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Iberê Riveras | A delicada saída de Antônio Carlos Zago do Red Bull Bragantino

Jovem treinador tinha a faca e o queijo na mão para fazer história no revolucionário clube-empresa; optou pelo Japão, e deixou um rastro

Iberê Riveras
Colaborador e colunista do Torcedores.com.

Crédito: Divulgação

As decisões profissionais de cada indivíduo só dizem respeito a ele, isto é inegável, mas “nesse mundão de meu Deus”, ainda mais quando o assunto é futebol, o que não falta é opinião. Como microcosmo das relações humanas, o futebol permite ampla discussão sobre conceitos complexos que permeiam o nosso comportamento, a nossa sociedade. A ética é um deles.

No dia 24 de dezembro, uma “bomba” estourou no interior paulista. De maneira pra lá de surpreendente, Antônio Carlos Zago deixou o comando do Red Bull Bragantino, a nova sensação do futebol brasileiro. O destino do ex-zagueiro da Seleção Brasileira seria o Kashima Antlers, clube japonês no qual Zico fez história no final de sua carreira e agora atua como diretor técnico. Zago tinha contrato com o RB Bragantino até dezembro de 2021 porque quando o documento foi assinado, a princípio com validade até o final de 2020, havia uma cláusula que ampliava o mesmo por mais um ano em caso de acesso para a Série A do Brasileiro em 2019 ou 2020. Como se sabe, a missão foi alcançada. O que não se imaginava é que o já difícil rompimento se tornaria um pandemônio por conta da trombada entre as partes em relação ao valor da multa rescisória.

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A notícia ganhou forte repercussão porque o clube-empresa controlado pela multinacional austríaca de energéticos era um dos assuntos mais comentados do “mercado da bola”, quando o jogo sai das quatro linhas e vai para o balcão de negócios. Com poder de fogo de R$ 200 milhões para queimar e uma política de contratação diferenciada, o Red Bull Bragantino começava a desafiar os maiores clubes do país investindo apenas em jovens valores, uns mais promissores, outros já renomados. Zago participou da escolha da maioria deles.

O técnico de 50 anos de idade era peça importantíssima na enxuta engrenagem da mais nova aventura esportiva da Red Bull, multinacional de de energéticos que detém, entre outros, os clubes que lideram os campeonatos alemão e austríaco. Ao lado de seu superior, o CEO Thiago Scuro, Zago formava uma dupla de carecas entrosada que prometia ir longe. O relacionamento entre os dois, baseado em alto nível de profissionalismo, funcionava bem e tudo leva a crer que não foi um dos motivos da abrupta saída do treinador. A semana entre o Natal e o Ano Novo, que prometia ser de empolgação na Terra da Linguiça, foi tensa. Até mesmo o anúncio oficial do novo nome e escudo da equipe, no primeiro dia do ano, acabou ofuscado.

Um dos pontos que embaralha o entendimento da decisão de Zago é que há tempos ele manifestava em entrevistas o sonho de voltar a trabalhar na Europa, agora como treinador. O auge de sua carreira como jogador foi o período na Roma, entre 1998 e 2002. Não é difícil imaginar que a sequência de seu ótimo trabalho à frente do clube do RB Bragantino, agora na elite do futebol nacional, poderia escancarar as portas do Velho Mundo para o seu projeto pessoal. O repórter da Rádio 102.1 FM, Diego Perez, acrescenta um dado que reforça a ideia. “Instabilidade do técnico com o clube não teve até porque o clube tinha acabado de mandar o Zago para a Europa, um período de experiências no Leipzig e no Salzburg, que são outros clubes controlados pela Red Bull.”

Curiosamente, foi neste “inverno europeu” bancado pela Red Bull que as conversas entre Zago e Zico, representando o Kashima Antlers, se intensificaram. Na volta ao Brasil, a opção pelo Japão foi comunicada ao clube. Que um contrato seria rompido e uma multa rescisória teria de ser paga, já se sabia. Que os valores poderiam ser diferentes e os advogados das partes tivessem que trabalhar num acordo, era possível. Que o entendimento do bom-senso fosse tão distante, não se supunha. Que se cegasse a ponto de atravessar o samba, atropelar datas, detonar planejamentos… que bobagem!

