Gabriel Barbosa pelo Santos. Foto: Renato Padalka/Alamy Live News).
O Santos encerrou o primeiro semestre de 2026 com um cenário financeiro preocupante. Segundo relatório do Conselho Fiscal, o clube acumulou déficit de R$ 119,7 milhões até junho, valor 62% superior aos R$ 73,7 milhões projetados no orçamento para o período.
O resultado aconteceu mesmo com uma arrecadação acima da expectativa. O Santos registrou R$ 126,4 milhões em receitas, aproximadamente R$ 35 milhões acima do previsto, mas o aumento dos custos consumiu esse ganho. Além disso, o Conselho Fiscal calcula que o endividamento total chegou a R$ 1,24 bilhão.
Santos arrecada mais, mas também gasta muito acima do previsto
O orçamento estabelecia uma receita de R$ 91,4 milhões para o primeiro semestre. Na prática, o clube arrecadou R$ 126,4 milhões, uma diferença positiva de aproximadamente 38%.
Entretanto, os custos operacionais chegaram a R$ 165 milhões. A previsão era de R$ 108 milhões, o que representa um estouro de aproximadamente R$ 57 milhões somente nesse grupo de despesas.
Com outros gastos também entrando na conta, o resultado acumulado ficou negativo em R$ 119,7 milhões. Assim, o crescimento da arrecadação não foi suficiente para compensar a expansão das despesas.
Folha salarial supera orçamento em R$ 17 milhões
Os gastos com o futebol tiveram impacto importante no resultado. O Santos projetava desembolsar R$ 57,2 milhões com salários durante o primeiro semestre, mas o custo efetivo chegou a R$ 74,2 milhões.
Além disso, em maio, o gasto mensal com jogadores se aproximou de R$ 30 milhões. Foram R$ 14,2 milhões em salários e outros R$ 15,1 milhões referentes aos direitos de imagem.
Em junho, houve uma redução de aproximadamente R$ 10 milhões devido às férias durante a pausa para a Copa do Mundo. O relatório, porém, não esclarece se essa economia momentânea foi utilizada para reduzir obrigações de curto prazo ou incorporada ao resultado deficitário.
Santos chegou a atrasar salários e direitos de imagem
O documento também registra problemas no fluxo de caixa durante o semestre. O clube chegou a acumular dois meses de atraso na folha dos jogadores, referentes a março e abril, além de um mês de direitos de imagem, em maio.
Essas pendências já foram regularizadas pela diretoria. Ainda assim, o episódio ajuda a dimensionar as dificuldades enfrentadas para manter as obrigações em dia durante a temporada.
Atualmente, o Santos possui oito parcelamentos ativos e está com a Certidão Negativa de Débitos vencida devido a parcelas tributárias pendentes.
Conselho Fiscal calcula dívida de R$ 1,24 bilhão
Outro ponto de atenção está na divergência sobre o tamanho da dívida. O balancete apresentado pelo clube registra passivo total de R$ 1,193 bilhão, desconsiderando receitas diferidas.
O Conselho Fiscal, entretanto, entende que o valor correto é de R$ 1,241 bilhão. A diferença de aproximadamente R$ 48,4 milhões aparece principalmente no passivo não circulante, formado pelas obrigações de longo prazo.
| Indicador | Balancete do Santos | Conselho Fiscal |
|---|---|---|
| Passivo circulante | R$ 619,6 milhões | R$ 619,6 milhões |
| Passivo não circulante | R$ 864,9 milhões | R$ 913,3 milhões |
| Passivo total sem receitas diferidas | R$ 1,193 bilhão | R$ 1,242 bilhão |
Dívida aumentou quase R$ 78 milhões em três meses
Pela metodologia defendida pelo Conselho Fiscal, o passivo do Santos também apresentou crescimento durante o segundo trimestre. Em 31 de março, o órgão entendia que as obrigações deveriam ser reconhecidas em R$ 1,164 bilhão.
No encerramento de junho, o montante passou para R$ 1,242 bilhão. Dessa forma, a dívida reconhecida pelos fiscais aumentou aproximadamente R$ 77,8 milhões em apenas três meses.
Já pelo balancete fornecido pela diretoria, o salto foi ainda maior: de R$ 1,094 bilhão em março para R$ 1,193 bilhão em junho.
Direitos de imagem provocam divergência nas contas
Parte da diferença entre os números está relacionada à maneira como determinadas obrigações de direitos de imagem são contabilizadas. O Conselho Fiscal questiona principalmente os casos em que houve formalização de confissão de dívida.
“O Conselho Fiscal entende que, após a formalização da confissão de dívida, a obrigação passa a constituir passivo exigível, devendo ser registrada integralmente e classificada entre circulante e não circulante”, afirma o parecer.
Na avaliação do órgão, portanto, essas obrigações precisam aparecer integralmente no passivo. Esse entendimento ajuda a explicar por que o cálculo dos fiscais supera em aproximadamente R$ 48 milhões o apresentado no balancete.
Conselho Fiscal cobra esclarecimentos sobre dívida com Neymar
O caso de Neymar recebeu atenção específica no documento. O Conselho Fiscal afirma não ter recebido da contabilidade uma conciliação suficiente para identificar de maneira objetiva a composição integral das obrigações de direitos de imagem do jogador.
O débito envolve a NR Sports, empresa da família do atacante. Recentemente, Santos e Neymar chegaram a um acordo para parcelar valores pendentes relacionados aos direitos de imagem em até 80 meses.
Segundo o relatório, a contabilidade explicou o critério utilizado para apropriar os custos, mas não detalhou suficientemente como toda a obrigação está distribuída entre as dívidas de curto e longo prazo.
Empréstimos e antecipações também preocupam
Para enfrentar as dificuldades de caixa, o Santos aumentou a utilização de crédito. Os empréstimos de curto prazo chegaram a R$ 77,7 milhões durante o período analisado.
O clube também antecipou R$ 20,1 milhões em recebíveis por meio da MLD Capital. O Conselho Fiscal alertou para os riscos de aumentar a dependência desse tipo de operação.
A preocupação está no impacto futuro. Ao antecipar receitas, o Santos consegue dinheiro imediatamente, mas reduz recursos que estariam disponíveis nos próximos períodos para financiar suas atividades.
Santos reforçou elenco mesmo em cenário de déficit
Apesar das dificuldades financeiras, a diretoria continuou reforçando o elenco para a sequência da temporada. Arthur, Rodinei, Lima e Everton Cebolinha foram apresentados, enquanto Philippe Coutinho também acertou sua chegada até dezembro.
A estratégia passou principalmente pela contratação de jogadores disponíveis no mercado e por vínculos de curta duração. Lima, por exemplo, afirmou ter aceitado uma redução salarial para fechar com o clube.
O desafio da diretoria, portanto, será conciliar a busca por resultados esportivos com a necessidade de controlar as despesas. O relatório mostra que, mesmo arrecadando acima do orçamento, o Santos terminou o semestre com custos ainda maiores e um passivo superior a R$ 1,2 bilhão.

