Flamengo repete roteiro de 2019, domina o Athletico Paranaense e conquista a Supercopa do Brasil com grande exibição

Time de Jorge Jesus não encontra muitas dificuldades para vencer o Furacão por 3 a 0 em Brasília; Flamengo teve intensidade, mobilidade e variações táticas para vencer um Athletico Paranaense sem entrosamento e consistência

Luiz Ferreira
Produtor executivo da equipe de esportes da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, jornalista e radialista formado pela ECO/UFRJ, operador de áudio, sonoplasta e grande amante de esportes, Rock and Roll e um belo papo de boteco.

Crédito: Lucas Figueiredo / CBF

É outro patamar. A frase de Bruno Henrique logo depois do empate contra o Vasco resume bem o posto do Flamengo no futebol brasileiro. Os comandados de Jorge Jesus não tiveram lá grandes problemas para vencer o Athletico Paranaense por 3 a 0 neste domingo (16), na Arena Mané Garrincha, e conquistaram a Supercopa do Brasil, título inédito na história do clube. Mais do que os gols de Bruno Henrique, Gabigol e Arrascaeta (e das boas atuações de Willian Arão, Rodrigo Caio, Rafinha e Éverton Ribeiro), o que fica marcado depois dessa vitória foi a repetição do roteiro de 2019: muita intensidade nas transições, movimentação inteligente do quarteto ofensivo e variações no desenho tático da equipe feitas com a bola rolando. O Furacão (que sentiu demais a falta de entrosamento e sofreu o castigo pelos espaços no meio-campo) só conseguiu ameaçar o gol defendido por Diego Alves quando o Flamengo diminuiu seu ritmo por conta da vantagem obtida no placar.

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Enquanto Doviral Júnior mandava o Athletico Paranaense a campo armado num 4-3-3 sem uma referência no ataque (com Rony, Marquinhos Gabriel e Nikão tentando explorar os espaços às costas de Rodrigo Caio, Gustavo Henrique e companhia), o Flamengo entrava em campo e repetia o roteiro de 2019 com algumas virtudes bem conhecidas: movimentação inteligente para buscar o espaço na defesa adversária, intensidade nas transições, organização na saída de bola e muita velocidade pelos lados com Bruno Henrique e Gabigol na variação do 4-1-3-2 tradicional de Jorge Jesus para um 4-2-3-1 que tinha Arrascaeta e Éverton Ribeiro construindo por dentro e abrindo espaços. O lance que originou o primeiro gol do Flamengo na partida chega a ser emblemático. Arrascaeta aciona Gabigol pelo lado direito. Este corta para o meio e percebe Bruno Henrique entrando em diagonal no espaço entre Lucas Halter e Thiago Heleno no miolo da zaga. O cruzamento sai na cabeça do camisa 27 que só desvia para as redes.

O início da jogada do primeiro gol do Flamengo traz Gabigol aberto pela direita, Bruno Henrique entrando em diagonal e Éverton Ribeiro puxando a marcação para que Arrascaeta pudesse pensar o jogo. Essa é apenas uma das variações do time de Jorge Jesus na Supercopa do Brasil. Foto: Reprodução / TV Globo

Nesse momento, o 4-3-3 do Athletico Paranaense já estava bem definido. Wellington permanecia entre as linhas, Nikão e Rony voltavam pelos lados do campo e se alinhavam a Léo Cittadini e Erick na marcação do time do Flamengo. O grande problema, no entanto, estava na compactação das linhas. Os comandados de Dorival Júnior avançaram a marcação, tentaram provocar o erro na saída de bola adversária com o trio ofensivo se movimentando por toda a intermediária. O grande problema estava nas ausências muito sentidas de Léo Pereira, Renan Lodi, Bruno Guimarães, Marcelo Cirino e Marco Ruben. Jogadores que fizeram parte da campanha do título da Copa do Brasil e não estão mais no clube. E isso sem mencionar o técnico Tiago Nunes (hoje no Corinthians). Do outro lado, o ataque do Flamengo se movimentava e aproveitava bem esses espaços no meio-campo. No início do lance que originou o segundo gol do time de Jorge Jesus, Bruno Henrique e Éverton Ribeiro abrem o campo e Arrascaeta e Gabigol atacam os espaços na defesa do Furacão.