No dia 2 de janeiro, o Kashima Antlers anunciou de forma oficial a contratação de Antônio Carlos Zago, o que provocou no Red Bull Bragantino uma reação imediata. Em nota oficial, o clube ratificou que Zago possuía contrato até dezembro de 2021 e que, sabedor da proposta do clube japonês e do interesse manifesto do treinador, negociava o pagamento da multa rescisória. No entanto, o acerto ainda não havia sido finalizado. “Para nossa surpresa, porém, recebemos o anúncio oficial do Kashima Antlers, em suas mídias sociais, de Zago como novo contratado do clube, com frases ditas pelo próprio técnico. Entendemos tal ato como um pedido público de demissão por parte do treinador. Assim, adotaremos todas as medidas necessárias para que as cláusulas rescisórias do contrato sejam cumpridas.”

No dia seguinte, o troco de João Henrique Chiminazzo, advogado do treinador. “É com extrema surpresa que recebemos o comunicado […] referente ao desligamento de nosso cliente. […] Existem várias conversas entre as partes, via WhatsApp, desde o dia 23 de dezembro, ou seja, antes da publicação oficial do time japonês, forma pela qual o Red Bull alega ter sido informado. […] O encerramento do vínculo contratual, que terminaria em 31 de dezembro de 2020, já foi requerido judicialmente, em 27 de dezembro de 2019, sendo esta informação já transmitida ao Red Bull Bragantino, com o pagamento da multa constante no Contrato de Trabalho firmado entre as partes. […] A atitude tomada pelo Red Bull é uma forma de manchar a belíssima história construída por Antônio Carlos no clube, criando um desgaste desnecessário e alterando a verdade dos fatos.”

Dias depois, em entrevista coletiva, Thiago Scuro deu o seu parecer. “O assunto agora está entre o nosso jurídico e o advogado dele. De fato, o contrato previa a prorrogação de mais um ano em caso de acesso, essa cláusula foi inclusive um pedido do Antônio no processo de negociação. Nós anunciamos esse aditivo de mais um ano assim que o acesso foi concluído. Pra nós não tem muita dúvida no aspecto moral, no aspecto do que foi acordado. A gente lamenta que o episódio tenha se tornado mais jurídico do que negocial.” O clube lamenta, mas compreende a saída do treinador, que passará a receber no Japão quatro vezes mais do que os R$ 250 mil que recebia aqui. O que se condena é o procedimento.


Antônio Carlos Zago e Thiago Scuro foram as “mentes brilhantes” do título da Série B

A opinião do experiente radialista Luís Carlos Quartarollo nos ajuda na reflexão. “Eu conheço o Antônio Carlos Zago desde que ele começou a carreira como jogador lá no São Paulo. Era um zagueiro de muita qualidade, um dos melhores que vi jogar, inclusive. Como personalidade, sempre foi um cara muito centrado em objetivos dele mesmo. Foi pensando em crescer na carreira, fazer uma carreira internacional, quando precisava fazer um negócio, ele fazia. Toma umas decisões fortes, às vezes abruptas, como no início de carreira como técnico quando foi para o Palmeiras. Ele mesmo sabe que fez uma coisa errada naquela ocasião, em termos de escolha. Pelo que eu sei, quanto às suas finanças, sempre foi muito ponderado e se tornou um homem riquíssimo. Eu achava que ele ia continuar no Red Bull mesmo com qualquer proposta do exterior, pela proposta, o projeto. Onde a Red Bull tem colocado a mão, ou as suas asas, vamos colocar assim, tem dado muito certo. Se ele quisesse voltar para a Europa como técnico, por exemplo, esse seria um bom caminho. Não consegui entender até agora o que aconteceu. Será que não aprovou o projeto? Será que viu alguma coisa que não gostou? Só o dinheiro acho que não iria decidir, embora seja uma diferença muito grande. Com todo o respeito ao Zico, ao Kashima, mas ele sai do futebol de primeiro mundo, que poderia levar até a Europa com a Red Bull, e vai no campeonato japonês, que com todo o respeito é o quarto, quinto mundo do futebol. Mas, cada cabeça é uma cabeça. Acho que agente, gerente, empresário, não tem nada a ver. O Antônio Carlos funciona com a sua cabeça. Quem sabe um dia ele consiga contar pra gente.”

