Seedorf (dir.) foi um marco na história do futebol brasileiro (Foto: AP Photo/Felipe Dana)
A aventura de Memphis no Corinthians remete à primeira vez que um jogador holandês foi para o Brasil. Em 2012, o Botafogo trouxe Clarence Seedorf, uma estrela mundial, mas também uma série de problemas. No Rio de Janeiro, a passagem dele é lembrada com sentimentos mistos.
Seedorf abriu as portas no Brasil para Memphis
Após uma carreira gigantesca em grandes clubes europeus, Seedorf surpreendeu a todos ao assinar com o Botafogo. O clube tradicional, mas em decadência, do Rio de Janeiro conseguiu contratar o tetracampeão da Liga dos Campeões graças à conexão dele com o Brasil por meio de sua então esposa brasileira.
Milhares de torcedores do Botafogo e mais de cem jornalistas se reuniram incrédulos no aeroporto para ver se o astro europeu realmente desembarcaria. “Ser recebido assim, no coração do futebol, me enche de orgulho”, declarou Seedorf. “Nos últimos doze anos, sempre passei férias aqui. Amo o futebol, as pessoas e a história impressionante. O Brasil está no meu coração“, completou.
Seedorf foi rapidamente considerado “o melhor jogador estrangeiro a atuar por um clube brasileiro”. Ele escolheu o Botafogo, após recusar propostas do Corinthians e Flamengo, para se juntar a um clube histórico, mas em crise. “O Botafogo era um caos na época”, explica o jornalista Thiago Rabelo. “O clube tem um passado glorioso, talvez um dos maiores da história do futebol brasileiro, mas desde os anos 2000 enfrenta sérios problemas administrativos e financeiros“, contextualizou.
Ao chegar, Seedorf foi apresentado como o novo líder, que traria mais profissionalismo com sua experiência e conhecimento europeu. “Os padrões eram diferentes do que ele estava acostumado. Foi difícil para ele se adaptar. Seedorf jogou por Ajax, Real Madrid e Milan. E, de repente, estava no Brasil, em um clube que não era exemplo de profissionalismo. Até a diretoria e os torcedores do Botafogo reconhecem isso“, afirmou Rabelo.

As exigências rigorosas de Seedorf
Seedorf ajudou a melhorar as instalações e introduziu, entre outras coisas, refeições esportivas no Botafogo. Graças ao holandês, tornou-se hábito comer macarrão após os jogos como parte do processo de recuperação. Mais tarde, outros clubes brasileiros adotaram essa prática.
No entanto, ao elevar o nível de profissionalismo, Seedorf também gerou resistência. “Ele teve problemas com muitas pessoas, como companheiros de equipe e membros da comissão técnica. Acho que ele exagerava em sua abordagem. Tinha uma certa arrogância e necessidade de se mostrar superior aos outros. Ele chegou a querer mudar o hino do clube”, relatou Rabelo.
Igor Siqueira, do UOL Esporte, também percebeu que Seedorf enfrentou um choque cultural. O jornalista recorda que, por exemplo, as entrevistas nem sempre eram tranquilas. “Embora ele falasse português, o que facilitava a comunicação, sua personalidade forte tornava desafiador para os jornalistas trabalharem com ele”. Até os árbitros sentiram a forte personalidade do meia, então com 36 anos. “Seedorf foi expulso por um jovem árbitro, Philip Georg Bennet, por sair do campo pelo lado errado durante uma substituição. Eles discutiram, e Seedorf não obedeceu”.
Sucesso breve, mas sem amor eterno
Dentro de campo, Seedorf teve um sucesso relativo, contou Thiago Franklin, que cobria o clube para a Globo. “O plano de conquistar um título nacional fracassou. O clube venceu apenas o Campeonato Carioca em 2013, mas se classificou para a Copa Libertadores no final daquele ano. Seedorf foi decisivo nesse processo. Em seu segundo ano, jogou como ‘falso nove’ e teve uma temporada muito produtiva, marcando muitos gols”.
Os torcedores do tradicional clube carioca gostaram de assistir a Seedorf, mas após sua saída, o vínculo esfriou rapidamente. “Ele nunca se tornou um ídolo de verdade, porque nunca voltou para assistir a um jogo, nem mesmo quando estava na cidade. Ele não segue o clube nas redes sociais e nunca mostrou muito interesse em manter uma relação próxima com o Botafogo”.
Ainda assim, Seedorf deixou um impacto duradouro no Botafogo e no futebol brasileiro. “Antes de sua chegada, ninguém acreditava que um jogador do nível dele viria para o Brasil. Ele provou que o Botafogo podia atrair grandes jogadores internacionais, independentemente da liga ou país em que atuassem. A chegada de Memphis ao Corinthians não causou o mesmo impacto. A influência de Seedorf dentro e fora de campo foi muito maior”.
Quem percorre as ruas do Rio de Janeiro ainda pode ver a imagem do ex-jogador holandês. Em um mural no centro de treinamento do Botafogo, Seedorf está retratado ao lado de lendas do clube, como Garrincha, Jairzinho e Nilton Santos. Não porque, como eles, tenha sido campeão mundial, mas porque, como uma superestrela europeia, abriu caminho para a entrada de grandes nomes na competição brasileira.