Dorival Júnior armou o Athletico Paranaense num 4-1-4-1 sem referência no ataque para encarar o Flamengo. O grande problema estava na falta de compactação da sua equipe. O Furacão cedeu demais e os comandados de Jorge Jesus aproveitaram muito bem todos esses espaços. Foto: Reprodução / TV Globo

O único momento da partida em que o Flamengo sofreu diante do Athletico Paranaense foi quando os comandados de Jorge Jesus diminuíram o ritmo. Isso aconteceu no final do primeiro tempo, quando Diego Alves defendeu chute cruzado de Marquinhos Gabriel (depois que este se livrou de Rodrigo Caio e Gustavo Henrique) e quando Erick não alcançou cruzamento de Rony na pequena área. Um gol a essa altura poderia provocar no Flamengo o mesmo efeito ocorrido na partida contra o Fluminense, no meio de semana, pela Taça Guanabara. Apesar da aposta de Dorival Júnior na escalação de três jogadores rápidos no ataque para aproveitar as bolas lançadas às costas da defesa adversária, o time comandado por Jorge Jesus manteve a concentração e seguiu jogando seu futebol com muita eficiência e sempre levando perigo ao gol defendido por Santos. Bissoli ainda levou perigo acertando a trave e em chute bem interceptado por Diego Alves minutos depois do gol de Arrascaeta. Faltou compactação e entrosamento ao Furacão.

Rony, Marquinhos Gabriel e Nikão tentaram explorar os espaços às costas da última linha do Flamengo, mas acabaram esbarrando na boa atuação do sistema defensivo do seu adversário. O Athletico Paranaense só ameçaou quando o time de Jorge Jesus diminuiu o ritmo e a concentração dentro de campo. Foto: Reprodução / TV Globo

Tirando esses momentos em que os jogadores diminuíram o ritmo e perderam a concentração nos movimentos, o Flamengo não encontrou muitos problemas na partida. No entanto, o que mais impressionou foi a movimentação do quarteto ofensivo e as variações táticas do time comandado por Jorge Jesus. Conhecido por montar suas equipes no 4-1-3-2, o “Mister” organizou o Fla num 4-2-3-1 (conforme falamos no segundo parágrafo) e apostou num 4-3-3 que tinha Éverton Ribeiro alinhado a Gérson, Arrascaeta como “falso nove”, Bruno Henrique e Gabigol pelos lados entrando em diagonal e apoio constante de Rafinha e Filipe Luís. Tudo para não deixar sua equipe “manjada” nas próximas partidas que terá pela frente nesse início de temporada. Aliás, a movimentação de Gabigol saindo da direita para dentro foi um dos grandes achados de Jorge Jesus na Supercopa do Brasil. Não só na dinâmica ofensiva da equipe, mas para bagunçar as defesas adversárias explorando o entrosamento com Bruno Henrique partindo em diagonal.

O Flamengo usou e abusou das variações no seu desenho tático. O time jogou no 4-4-2 mais tradicional, passou para o 4-2-3-1 e também jogou no 4-3-3 com Éverton Ribeiro por dentro, Arrascaeta como “falso nove” e Gabigol partindo da direita para dentro. Iniciativas de Jorge Jesus para não deixar a equipe “manjada”. Foto: Reprodução / TV Globo

Michael, Diego e Renê ainda teriam tempo para entrar no jogo e manter o nível de intensidade da equipe do Flamengo diante de um Athletico Paranaense que ameaçou pouco. O tal “outro patamar” ficou ainda mais claro nesse início de 2020. Bastou que os comandados de Jorge Jesus repetissem o roteiro da temporada anterior para que a superioridade do Fla se fizesse bem evidente dentro do gramado da Arena Mané Garrincha. O Furacão sentiu demais a falta de ritmo (vale lembrar a partida contra o Flamengo foi apenas a segunda do time titular do Athletico na temporada) e também as ausências de jogadores que foram importantes nas campanhas dos títulos da Copa Sul-Americana e da Copa do Brasil. É bem verdade que o time de Dorival Júnior criou chances, fez Diego Alves trabalhar e igualou a partida em intensidade em determinados momentos. Mas o Flamengo (individual e coletivamente) sobrou no gramado da Arena Mané Garrincha e conquistou a Supercopa do Brasil sem muitos sustos.

Este que escreve não crava que o Flamengo irá conquistar tudo em 2020 porque o velho e rude esporte bretão é recheado de detalhes e porque outras equipes podem fazer frente no decorrer da temporada. Mas é preciso dizer que o time de Jorge Jesus já começou o ano em outro patamar. Os outros que lutem.

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