A diferença entre o valor cobrado pelo Red Bull Bragantino e o que Zago está disposto a pagar ultrapassa impressionantes R$ 2 milhões. O clube-empresa entende que o valor da multa seria de R$ 3 milhões, mas descontadas premiações e outros valores que Zago ainda receberia, cairia para R$ 2,4 milhões. Por outro lado, o advogado de Antônio Carlos o orientou a depositar em juízo nas contas do clube pouco menos de R$ 400 mil. Esta enorme discrepância se dá por um único motivo: o clube de Bragança Paulista considerou que o seu profissional, o mesmo que até um mês atrás vibrava com o sucesso do projeto, gravava entrevistas falando sobre a renovação automática do contrato até 2021 e que era uma de suas caras neste difícil processo de autoafirmação, seria minimamente razoável em caso de separação. Contratos salvaguardam direitos e deveres, a Justiça vai decidir, mas um pouco de “fio do bigode” não faz mal a ninguém.

COPA SÃO PAULO DE FUTEBOL JÚNIOR – Clique aqui para ver a tabela de sábado (11) e aqui a de domingo (12) – todos os jogos serão transmitidos pela TV FPF.

Com 64 clubes, a competição chega à sua 2ª fase. Daqui para a frente, é só mata-mata!

Dos 33 clubes do interior, 15 se classificaram para a 2ª fase – 18 foram eliminados

Classificados (7 como cidade-sede): Ponte Preta, Botafogo de Ribeirão, Novorizontino, Red Bull Brasil, Capivariano, Desportivo Brasil, Votuporanguense, Tanabi, Mirassol, Francana, Ituano, Ferroviária, Sertãozinho, Itapirense e São Bento.

Eliminados (11 como cidade-sede): Osvaldo Cruz, Marília, Assisense, Noroeste, XV de Jaú, Guarani, Velo Clube, Linense, Comercial de Ribeirão, XV de Piracicaba, Primavera, Paulista, Rio Claro, Inter de Limeira, Penapolense, Jaguariúna, Taubaté e Manthiqueira.

SELETIVA DO CARIOCA 2020

Americano de Campos e Friburguense estão disputando a Seletiva que irá apontar mais dois participantes do Estadual do Rio.

5ª rodada

Sábado (11), 15h
Nova Iguaçu x América, no Laranjão (Nova Iguaçu)
Macaé x Portuguesa, no Ferreirão (Cardoso Moreira)
Friburguense x Americano, no Eduardo Guinle (Nova Friburgo)

Classificação: Portuguesa 10 pontos, Americano 7, Macaé 6, América 6, Nova Iguaçu 3 e Friburguense 1.

Outros dois interioranos, o Volta Redonda e o Resende já estão garantidos no Estadual do Rio. Fazem parte do Grupo B e terão a concorrência direta de Fluminense, Vasco da Gama e Madureira, além do 2º colocado da Seletiva.

CAMPEONATO PAULISTA A1  2020 – Clique aqui para ver a tabela detalhada

Dos 16 participantes, nove são do interior.

Botafogo, Ferroviária, Guarani, Inter de Limeira, Ituano, Mirassol, Novorizontino, Ponte Preta, Red Bull Bragantino (interior), Corinthians, Palmeiras, São Paulo (capital), Água Santa, Oeste, Santo André (Grande São Paulo), Santos (litoral).

CAMPEONATO PAULISTA A2 2020 – Clique aqui para ver a tabela detalhada

Dos 16 participantes, dez são do interior.

Atibaia, Monte Azul, Penapolense, Red Bull Brasil, Rio Claro, São Bento, Sertãozinho, Taubaté, Votuporanguense, XV de Piracicaba (interior), Audax, Juventus, Portuguesa, São Bernardo FC, São Caetano (Grande São Paulo) e Portuguesa Santista (litoral).

CAMPEONATO PAULISTA A3 2020 – Clique aqui para ver a tabela detalhada

Dos 16 participantes, 14 são do interior.

Batatais, Barretos, Capivariano, Comercial, Desportivo Brasil, Linense, Marília, Nacional, Noroeste, Olímpia, Paulista, Primavera, Rio Preto, Velo Clube (interior), EC São Bernardo e Grêmio Osasco (Grande São Paulo).

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