A B3 se prepara para entrar em um novo segmento do mercado financeiro brasileiro: os chamados mercados de previsão (prediction markets). Nesse modelo, investidores negociam contratos baseados na probabilidade de determinados eventos acontecerem no futuro, transformando expectativas econômicas em ativos negociáveis.
A iniciativa ganhou autorização da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que permitiu à bolsa desenvolver derivativos estruturados a partir de eventos. No exterior, esse tipo de mercado já é mais consolidado, com plataformas como a Kalshi permitindo negociações ligadas a cenários econômicos, políticos e até climáticos.
O que são os “Contratos de Eventos” da B3?
Os Contratos de eventos B3 são derivativos estruturados a partir de perguntas sobre acontecimentos futuros. O investidor escolhe entre dois cenários possíveis e o pagamento depende da confirmação ou não do evento na data estabelecida.
Na prática, esses contratos transformam expectativas econômicas em ativos negociáveis dentro da bolsa. Assim, será possível fazer previsões sobre fatos que ainda vão acontecer, trazendo a B3 para o mercado de previsão no Brasil.
Inicialmente, os produtos terão ligação direta com indicadores financeiros. Porém, a estrutura poderá ser alterada futuramente, dependendo das mudanças na regulamentação. Ainda, o formato deve seguir as normas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
Estrutura binária (Tudo ou Nada)
A base dos contratos de eventos B3 é a chamada estrutura binária, conhecida como “modelo tudo ou nada”. Isso significa que sempre haverá apenas duas alternativas possíveis para cada evento.
Por exemplo, o investidor pode escolher se o dólar ficará abaixo de determinado patamar em uma data específica. Se o evento se confirmar, o contrato será liquidado. Contudo, se o cenário não ocorrer, o potencial retorno não acontece.
Vale dizer que, neste caso, não há potencial de retorno parcial por aproximação do resultado. Assim, o foco está exclusivamente na precisão da previsão do participante.

Diferença entre esses contratos e as opções tradicionais
Embora sejam classificados como derivativos, estes contratos da B3 possuem funcionamento distinto das opções já negociadas na bolsa. Nas opções comuns, o valor varia conforme o preço do ativo oscila no mercado. Já nos mercados preditivos, o resultado depende exclusivamente se o evento ocorrerá ou não.
Nas opções tradicionais, fatores como volatilidade, tempo até o vencimento e preço influenciam diretamente o contrato. Portanto, a precificação tende a ser mais complexa e técnica. Contudo, na estrutura binária da B3, a decisão se baseia exclusivamente na probabilidade do cenário acontecer.
Outra diferença importante está na dinâmica de contraparte. Nos contratos de eventos da B3, outro investidor assume a posição oposta dentro do ambiente regulado. Isso reforça que o modelo pertence ao mercado de capitais supervisionado pela CVM, e não ao formato tradicional das bets.
Quais eventos poderemos negociar na B3?
Os primeiros produtos da B3 devem ter ligação com indicadores econômicos e determinados ativos. Entre eles estão Selic, IPCA, dólar, bitcoin e outros eventos macroeconômicos. Assim, o foco inicial dos mercados preditivos será o universo financeiro já acompanhado pelos investidores.
No caso da Selic, por exemplo, será possível investir em Selic B3 por meio de contratos ligados às decisões do Copom. O investidor poderá escolher se a taxa subirá, cairá ou permanecerá estável em determinada reunião.
O IPCA também deve integrar os contratos de eventos da B3, permitindo posições sobre a inflação oficial do país. Então, perguntas sobre o nível de determinado índice, por exemplo, poderão fazer parte de novos contratos, implicando a leitura dos mercados como uma forma de leitura econômica.
Além disso,ativos como dólar e bitcoin estarão entre os primeiros eventos disponíveis. O participante poderá indicar, por exemplo, se o dólar ficará abaixo de certo valor em uma data específica. Contudo, no caso do bitcoin, a lógica seguirá o mesmo padrão binário aplicado aos demais ativos.
Regulação: o papel da CVM e a segurança para o investidor
A entrada da B3 no mercado de previsão no Brasil se deu após a autorização formal da CVM. A Comissão de Valores Mobiliários analisou os produtos como derivativos financeirosdentro da regulamentação atual. Isso significa queos contratos da B3 serão supervisionados pelo mercado de capitais.
Inicialmente, a participação será restrita a investidores profissionais com alto volume aplicado. Contudo, a B3 já discute a possibilidade de ampliação futura ao público de varejo.
A atuação da CVM também busca evitar um vácuo regulatório. Por isso, é necessário haver regras claras, proteção jurídica, transparência e segurança institucional.
Além disso,cada contrato precisa respeitar critérios objetivos e estrutura previamente definida. Diferente de ambientes informais, estes mercados preditivos devem seguir uma rígida fiscalização em um ambiente supervisionado.
B3 x “Bets”: por que o mercado preditivo é diferente das apostas esportivas?
À primeira vista,os mercados preditivos podem lembrar as apostas esportivas, pois ambos trazem previsões sobre eventos futuros. Porém, a estrutura jurídica e operacional é diferente. Na B3, os contratos são classificados como derivativos e supervisionados pela CVM.
Já nas bets, a própria plataforma costuma assumir o risco da operação como contraparte, enquanto, nos contratos de eventos B3, outro investidor assume esta posição. Assim, há equilíbrio entre os participantes, seguindo regras do mercado de capitais.
Outra diferença envolve o ambiente regulatório no Brasil. As apostas esportivas são supervisionadas pelo Ministério da Fazenda, por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA/MF). Contudo, os mercados preditivos financeiros são supervisionados pela Comissão de Valores Mobiliários.
Além disso, enquanto as bets costumam ter caráter recreativo,os contratos da B3 integram estratégias financeiras. Assim, o mercado de previsão no Brasil se posiciona mais próximo da gestão de risco do que do entretenimento.

Como isso impacta a sua carteira de investimentos?
Os contratos da B3 podem ir além da especulação sobre cenários econômicos. Eles também podem funcionar como instrumentos de proteção dentro de uma estratégia maior. Assim,os mercados preditivos passam a ser utilizados como ferramenta de cobertura(hedge).
Por exemplo, ao investir em Selic B3, o participante pode se posicionar diante de decisões do Copom que impactam outros ativos. O mesmo vale para contratos ligados ao dólar ou IPCA. Contudo, apesar da supervisão da CVM, é importante priorizar a gestão de risco.
Conclusão: quando os novos contratos estarão disponíveis?
A expectativa é que a B3 lance os primeiros contratos ainda no primeiro semestrede 2026. Inicialmente, o acesso será restrito a investidores profissionais, conforme autorização da CVM. Contudo, há discussões para ampliar o público futuramente.
Com isso,o mercado de previsão brasileiro passa a integrar uma tendência global financeira. Ainda, a supervisão da Comissão de Valores Mobiliários será determinante para o desenvolvimento seguro do segmento. Assim, neste cenário, os mercados preditivos devem ganhar cada vez mais espaço no ambiente regulado brasileiro.

