libertadores

O castigo veio aos 51 minutos da segunda etapa com o belo gol de Dario Torrico. A essa altura, Tiago Nunes já havia deixado a beira do gramado por conta do cartão vermelho recebido após discussão com Mauricio Soria. E na manhã desta quinta-feira (22), acabou demitido do comando do Glorioso. É o quarto treinador do clube depois da saída do comandante Luís Castro para o futebol árabe. E os ecos de 2023 ainda seguem fortes no clube.

É difícil defender Tiago Nunes depois das suas últimas declarações e da insistência em escalar jogadores em posições onde não se sentem confortáveis (como aconteceu com Tchê Tchê, Victor Sá e Júnior Santos, só para citar alguns). Ao mesmo tempo, a exposição do elenco nas entrevistas coletivas também pesou contra o comandante, assim como insistir no “trauma de 2023”. A grande verdade é que faltou futebol ao Botafogo contra o Aurora. Simples.

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Fracasso de 2023: bengala, trauma ou desculpa esfarrapada?

O que se vê no Glorioso hoje é a necessidade urgente de se deixar 2023 no passado. O que aconteceu no último ano não pode ser vir de desculpas para os insucessos do time. Se Tiago Nunes errou em diversos pontos, os jogadores e a diretoria também possuem uma boa parcela de responsabilidade. A falta de concentração, os gols sofridos nos últimos minutos e a falta da “virada de chave” tão necessária cobraram seu preço. Agora é recalcular a rota.

Seja quem for o próximo técnico do Botafogo, fato é que a equipe precisa de muitos ajustes na defesa e na gestão do elenco. E não vai adiantar nada mudar o treinador se os atletas não mudarem a postura e deixarem o que aconteceu no ano passado para trás. Toda uma temporada pode “ir de Americanas” se as coisas não mudarem no clube.