Petróleo no CT? Entenda de onde vem o dinheiro no Atlético

Parceiros/investidores resolveram abrir os bolsos e ajudar o Galo a montar um time competitivo para 2020

Guilherme Paladino
Estudante de Jornalismo na UNESP, apaixonado por futebol brasileiro e internacional. Sonho em trabalhar com esporte.

Crédito: Ivan Storti/Flickr Santos FC

A janela de transferências do Atlético é, inesperadamente, a mais surpreendente do futebol brasileiro em 2020. Reforços como Allan e Guilherme Arana, e tentativas por Roger Guedes e Soteldo demonstraram uma força atleticana inesperada no mercado. Até mesmo Jorge Sampaoli foi consultado pelo time, após recusar treinar o Palmeiras. A torcida brinca em redes sociais, dizendo que o clube “achou petróleo no CT”. Mas, afinal, de onde vem tanto dinheiro?

A resposta é: parcerias. Dois enormes parceiros do Atlético resolveram abrir os cofres e ajudar a investir diretamente no futebol do clube. São eles a MRV Engenharia e o Banco BMG. A primeira esteve envolvida na contratação de Allan, e ambas estão participando das investidas por Soteldo. Por consequência, o Galo pode planejar o ano de forma mais ambiciosa do que faria sem essa ajuda.

Esses parceiros são mais do que apenas aliados financeiros. Há uma questão sentimental envolvida. O fundador e presidente do conselho da MRV, Rubens Marin, é atleticano fanático. Um dos acionistas do BMG, Ricardo Guimarães, também nutre paixão profunda pelo time mineiro. Portanto, o Galo, de certa forma, conta com ajuda de torcedores.

Entretanto, nem tudo são flores.

Esse modelo de “parcerias” possui vários riscos, inclusive jurídicos. A Fifa proibiu a participação de investidores em negociações de jogadores, desde janeiro de 2015. A partir disso, empresários e fundos de investimentos foram vetados de possuir direitos econômicos de jogadores. Os direitos agora são distribuídos entre clubes.

Como isso afeta o Galo? É muito simples: frequentemente os investidores arcavam com toda a parte financeira, e os clubes apenas colocavam o jogador para atuar. Caso houvesse lucro ou prejuízo, isso era da conta apenas dos detentores de direitos econômicos. Hoje em dia, isso é proibido. Ou seja, o dinheiro para contratar precisa partir do clube. Este também irá arcar com o lucro ou prejuízo.

Os parceiros entram nessa jogada como “financiadores”. Eles emprestam o dinheiro para o clube, que contrata o jogador e adquire direitos econômicos, mas precisa pagar de volta aos aliados. Mas qual a vantagem disso, em relação a um empréstimo normal? Acima de tudo, os juros cobrados pelos parceiros são bem menores do que os praticados usualmente.

Então não há problema? Lógico que há. O Atlético-MG possui dívida de mais de R$ 700 milhões, além de outros problemas financeiros. Pegar empréstimos para fazer contratações caríssimas (por exemplo, oferecer mais de R$ 50 milhões por Soteldo) pode parecer bom hoje, mas no futuro, a conta chegará. É bem verdade que os parceiros não têm intenção de prejudicar o clube, mas a dívida passará a existir, querendo ou não.

Paralelo com Palmeiras x Crefisa

Um caso muito parecido aconteceu entre o Palmeiras e sua patrocinadora, a Crefisa. Além do patrocínio anual, a empresa também investia em contratações para o clube paulista. O modelo era o seguinte: o banco pagava a contratação de jogadores. Caso esses atletas fossem revendidos com lucro, o banco recuperava o dinheiro investido e o lucro ficava para o Palmeiras. Mas, caso não houvesse lucro, o banco arcava com o prejuízo. Era um negócio à “risco zero” para o alviverde.

A Receita Federal interveio nessa relação. A Crefisa contabilizava esses”investimentos” como despesa da empresa. Assim, seus lucros gerais eram menores, e, consequentemente, os impostos pagos ao governo também. Isso é ilegal. Os contratos com o Palmeiras foram revisados, e, hoje, são contabilizados como “empréstimos”. O clube alviverde, portanto, precisa pagar de volta à Crefisa o valor que ela investiu em contratações.

O negócio ficou da seguinte maneira: caso um jogador “da Crefisa” seja vendido, o Palmeiras tem até dois anos para devolver o dinheiro à sua patrocinadora. Havendo lucro, é do Palmeiras. O perigo é o prejuízo. Caso um jogador não renda ao verdão a mesma quantia que foi investida em sua contratação, o Palmeiras precisa arcar com o prejuízo.

É um negócio horrível? Não necessariamente, por conta dos juros e prazos negociáveis. Mas deixa de ser à “risco zero” por parte do clube, que precisa pagar de volta o que lhe foi emprestado. Para uma instituição frágil financeiramente, pode se tornar um grande perigo à longo prazo. E é com isso que o Atlético precisa ficar esperto.

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